Houve um tempo em que tudo era diferente. O tempo
das nossas existências limpas, em que mergulhávamos nos segredos um do outro,
em que dávamos as mãos frente a frente, no aconchego dos nossos olhares
derramados.
Nesse tempo tudo era simples, ou nisso acreditávamos.
Era o tempo em que acreditar era simples e valia a pena, o tempo em que nos
dizíamos em confidências sem escudo, em que éramos atentos à importância de
tudo, porque tudo a que dávamos atenção era importante por isso. E fazíamos
sentido.
Hoje, não. Olho para ti e tenho de afastar as
cortinas opacas das mágoas recalcadas, para entrever esse outro tempo no fundo
dos teus olhos com que já não me vês.
Onde é que nos perdemos? Em que ponto do percurso é
que os nossos destinos se descruzaram, em que marca do tempo é que deixamos que
as nossas existências escorressem da margem de um equilíbrio doce e recetivo
para um afundamento no azedume das incompreensões e das críticas?
Não sei. Olho-te nos olhos com que já não me vês e
confesso esta minha ignorância misturada de susto e impotência. Porque quero
refazer um percurso que não consigo querer refazer suficientemente, por isso
resta-me a resignação pesarosa de que carregaremos esta distância até ao fim. E
depois.
Houve um tempo em que tudo era diferente. Mas esse
tempo não voltará. Nem depois do tempo.