domingo, 11 de junho de 2017

Texto octogésimo terceiro

A escrita é uma superação. A escrita literária é uma transcendência. Não importa o tema, a literatura é esta forma de sobrevoar a existência, agarrá-la de cima num arabesco, arrancá-la do solo e espalhá-la pelo firmamento numa poeira de estrelas, para que ela de novo chova sobre a terra em gotas de sangue cristalino. E se entranhe e fertilize. E se devolva maior. A literatura é a existência enriquecida de fantástico.
Em Teu Ventre é José Luís Peixoto a ensinar-nos o fantástico. Abordando o tema das aparições de Fátima, relata os factos sem concluir, descobre mistérios sem dar explicações. A narrativa não toma partido, porque cada leitor tem direito ao seu próprio fantástico (e à sua fantasia, que é a redução dele em categorias explicáveis), mas coloca-nos num fogo cruzado de perspetivas divergentes, uma espécie de forma aberta literária na qual não podemos permanecer neutros nem acabar onde começámos, talvez assim tenha acontecido ao autor. A escrita é uma superação.
A escrita literária é uma transcendência. Em Teu Ventre aborda o tema das aparições de Fátima colocando-o para lá dos factos, no território de mistério onde ele pode ser debatido. Tal como a nossa vida, afinal o verdadeiro mistério a que José Luís Peixoto quer chegar. Não importa o tema, a literatura é esta forma de sobrevoar a existência, agarrá-la de cima num arabesco, arrancá-la do solo e espalhá-la pelo firmamento numa poeira de estrelas, para que ela de novo chova sobre a terra em gotas de sangue cristalino. E se entranhe e fertilize. E se devolva maior.
A literatura é a existência enriquecida de fantástico. Em Teu Ventre é o fantástico da existência, uma pérola de literatura.

domingo, 21 de maio de 2017

Texto octogésimo segundo

Na cidade dos homens, a maior riqueza é a diversidade. O logro da globalização é a miragem de um sistema – económico, cultural, religioso ou de qualquer outro tipo – dominante apenas porque é mais forte ou abrangente. Urgência, pois, a de lembrar que a mesma globalização possui virtudes de descoberta e encontro, de aproximação de distâncias e comunhão de diferenças, de aprendizagem pelo contraste. A riqueza do múltiplo. Diversidade.
Contexturas cumpre esta urgência. É um manifesto de diversidade, encontro de distâncias que se acercam, de multiplicidades que se unem para mutuamente se valorizarem. É uma comunhão nascida da diferença. Uma viagem de lonjura e regresso, em que formas e cores se deixam dizer em palavras. Cheira-se um distante calor tropical nas telas de Armanda Alves, respiram-se aromas de especiaria, escuta-se a vastidão melancólica de planícies e oceanos e céus. E adivinham-se risos e choros de gentes várias. Esta fulgurante abstração vem ter connosco na inspiração espontânea e intuitiva – dir-se-ia uma actionwriting – dos contos de Luísa Fresta. As narrativas mergulham em nós, ou nós nelas, na imediata identificação das virtudes e vícios de todas as personagens tão próximas, nossas vizinhas por dentro. Porém, tudo o que nelas é banal se supera na penetrante elevação da escrita, que bebe da transcendência das telas e nela se projeta novamente. Encontro de diferenças. A riqueza do múltiplo. Diversidade.
Ainda de livro aberto, na incessante leitura das buscas em que me perco, fico assim reencontrado nesta encruzilhada, «contexturizado» entre a transcendência da pintura, a profundidade da escrita e a prosaica familiaridade das histórias que ambas contam. E, de alguma forma, cresço na compreensão do ser humano. Acrescento-me na noção de mim mesmo perante esta obra tão inesperada e diferente. 
Contexturas: uma leitura urgente. Porque, na cidade dos homens, a maior riqueza é a diversidade.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Texto octogésimo primeiro

