domingo, 10 de dezembro de 2017

Vigésima alegoria

Sou apenas grão de areia
que ninguém pode encontrar
Pó que o vento desenfreia
como simples grão de areia
que projeta pelo ar.

Sou gota no mar imenso
que se revolve cansado
Mar de tudo quanto penso
neste meu sentir imenso
neste olhar sempre acordado.

Eu só quero ser poema
da voz que dorme no mundo
Para que nasça dilema
numa estrofe de poema
que acorde o homem no fundo.

Mas sou grão de pó sem nome
sou apenas gota de água
Migalha que aumenta a fome
grito, lágrima sem nome
de um triste choro de mágoa.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Ficção XXI - Houve um tempo (a partir de «A Chave Perdida»)

Houve um tempo em que o mero som da voz dela me acordava todo por dentro, porque havia uma faísca em cada uma das suas palavras que era como uma ignição que me punha em brasa. Mas isso era antes de há quatro meses, quando ela estava naquilo que me dizia e havia verdade entre nós. Depois tudo se transformou e eu perdi a capacidade de me abrasar ao mesmo tempo que vi extinguir-se nela a chama que me incendiava. A nossa convivência tornou-se uma conversa de surdos, como se nos tivéssemos deixado submergir num qualquer óleo viscoso e esbracejássemos entorpecidos, gritando coisas que nos rebentam dentro e apenas nos saem da boca como bolhas informes que nada dizem. Nunca fui dotado para as letras, depois dos catorze anos nunca mais peguei num livro que não fosse de motores e peças, enriqueci o meu léxico com a prosa de oficina e as rimas da mecânica. Ela, como quase toda a gente, ouvia-me sempre de cima para baixo mas gostava de mim e entendia-me, empatizava comigo. Empatizar é uma palavra que aprendi com ela, como muitas outras que me ensinou à força de me corrigir e eu deixar, porque gostava dela tanto quanto ela gostava de mim. Ou mais. A Sónia ocupava-me todo o pensamento quando eu pensava em mim, era quase a minha identidade, metade da minha identidade. A outra metade.
— Olá.
A voz dela soou tão inerte como um tubo de escape desferrado. Deixei-a entrar, aproximar-se do sofá, sentir que eu sentia a presença dela junto de mim.
— Olá – levantei os olhos, não sei se a minha expressão era receio ou súplica. – O dia está cinzento.
Não estava a referir-me às condições atmosféricas e ela percebeu, mas olhou para a janela como se não, despejou o olhar para o bairro entardecido.
— Pois. Se calhar é porque começa hoje o outono. Também está mais fresco.
Aquela resposta não era a Sónia, era a Sónia desde há quatro meses, quando tinha deixado de ser a Sónia que eu amava.

(Fotografia de Jorge Figueiredo, no ensaio de A Chave Perdida)

domingo, 26 de novembro de 2017

Ficção XX - Algo a dizer (a partir de «A Chave Perdida»)

— Eu estava na clínica, a meio de uma tarefa que não queria, quando me deram o recado – a voz dela era grave e espessa, colou-se a mim como massa consistente. – Quase voei para o local, não sei quanto tempo demorei a chegar, pareceu-me uma eternidade, antes de chegar já sabia. Saí do carro e procurei alguém, um dos paramédicos era jovem, falámos, disse-me… Disse-me… Depois disse-me que podia ir na ambulância, eu percebi que já não havia nada a fazer e disse que sim, ainda olhei em volta antes de entrar.
Aquilo não era a Sónia, aquilo era a Sónia desde há quatro meses, quando tinha deixado de ser a Sónia que eu amava, porque deixara de ser a Sónia que me amava. Aquela fala entrecortada, aquelas falhas de injeção no discurso, ela estava naquilo que dizia, mas de algum modo fora dela própria e por isso eu senti que a verdade que se erguia entre nós era outra.
— Tu estavas de pé, no passeio – continuou. – Tinhas o olhar perdido e uma expressão vazia, como se o teu rosto tivesse perdido vida. Seguravas ostensivamente o telemóvel na mão, como um criminoso que não larga a arma do crime e havia uma mulher polícia a teu lado a falar contigo e eu não quis saber de mais nada.
Será que ela viu?, pensei enquanto a ouvia. Será que ela percebeu o número estampado no visor do telemóvel, o número que ocupou todo o aparelho, que encheu a minha mão, que se espalhou por mim adentro numa interrogação de depósito rompido até à explosão da cegueira que me fez desviar os olhos da Sara no momento em que?...
Talvez ainda possível a conversa que eu precisava de ter. Mas não.
— Entrei para a ambulância – a voz grave e espessa pareceu afundar-se mais ainda, eu já estava de pé mas mais mergulhado do que quando de joelhos. – Foi nessa altura, vi o carro parado do outro lado da rua. A imagem do condutor, não retive a imagem do condutor mas, desde aí, em todos os meus pesadelos desde aí vislumbro um rosto de mulher jovem, muito jovem e bonita, que passa por mim deslizando, com uma expressão misteriosa, simultaneamente aterrada e serena, como se fosse apanhada por uma noção de cumprimento trágico de um destino. E como se fugisse diante dessa surpresa. Com um sorriso.
Já de pé, como naquele dia, de pé mas partido num destroço de viatura acidentada, todo o meu corpo no peso da mão que parecia segurar o telemóvel como naquele dia, o número a escorrer do visor do aparelho, o número que o ocupava todo, que enchia a minha mão, que se espalhava por mim adentro numa interrogação de depósito rompido até à explosão da cegueira que me fez desviar os olhos da Sara no momento em que. O número…
Mas não.
— Fechei os olhos quando a porta da ambulância se fechou. E depois só me lembro… só me lembro… E depois não me lembro de mais nada.
O gesto incompleto da mão dela dizia-me que havia muito mais por dizer nas palavras que me deixara ouvir, como um painel de mostradores avariados que não revela o verdadeiro estado dos mecanismos. Ficámos frente a frente, não me apercebi do momento em que assim nos devolvemos à presença um do outro, a escuridão da sala envolveu-nos numa distância longa, parecia que tínhamos algo a dizer, mas.


