domingo, 22 de outubro de 2017

Texto octogésimo sexto

Encararam-se demoradamente, os olhares pesados de emoções reinventadas. Encostada à parede, a música trotava num crescendo que germinava neles uma ira fabricada, tecida com memórias e acasos. Sustentaram os olhares teimosos, despindo-se das circunstâncias do dia na veste negra inexpressiva que envergavam. Seguraram a fúria até ao limite, nos punhos cerrados daquela fixação obstinada.
E, de repente, a música soltou-se numa rebentação, explodiu e inundou a sala acolchoada. E eles atiraram-se um ao outro, libertaram-se de si próprios num confronto que os atou, peles friccionadas num atrito de vontades, corpos entrelaçados numa mistura de emoções. Rolaram pelo chão nas carnes sobrepostas, manietaram-se nos golpes demolidores, prenderam-se num frenesim de fugas. A música não baixava, não reduzia o caudal de submersão. E eles entregaram-se na luta em que se esqueceram de quem eram, alheios a espaço, tempo e circunstância. Transportaram-se das suas vidas, inventaram-se noutra dimensão, transpuseram o portal. Libertaram-se.
No fim, exaustos da viagem, descansaram arquejantes nos suores misturados da metamorfose. Eram espíritos fundidos num magma de corpos. Mas logo se reergueram gratificados no cansaço que os revigorava, encararam-se por um instante, confortados na consciência de já serem outros. Livres.
E, afastando-se, perfilaram-se nas devidas posições. O exercício terminara. Chegara o momento de ensaiar a primeira cena.

domingo, 15 de outubro de 2017

Texto octogésimo quinto

Geraste-te no meu silêncio, fecundado por este imparável olhar que faz entrar por mim adentro toda a visão do ser que já me está no íntimo muito mais. Cresceste-me no casulo das entranhas, metamorfoseaste-te de perceção em palavra e não me deste alternativa. Nasceste num gesto generoso de mim, espalhei-te em volta para que soltasses o primordial vagido na boca de todos os que então te leram em voz alta, sentados em círculo no segredo do chão, rodeando o fogo sagrado que havia de fazer-te crescer.
Eras texto de teatro mas não te bastava. A energia toda que eras não podia conter-se na pequenez imberbe das palavras escritas. Por isso te implantámos em cena, demo-nos a ti nas palavras e intenções em que te deste a nós, invocámo-nos em ti naquilo em que te convocavas para nós. Amadurecemos-te até seres adulto e crescemos por dentro na tua maturação. E estreámos-te e representámos-te. Viveste plenamente na vida plena que nos foste.
Foi há onze anos.
E depois morreste. Sem queixumes, pois sabias que essa era a tua sorte destinada. E um pouco de nós morreu contigo no derradeiro apagar das luzes da última cena, ensinaste-nos a morte na vida que nos deste: «o teatro é a aprendizagem da morte, porque é a experiência das coisas que acabam». Sabemos que essa é a nossa sorte destinada.
Foi há onze anos.
Mas ficaste-me tanto cá dentro, desde aí!... Coloriste-me a memória, chamaste-me repetidamente nos interregnos em que ignorava o fogo sagrado porque outros lumes me queimavam, ecoaste-me nas entrelinhas de outros textos que fui celebrando. Ficaste-me tanto!... (Não é de estranhar: geraste-te no meu silêncio, cresceste-me no casulo das entranhas, nasceste num gesto generoso de mim… Como poderia ser de outro modo?)
Por isso agora te ressuscito. Convoco-te mais uma vez do sepulcro em que te engavetei, quero trazer-te de volta à vida para que de novo me faças viver. Transfiguro-te para que sejas outro sem deixares de ser o mesmo, porque assim é a natureza e assim é o homem, e tu és Natureza e tu és o Homem.
Ressuscito-te agora, porque és texto de teatro e não te basta. A energia toda que és não pode conter-se na ridícula mortalidade de uma lembrança saudosa. Vamos pôr-te em cena outra vez para que outra vez vivas nas palavras e intenções que digamos e na nossa forma de dizê-las, porque tu és tudo isso que nós somos. E para que vivas também do outro lado, nos olhares que observem, nos corações que se emocionem, nas entranhas que estremeçam. Porque tu és tudo isso também.
És a Natureza e o Homem. E todos precisamos de ti!