Há circunstâncias em que a vida pára. Suspende-se, intemporal. Concentra-se toda naquele instante único em que se vive inteira. Quando nasce um filho, por exemplo. Ou uma filha, neste caso. Quando tu, há dezanove anos. Não foste a primeira, mas és tão – ou mais – importante por isso mesmo: és continuidade, renovação e diferença. Trouxeste-nos a noção de que a vida segue, de que os sonhos não cristalizam nas primeiras metas atingidas, mas reinventam-se sempre. Reafirmaste em nós a esperança de que tudo pode ser outra vez outra coisa e mais. Não poderias ser melhor, porque não podes ser outra, não poderás tornar-te pior, porque és tu mesma. Nasceste. Ocupaste entre nós um espaço que estava vazio sem que o soubéssemos, preencheste-o de uma forma que torna a tua ausência inconcebível. Como se sempre tivesses estado aqui. Surgiste do desejo inefável que nos habitava e deste-nos o tesouro da tua pessoa incomparável. Para nós, continuas a nascer todos os dias.
Há circunstâncias em que a vida pára. Suspende-se, intemporal. Concentra-se toda naquele instante único em que se vive inteira. E vale por isso. Tudo o que escrevi estava naquele momento em que tu, há dezanove anos. Desde então, continuo a viver esse momento, como uma eternidade estendida na finitude dos meus dias. Já eras em nós antes de existires e nós permaneceremos em ti quando já não formos. Porque és nossa filha. Porque tu.

domingo, 2 de abril de 2017

Texto octogésimo


No teatro, vejo o mundo ao contrário. Coloco-me no inverso de mim, para vê-lo no reverso dos seus embustes. Na mentira criada no palco revela-se a verdade escondida nas farsas quotidianas. Há uma transparência genuína na aparente opacidade do jogo de luzes sobre a caixa negra, uma honestidade pura nas subtis invenções do texto. Teatro é sinceridade.
No teatro, vejo o mundo ao contrário. Coloco-me na posição certa para desmontar a realidade obnubilada pela sombra das urgências diárias. Troco as lentes da habitual redução fenomenológica e, assim, abro os olhos para um todo maior. A ficção inventada no palco desenha o meu universo factual com a máxima nitidez. Digo a minha essência em cada gesto que faço, encontro-me no íntimo de todas as entoações com que falo. Teatro é verdade.
No teatro, vejo o mundo ao contrário. Sou mais eu nesta forma de estar. Estou mais em mim nesta forma de ser. O mundo ao contrário. Talvez a forma certa de olhá-lo.

Fotografia de Carlos Alberto Cavaco, no ensaio de Canto do Cisne... ou Talvez Não.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Texto setuagésimo nono


Regressar ao palco. Entrar, fincar os pés na arena, erguer-me do meu chão, pisar as nuvens, explodir-me em presença. Descontrair o corpo, concentrar o espírito. Libertar os deuses que me habitam, descobri-los sob as máscaras de mim. Perder-me.
 Regressar ao palco. Senti-lo dentro. Deixar o antigo inexplicável frenesim de quietude tomar conta de mim, outra vez. Concentrar o corpo, descontrair o espírito. Observar-me no olhar em volta, medir o espaço, fruir o tempo. Saborear a Palavra que se faz texto à minha vista, incorporar o texto que se faz Palavra no meu íntimo. Encontrar-me.
Regressar ao palco. Erguer de novo o gesto, abraçar o rito que me corre nas veias. Soltar enfim a Palavra, transcender a Vida. Ser outro em mim, fazer-me outros no que sou, ser eu próprio nos outros que em mim se fazem. Entregar-me.
Regressar ao palco. Partilhar. Celebrar a Vida que criamos, que transborda de nós e nos une. Imaginar e ser maior. Criar mundos. Acrescentar-me.
Regressar ao palco. Fazer teatro. Salvar-me.

