sexta-feira, 16 de março de 2018

Texto octogésimo nono


Outra vez.
Outra vez a chamada. O despertar dos bichos hibernados, a carne reanimando-se num frenesim de gestos, a Palavra a chamar-nos à incandescência dos diálogos, todas as emoções à solta no irresistível apelo da floresta em chamas.
Outra vez as coisas. O ritual das luzes calculadas, a mecânica dos passos e a carpintaria das frases, a plantação de objetos falsos e uma garridice de roupas cobrindo as nossas franquezas nuas. Outra vez fingimento, a verdade inventada no tempero de tudo.
Outra vez o encontro. O toque dos corpos no choque dos espíritos, olhos fechados na entrega singela ou abertos em ambíguas leituras, duas vidas enlaçadas numa encruzilhada de seres. Outra vez nós, os mesmos talvez já outros.
Outra vez Teatro. O fogo sagrado ardendo em nós. O reencontro da chave perdida. O mundo imaginário.

Fotografia de Carlos Alberto Cavaco

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Dizer a imagem 14 - Mão


A mão diz a música, o gesto desenha a mão, a inspiração fecunda o gesto. No movimento habitado dele há um requebro de Vida, um contorno de Eternidade.
E os olhares fitos, desfocados de si mesmos, concentrados nela. Apagados de tudo, entregues ao brilho gritado numa elegância de dedos. Como seres inanimados na própria existência alheada, animados numa Transcendência alheia apropriada.
A mão diz a música, o gesto desenha a mão, a inspiração fecunda o gesto. No movimento habitado dele há um requebro de Vida, um contorno de Eternidade. Tudo o que nos ilumina de fora brota, enfim, de uma luz interior.

Fotografia de Carlos Alberto Cavaco.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Vigésima primeira alegoria


pérola
eu algures
perdida a chave
de mim perdida
eu encontrada
nas amarras
de ti à solta
por mim perdida
eu por ti
desejada sem saber
ser chave
perdida onde
encontrar-me?

pequeno
tu algures
nas amarras
de ti perdido
à solta por mim
desejado sem
saber ser
chave
perdida onde
encontrar-te?
(Fotografia de Carlos Alberto Cavaco)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Texto octogésimo oitavo


Digo-me neles nas palavras com que se dizem.
Cruzaram-se-me num acaso de vida, fitaram-se em ânsias de mim, disseram-me nas palavras com que se disseram, estava lá desde antes. Não sabiam?
Cresci neles por dentro, desinstalei-os e colidiram na atração de uma busca. Suaram numa mistura de corpos desejosos de mim, beberam-se em lágrimas das minhas emoções derramadas, sangraram num retalhamento visceral de verdades reveladas minhas, inventadas neles. Adormeceram em mim a cada passo, estive lá sempre, descobriram?
Brilharam enfim na noite, por quatro vezes na noite, pomos de luz pendentes da névoa cinzenta dos dias. Irradiaram verdade e busca, aspergiram claridade e sonho na treva manipulada, gritaram silêncios de corpo e voz, alaridos das intenções todas. Disseram-me na Palavra que me digo neles, estive lá desde sempre, já o sabiam.
Regressam agora cheios de mim na plenitude de si próprios. Já não podem calar-me na eloquência dos olhares, estendem-me entre eles em diálogos de distâncias habitadas, beijam-me em abraços de memórias sincronizadas. Digo-me neles nas palavras com que se dizem, estarei lá para sempre, nunca o esquecerão.

(Fotografia de Jorge Figueiredo, no ensaio de A Chave Perdida)

sábado, 30 de dezembro de 2017

Ficção XXIII - Cadência final (a partir de «A Chave Perdida»)