domingo, 1 de outubro de 2017

Texto octogésimo quarto

Votar. Um direito, um dever cívico. Um direito conquistado, um dever que decorre da própria conquista do direito.
Votar. A política como obrigação, não pode ser outra coisa. Porque a democracia não é um somatório de direitos, mas uma arquitetura de deveres: é do compromisso de cada um que nasce a liberdade de todos. E dele próprio.
Votar. Uma imperiosa necessidade individual e coletiva. E colorida. Não posso ser a voz de outro, nenhum outro tem direito ao grito que eu devo. Todos juntos seremos a harmonia de variedade que o mundo precisa de ouvir. E aprender, porque a democracia não deve ser uma ditadura de maiorias, mas um entendimento de diversidades.
Votar. A diversidade em ato.

domingo, 11 de junho de 2017

Texto octogésimo terceiro

A escrita é uma superação. A escrita literária é uma transcendência. Não importa o tema, a literatura é esta forma de sobrevoar a existência, agarrá-la de cima num arabesco, arrancá-la do solo e espalhá-la pelo firmamento numa poeira de estrelas, para que ela de novo chova sobre a terra em gotas de sangue cristalino. E se entranhe e fertilize. E se devolva maior. A literatura é a existência enriquecida de fantástico.
Em Teu Ventre é José Luís Peixoto a ensinar-nos o fantástico. Abordando o tema das aparições de Fátima, relata os factos sem concluir, descobre mistérios sem dar explicações. A narrativa não toma partido, porque cada leitor tem direito ao seu próprio fantástico (e à sua fantasia, que é a redução dele em categorias explicáveis), mas coloca-nos num fogo cruzado de perspetivas divergentes, uma espécie de forma aberta literária na qual não podemos permanecer neutros nem acabar onde começámos, talvez assim tenha acontecido ao autor. A escrita é uma superação.
A escrita literária é uma transcendência. Em Teu Ventre aborda o tema das aparições de Fátima colocando-o para lá dos factos, no território de mistério onde ele pode ser debatido. Tal como a nossa vida, afinal o verdadeiro mistério a que José Luís Peixoto quer chegar. Não importa o tema, a literatura é esta forma de sobrevoar a existência, agarrá-la de cima num arabesco, arrancá-la do solo e espalhá-la pelo firmamento numa poeira de estrelas, para que ela de novo chova sobre a terra em gotas de sangue cristalino. E se entranhe e fertilize. E se devolva maior.
A literatura é a existência enriquecida de fantástico. Em Teu Ventre é o fantástico da existência, uma pérola de literatura.