Fotografia de Carlos Alberto Cavaco, no ensaio de Canto do Cisne... ou Talvez Não.

domingo, 12 de março de 2017

Dizer a Imagem 13 - Libertação

No Teatro, a libertação.
Emparedado na colorida infinitude do palco negro, escapo de mim na liturgia dos gestos, no oráculo das palavras, na sacralidade da presença.
Qual flâmine paramentado de si próprio, presido ao rito em que me evado, elevo-me da roupagem constrangida da existência, onde tudo se restringe ao que se permite. E perco-me na transcendente nudez do símbolo, onde nada se limita no que se potencia.
Assisto em mim ao desprendimento dos fantasmas que me habitam, que mais e mais me preenchem nas personagens diversas em que fora de mim me expõem, em seus luminosos gritos de libertos.
O tempo suspende-se, o espaço desvanece-se, a vida expande-se. E não há liberdade maior.
Depois, por não saber evitar, regressarei à contingência, ao horizonte e ao calendário. Vestirei de novo a roupa engomada de estar algures e mirar-me-ei no espelho embaciado de quem devo ser. E continuarei, sonhando a próxima fuga.
No Teatro, a libertação.
O resto… é silêncio.

Fotografia de Carlos Alberto Cavaco, no ensaio de Canto do Cisne… ou Talvez Não.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Texto setuagésimo oitavo

Só precisamos de ser livres. Livres de, mais do que livres para. Aquele que sonha a sua liberdade como um espaço ou um tempo desmedidos onde possa satisfazer os seus caprichos, não passa de um escravo deles mesmos. A verdadeira liberdade não é um território exterior cujas fronteiras se dominam numa luta de ocupação, mas uma atmosfera interior cuja plenitude se conquista numa purificação pelo esvaziamento. Do egoísmo que rebaixa; do preconceito que cega; do medo que tolhe, que traça todas as fronteiras. O medo que origina todas as prisões. A verdadeira liberdade é a superação do medo. A partir de dentro, do centro, do coração. A energia que brota do coração é o amor, única força capaz de preencher a atmosfera interior, de plenificá-la e transbordar, de irradiar e transformar o mundo.
É isto que nos ensina Isabel, a protagonista de Iluminações de uma Mulher Livre. Ensina-nos tudo isto porque é mulher, porque, depois de se deixar prender na sua condição, houve um dia em que ousou libertar-se, revelar-se a si própria e ao mundo. Porque assumiu em si a história de todas as mulheres e todas as mulheres da História. Porque se libertou e tornou-se libertária.
E porque foi escrita por Samuel F. Pimenta. Neste livro, na profundidade e beleza da sua escrita, o Samuel dá-nos o retrato da mulher que há – que deveria haver – em todos nós, desafia-nos a descobri-la, oferece-nos o sonho de liberdade e a promessa da sua concretização. Iluminações de uma Mulher Livre é um livro belo, uma oferenda, um ritual de ascensão do medo ao amor: «O medo é animal, o amor é espiritual».
Pego no livro num acolhimento contemplativo, folheio as páginas em gestos de incensação, devoro a prosa como uma oração interior, música calada que ressoa no meu íntimo. No fim, ao fechá-lo, ecoa-me Santo Agostinho: «Ama e faz o que quiseres».
Só precisamos de ser livres. Só precisamos de amor, para sermos.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Texto setuagésimo sétimo

O dever. A urgência quadriculada das obrigações quotidianas constrange a vontade de parar e gritar. Parar é afastar-me, virar costas ao mundo e às suas lógicas de produtividade e sucesso, partir para dentro à descoberta de tudo. Gritar é escrever, deitar tudo cá para fora no urro gutural da imaginação libertária. Que se esconde no trabalho diário que me esconde. O dever.
Falta-me tempo. Suspendo levemente a tarefa que um dia me apaixonou e hoje ainda me sustenta, olho as minhas mãos. Está tudo nelas: as veias engrossadas pela seiva de tudo o que me corre dentro, os dedos esticados na mímica introvertida de mim, a escrita a querer sair no crescimento silencioso das unhas lentas. A escrita. Falta-me tempo.
E sobra-me dever, que me rouba o tempo. Queria trocar-me comigo, inverter o jogo de máscaras, amachucar para dentro esta remexida diligência profissional que todos veem e pela qual me julgam, e soltar no mundo a energia que todos os dias me resseca e hidrata, sangra-me por dentro e revitaliza-me, num ciclo de implosões fecundas incontáveis. Escrever. Às vezes penso que o mundo seria outro, se eu me virasse do avesso e me mostrasse completamente na eternidade que (não?) sou. Escrever. Porém, que sucederia então à versão conhecida de mim, àquela (real?) imagem que envelhece inscrita no tempo, que se aniquila na formatação do dever? Não suportaria o mergulho na cratera interior do anonimato e, no suicídio, arrastaria esta outra (in)existência desmesurada, eterna no seu constante revigoramento. Escrever.
Falta-me tempo. E sobra-me dever, que me rouba o tempo. Não sou quem julgo ser, cá fora. Sou quem julgo não ser, por dentro. Vivo nas obrigações quotidianas em que morro, camuflando a imortalidade que me povoa.
Porquê?...