(Fotografia de Carlos Alberto Cavaco)

domingo, 19 de novembro de 2017

Ficção XIX - Sou maestro (a partir de «A Chave Perdida»)


Sou maestro, fui-lhe dizendo no silêncio do meu olhar que falava só para mim próprio, o meu corpo agarra-se todo a estas mãos que desenham a música, a mente que a estuda derrama-se neste corpo que a limita. Cada vez que dirijo um concerto, preciso de todas as minhas energias concentradas e controladas. A orquestra é um menino dócil à minha frente, um animal amestrado, uma marioneta multiplicada, totalmente dependente do meu equilíbrio, do meu vigor acumulado, dos meus impulsos. Ou dos impulsos da arte em mim, entrega do barro que sou à modelação transcendente invisível. As mãos esboçam a música que lhes vai dentro, que me percorre o corpo e me explode na alma. E são os músicos que a libertam compasso a compasso, andamento a andamento, peça a peça, pela voz redentora dos instrumentos que lhes aprisionaram as vidas inteiras.
A música que o público ouve é uma paixão que sai de mim, disse-lhe ainda no grito calado que ela se habituou a seguir numa quietude de susto, que é arrancada ou sugada de mim para a orquestra e que os músicos transbordam com o talento de que são capazes. É uma sangria a que me entrego completamente, de cada vez como se fosse a última, em busca da verdade que só ali posso encontrar. Torcer o destino, a vida é um desencontro de dores em que não sou capaz de escolher a solução mais fácil.
Desencontro de dores. Calei o meu silêncio, não queria que a Rita conhecesse as páginas arrancadas do meu passado, saudades são fraquezas paralisantes. Houve uma infância aconchegada, a casa acolhedora como sombra de um telheiro no pino do verão, houve um pai chegado enquanto pôde sê-lo, uma mãe sorridente até se aferrolhar numa tristeza revoltada. Houve a tragédia. Dez anos de martírio. A Rita não sabia, nunca soube, não lhe pertenceria saber. Olhei o rosto dela, a sua expressão assustada e calei o meu silêncio, ou tentei, quis ficar quieto e não consegui, algo se descontrolou em mim, um arabesco do braço, um meneio do pescoço, o arrepio a trazer-me de volta as páginas arrancadas do passado que não queria. Um medo de que este sobressalto pudesse invadir-me durante a arte, as páginas arrancadas do passado poisando na estante sobre a partitura, manchando-me a criação, impedindo-me de torcer o destino. Felizmente nunca até agora, saudades são fraquezas paralisantes. 

(Fotografia de Carlos Alberto Cavaco)

domingo, 12 de novembro de 2017

Ficção XVIII - Estava a olhar para mim (a partir de «A Chave Perdida»)