domingo, 21 de maio de 2017

Texto octogésimo segundo

Na cidade dos homens, a maior riqueza é a diversidade. O logro da globalização é a miragem de um sistema – económico, cultural, religioso ou de qualquer outro tipo – dominante apenas porque é mais forte ou abrangente. Urgência, pois, a de lembrar que a mesma globalização possui virtudes de descoberta e encontro, de aproximação de distâncias e comunhão de diferenças, de aprendizagem pelo contraste. A riqueza do múltiplo. Diversidade.
Contexturas cumpre esta urgência. É um manifesto de diversidade, encontro de distâncias que se acercam, de multiplicidades que se unem para mutuamente se valorizarem. É uma comunhão nascida da diferença. Uma viagem de lonjura e regresso, em que formas e cores se deixam dizer em palavras. Cheira-se um distante calor tropical nas telas de Armanda Alves, respiram-se aromas de especiaria, escuta-se a vastidão melancólica de planícies e oceanos e céus. E adivinham-se risos e choros de gentes várias. Esta fulgurante abstração vem ter connosco na inspiração espontânea e intuitiva – dir-se-ia uma actionwriting – dos contos de Luísa Fresta. As narrativas mergulham em nós, ou nós nelas, na imediata identificação das virtudes e vícios de todas as personagens tão próximas, nossas vizinhas por dentro. Porém, tudo o que nelas é banal se supera na penetrante elevação da escrita, que bebe da transcendência das telas e nela se projeta novamente. Encontro de diferenças. A riqueza do múltiplo. Diversidade.
Ainda de livro aberto, na incessante leitura das buscas em que me perco, fico assim reencontrado nesta encruzilhada, «contexturizado» entre a transcendência da pintura, a profundidade da escrita e a prosaica familiaridade das histórias que ambas contam. E, de alguma forma, cresço na compreensão do ser humano. Acrescento-me na noção de mim mesmo perante esta obra tão inesperada e diferente. 
Contexturas: uma leitura urgente. Porque, na cidade dos homens, a maior riqueza é a diversidade.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Texto octogésimo primeiro

Há circunstâncias em que a vida pára. Suspende-se, intemporal. Concentra-se toda naquele instante único em que se vive inteira. Quando nasce um filho, por exemplo. Ou uma filha, neste caso. Quando tu, há dezanove anos. Não foste a primeira, mas és tão – ou mais – importante por isso mesmo: és continuidade, renovação e diferença. Trouxeste-nos a noção de que a vida segue, de que os sonhos não cristalizam nas primeiras metas atingidas, mas reinventam-se sempre. Reafirmaste em nós a esperança de que tudo pode ser outra vez outra coisa e mais. Não poderias ser melhor, porque não podes ser outra, não poderás tornar-te pior, porque és tu mesma. Nasceste. Ocupaste entre nós um espaço que estava vazio sem que o soubéssemos, preencheste-o de uma forma que torna a tua ausência inconcebível. Como se sempre tivesses estado aqui. Surgiste do desejo inefável que nos habitava e deste-nos o tesouro da tua pessoa incomparável. Para nós, continuas a nascer todos os dias.
Há circunstâncias em que a vida pára. Suspende-se, intemporal. Concentra-se toda naquele instante único em que se vive inteira. E vale por isso. Tudo o que escrevi estava naquele momento em que tu, há dezanove anos. Desde então, continuo a viver esse momento, como uma eternidade estendida na finitude dos meus dias. Já eras em nós antes de existires e nós permaneceremos em ti quando já não formos. Porque és nossa filha. Porque tu.

domingo, 2 de abril de 2017

Texto octogésimo


No teatro, vejo o mundo ao contrário. Coloco-me no inverso de mim, para vê-lo no reverso dos seus embustes. Na mentira criada no palco revela-se a verdade escondida nas farsas quotidianas. Há uma transparência genuína na aparente opacidade do jogo de luzes sobre a caixa negra, uma honestidade pura nas subtis invenções do texto. Teatro é sinceridade.
No teatro, vejo o mundo ao contrário. Coloco-me na posição certa para desmontar a realidade obnubilada pela sombra das urgências diárias. Troco as lentes da habitual redução fenomenológica e, assim, abro os olhos para um todo maior. A ficção inventada no palco desenha o meu universo factual com a máxima nitidez. Digo a minha essência em cada gesto que faço, encontro-me no íntimo de todas as entoações com que falo. Teatro é verdade.
No teatro, vejo o mundo ao contrário. Sou mais eu nesta forma de estar. Estou mais em mim nesta forma de ser. O mundo ao contrário. Talvez a forma certa de olhá-lo.

Fotografia de Carlos Alberto Cavaco, no ensaio de Canto do Cisne... ou Talvez Não.