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Décima oitava alegoria

não se diz um amor
como o nosso não há
palavras certas somos nós
as palavras ditas
no beijo vivas
no abraço soltas
no olhar plenas
na vida eternas
no Deus que nos fez
                                  decisão
                    vontade
          alma
corpo
um para o outro assim
somos nós
o amor antes
e além das palavras

domingo, 15 de janeiro de 2017

Texto setuagésimo sexto

Há um momento em que a própria vida nos trai. Como se roubasse de volta tudo o que, ao longo de anos, nos prodigalizou: noção de tempo e espaço, relações e afetos, visão do mundo e ligação às coisas, memória e história, fruição do presente e anseios de futuro. A absoluta imprevisibilidade do fenómeno torna inútil qualquer antecipação ou prevenção: o idoso adapta-se às progressivas limitações físicas no seu processo de envelhecimento, aceita com certa bonomia os lapsos de memória ou de encadeamento lógico perante os quais recebe a complacência de todos os que o rodeiam (afinal de contas, ele não foi sempre um pouco assim?...); mas isto é outra coisa.
É outra coisa. É um alheamento de si próprio misturado com a progressiva perda de referências exteriores, é um entrincheiramento definitivo da consciência num reduto intraduzível para o próprio. É uma alienação sem regresso, não sabemos o que é. Chamamos-lhe demência e conjugamo-la em diferentes epítetos, consoante as características que lhe identificamos ou de acordo com o nome do investigador que a estudou.
Não sabemos o que é. É um flagelo que se abate sobre o indivíduo sem que ele se dê conta ou, ainda que dê, sem que nada possa fazer para travar a vertigem rumo ao que o espera: o vazio. Dizemos vazio porque não sabemos o que é. O próprio, que o experimenta, está incapacitado de comunicar a experiência; os outros sentem-se incapazes de decifrá-la. Chamamos-lhe demência e, de um lado ou outro do abismo, vivemos a incompreensão e o desespero. E a revolta por uma tremenda injustiça.
O Pai, a peça teatral de Florian Zeller posta em cena no Teatro Aberto, aborda este tema de forma singular: o texto (arguto e sensível) sugere-nos um olhar sobre a demência na perspetiva do doente que a sofre; a encenação (assustadora por tudo o que tem de sedutor) arrasta-nos para o seu próprio mundo, onde nos sentimos tão perdidos como ele. Como ocupar um espaço constantemente alterado? Como alinhar um tempo entrecortado? Como enfrentar entes queridos que já não sabemos como são, que não nos veem como somos (ou cremos ser) e se nos tornam hostis por isso? Como viver numa realidade que permanentemente se confunde e nos confunde? A personagem do Pai (João Perry enérgico e brilhante, como sempre!) irrita-nos até à compaixão, enternece-nos até à raiva. As restantes personagens, à sua volta (um elenco rigoroso, competente e equilibrado), são aterradoramente parecidas connosco no realismo inoperante, no lógico analfabetismo. E na angústia. Queremos dar a mão a este Pai e mergulhar com ele no imenso labirinto de interrogações e medos em que a sua vida se tornou. Mas não sabemos como. Porque lhe chamamos demência e não sabemos o que é. 
E, a seguir, poderemos ser nós.