sábado, 5 de dezembro de 2015

«Macbeth», pelo Teatro Experimental de Cascais

O espaço vazio, o chão negro das rivalidades humanas, a ambição insensível e dura a erguer-se dele como menires de ferro ancestrais, memórias de lutas passadas cravadas como pilares. A luz errando como desejos perseguidos, descobrindo virtudes e ocultando perversidades (ou o contrário). E o som: ecos da consciência como ondas gordurosas, o remorso no sobressalto de trovões. Sobre todo este manto, as palavras grandiosas e os atores que as defendem. E mais nada.
Há quem diga que Shakespeare deve ser encenado assim. Sem o abuso de ornamentos, sem artifícios nem rede. Na corajosa transparência de um texto que já contém tudo e onde as opções cénicas são meros sublinhados de uma leitura que se partilha. É assim o Macbeth do TEC.
A tradução de Miguel Graça é cuidadosa, não rouba ao texto senão o inevitável (e digo-o, tendo assistido, há menos de três meses, a uma representação na língua original em Stratford-upon-Avon). De resto, Shakespeare é demasiado universal, grita verdades que estão para lá das línguas e não sufocam no labirinto delas.
A encenação de Carlos Avilez é extraordinária na grandeza da sua simplicidade: ousa submeter-se ao texto, vira-se inteiramente para ele, numa espécie de vénia sábia que se rende ao fluxo das palavras sem nunca renunciar a conduzir o ritmo do drama. Sem o abuso de ornamentos, ou talvez no abuso da ausência deles.
A representação dos atores é, neste contexto, coragem pura: sem artifícios nem rede, soltos na arena e inermes até nas espadas que empunham, lutam com um texto esmagador ao qual se entregam no sacrifício redentor de vivificá-lo. E a nós.
Há quem diga que o teatro é isto: um espaço vazio, um texto cheio. E atores que se esvaziam no texto preenchendo o espaço, preenchendo-se no espaço. E a nós.
É por isso que Shakespeare deve ser encenado assim. Porque o teatro é isto. Porque Macbeth.

No Teatro Municipal Mirita Casimiro. Até 27 de dezembro.
https://www.facebook.com/events/189306811403506/204368786563975/

1 comentário:

  1. Não existe forma de não sermos sugados pelo texto e ao mesmo tempo vivermos toda a criação do autor como se ele mesmo fosse também uma personagem trazida à vida. Shakespeare influencia o teatro que se faz em qualquer época. Excelente texto-visão como habitualmente.

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