— Vais estar aqui, quando eu voltar? – perguntei, aflorando a conversa que não queria ter. Porque precisava dela, transparência plana e descomplicada, contraponto oco à densidade das minhas angústias.
— Onde é que havia de estar? Esta casa é minha.
Senti a aceleração irreprimível da cadência final. Não consegui ser agradável, não se pode modificar as notas da partitura.
— Não digas parvoíces, percebeste muito bem – repliquei, áspero. Ela merecia ser preservada. – Quero saber se vais estar à minha espera.
— Porque é que perguntas? Foi assim que perdeste as outras? – o ataque desferido abruptamente, o repentismo da ignorância mascarando uma crueldade ingénua. A Rita era genuína mesmo quando tentava dissimular-se.
— Mais ou menos – respondi, tateando margens de fuga a uma discussão estéril.
— Se calhar tens um jeito especial para escolheres mulheres que te deixam quando as ofendes.
Afastei-me carregando a mala, senti o peso acrescentado da falta do fato de banho, a densa discussão a partir dela. Talvez pudesse comprar um no duty free shop do aeroporto, ou já em Praga, antes do concerto, o importante era não falhar a piscina, na manhã seguinte. Transpus a porta aberta do quarto, tirei o porta-fatos do bengaleiro. Olhei para a Rita do corredor, o túnel de todos os sintomas de solidão, uma distância já imensurável até à pura intimidade dela, perdidas as noites de respirações afinadas, a harmonia orquestrada dos corpos a uma lonjura indizível. Os êxtases prolongados como sinfonias acorrendo à memória como meras recordações sepultadas nos abismos da solidão sem cura. A não ser ela própria, inexorável.
— Pelo menos sempre me pouparam a discussões – fui ainda capaz de dizer.
Abri a porta da rua, reconheci o meu porta-chaves na fechadura, retirei-o.
— Fica com as chaves – atirei-lho, no gesto assertivo de remate do último compasso. – Se eu voltar, bato à porta. Se não abrires, cá me arranjarei.
Saí para o patamar de todas as minhas relações rompidas, as palavras diferentes na mesma frase de todas as despedidas. Não olhei para trás, saudades são fraquezas paralisantes. Premi o botão do elevador, acendi a luz do patamar, vi a figura dela colada à ombreira da porta. Não lhe ouvi os passos, diria que ela se transportou de modo incorpóreo, apenas no desejo de me reter. No seu rosto lívido havia uma súplica vitimizada, o olhar oblíquo era um convite desarmado, o corpo hirto de cariátide dizia uma expectativa sem desgaste.
— Abel… – o timbre colorido não parecia brotar da sua figura exaurida, antes do lusco-fusco escancarado da casa, correntes de ar impedindo a concentração das ideias.
— Sim? – o meu desejo de reagir adiantou-se à minha decisão de controlá-lo.
— Porque é que tu não gozas a vida?
(Fotografia de Carlos Alberto Cavaco)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Ficção XXII - A culpa foi minha (a partir de «A Chave Perdida»)

Sim, a culpa foi minha. […] A culpa foi minha porque me sentei no sofá durante a espera, fixei o olhar na bandeja e comecei a pensar nela, na outra, na conversa que precisava de ter contigo sobre a outra. Por causa de há quatro meses, por causa dos quatro anos até há quatro meses, por causa de hoje desde há quatro meses. Por causa de. A culpa foi minha por causa de, desta frase incompleta, da conversa que precisava de ter contigo sobre a outra e não fui capaz, não consegui que os quatro anos até há quatro meses e todos os anos antes dos quatro anos até há quatro meses me deixassem falar. Lembrava-me de te amar desde sempre, desde o tempo em que comecei a conhecer-me, em que tive consciência do próprio tempo, porque morávamos na mesma rua, crescemos juntos naquela rua, eu via-te quase todos os dias porque o acaso permitia e senão eu forçava a que permitisse, habituei-me a acompanhar-te no caminho para a escola, habituei-me a gostar do que sentia quando estávamos juntos, habituei-me a sentir que gostava de ti tanto quanto tu gostavas de mim. Ou mais. E, apesar de tudo isso, deixei que os quatro meses depois dos quatro anos e de todos os anos antes dos quatro anos até há quatro meses me impedissem de dizer-te o que precisava de dizer-te na conversa que precisava de ter contigo sobre a outra. Não deixei que ficasses a saber o que eu não sabia que não sabias sobre aquele dia em que. Mesmo quando disseste o que nunca me tinhas dito, do telemóvel, de me veres a segurar o telemóvel como um criminoso que não larga a arma do crime, o número a escorrer do visor do aparelho, o número que o ocupava todo, que enchia a minha mão, que se espalhava por mim adentro numa interrogação de depósito rompido até à explosão da cegueira que me fez desviar os olhos da Sara no momento em que. Se tivesses visto o número, talvez ainda possível a conversa que eu precisava de ter contigo sobre a outra, talvez a bandeja com os copos largos de pé alto, a garrafa de gin, as águas tónicas e o limão, talvez ainda o tempo de ir buscar o gelo e dizer toda a verdade.
Mas não.

(Fotografia de Carlos Alberto Cavaco)

domingo, 10 de dezembro de 2017

Vigésima alegoria

Sou apenas grão de areia
que ninguém pode encontrar
Pó que o vento desenfreia
como simples grão de areia
que projeta pelo ar.

Sou gota no mar imenso
que se revolve cansado
Mar de tudo quanto penso
neste meu sentir imenso
neste olhar sempre acordado.

Eu só quero ser poema
da voz que dorme no mundo
Para que nasça dilema
numa estrofe de poema
que acorde o homem no fundo.

Mas sou grão de pó sem nome
sou apenas gota de água
Migalha que aumenta a fome
grito, lágrima sem nome
de um triste choro de mágoa.