Estava a olhar para mim como se me sugasse as entranhas, vidrou-me os olhos e secou-me todas as mucosas, anulou-me naquela contração magnética, aquele vácuo de tudo em mim. Percebi que ia falar, decerto convocaria uma qualquer vibração das profundezas da terra, tal era o poder da sua presença estática. Fiquei na expectativa de um oráculo, uma frase profunda e imensa como aquele olhar, que eu guardaria para sempre no meu espírito sedento. E falou, uma voz sonora, encorpada e fria, ressumando indiferença:
— A rodela de limão põe-se antes da água tónica.
E afastou-se numa pirueta elegante como o voo de um condor, abrindo espaço à passagem da bolha desinfetada em que se movia, o gelo que tilintava no copo decerto mais quente do que o resíduo petrificado em que congelei, a pensar apenas em que ponto das operações é que tinha posto o raio da rodela de limão dentro do copo…
Voltou cerca de um quarto de hora depois, abeirou-se de mim no mesmo passo cheio de mundo, olhou-me para dentro com a mesma força, o corpo todo carregado no olhar perfurante. E pediu-me outro gin tónico. Mas aquele hiato de tempo devolvera-me, recuperei da secura, novamente insuflada da irreverência de bater a porta, descomprometida no vazio de nunca. Novamente curiosa como nunca soube não ser, provocadora como sempre gostei de ter sido. Peguei num copo vazio, estendi-lho, inclinei a cabeça e olhei-o levemente de lado, resistindo a deixar-me despenhar de novo no seu abismo. E disse-lhe:
— Ensine-me, por favor.
O copo tremia-me na mão, a mão tremia-me no braço, o braço abalava-me o corpo que me parecia deslocar o próprio eixo da Terra. Ele segurou o olhar em mim, sorriu-me num trejeito demolidor, senti que me dera uma bofetada. Roubou-me o copo numa carícia, preparou a bebida em silêncio com uma elegância de artista. Depois, em jeito de brinde, ergueu o copo no espaço entre nós e eu senti um muro derrubar-se.
— A essência do limão deve libertar-se diretamente no gin – explicou, a mesma voz cheia agora aquecida num tom de lição estudada. – A água tónica vem depois, para diluir a concentração e suavizar o paladar. Se assim não for, isto confunde-se com qualquer mistura reles.
Sorri-lhe uma resposta de circunstância, ele fitou as garrafas sobre o balcão, referiu-se às bebidas como se falasse de obras de arte, depois olhou em volta e comentou a decoração artística da sala como se se tratasse de aperitivos. Fascinou-me o modo como tornava diferentes todas as coisas que mencionava, parecendo olhá-las de alguma maneira que eu não conseguia. Outra coisa.
Pouco depois seguiu o grupo para a sala de jantar, diluiu-se nele, como se tivesse picado a bolha de invulgaridade para se acomodar entre iguais. Percebi, naquela distância, o que me separava do seu mundo, tanto quanto senti crescer a curiosidade, a sedução. O desejo dele.

(Fotografia de Carlos Alberto Cavaco)

domingo, 5 de novembro de 2017

Texto octogésimo sétimo

O ator é um homem simples. Como todos os homens, percorre o dia a dia de uma existência condenada à morte, porém tem o privilégio de saborear a eternidade no ranger ancestral das tábuas do palco. O seu trabalho é representar, tal como o do cirurgião é reparar corpos ou o do trolha é ajudar a fabricar as entrelinhas de um arranha-céus.
O ator é um homem simples. Quando ensaia ou atua, reduz-se no que é para dar espaço à personagem que se torna, descobre-se plenamente ele na pessoa de si próprio que aceita deixar de ser, mostra-se todo na pessoa fora dele que vem habitá-lo por dentro. Finge verdadeiramente, porque é completamente verdadeiro no seu fingimento. É um hipócrita desde o rito dionisíaco e aceita toda a beleza de sê-lo, comove-se diante da força libertadora da sua hipocrisia sagrada. Da qual se considera indigno.
O ator é um homem simples. Observa e observa-se, recua aos tempos primordiais e projeta-se no devir humano. Viaja. Vê longe quando olha à sua volta e vê mais longe quando olha para dentro de si. Sente nas vísceras o grito da humanidade toda, mostra-o no seu corpo (única ferramenta que possui) numa ferocidade de estigmas. E encontra-se aí. Não foge do sacrifício porque não sabe como, o homem simples que nasceu não lhe ensinou esse truque. Por não ser digno.
O ator é um homem simples. Não se exibe, entrega-se. Não busca o aplauso, mas a imolação. Crucifica-se, morre todo de cada vez. E ressuscita depois, para continuar a viagem.
É assim o ator. O verdadeiro.

Fotografia de Jorge Figueiredo, no ensaio de O Relógio.

domingo, 29 de outubro de 2017

Décima nona alegoria

Na luz do teu olhar
                                lanterna
Na força do teu corpo
                                     arma
Nos gestos que desdobras
                                             dúvidas
Na esgrima das perguntas
                                             troca
Percebo a fome e a pesca
o desejo e a busca
o horizonte e a gruta

A espera em que te abres
ao mundo é a corrida
em que te adentras

Posse de tudo
o que te falta escavas
em ti o que procuras

Crescer