domingo, 4 de dezembro de 2016

Texto setuagésimo quarto

Somos humanos, detentores de memória e esperança. A memória prende-nos na direta proporção em que a esperança nos liberta. Possuidores da primeira, somos possuídos pela segunda. E por isso avançamos. Ou o contrário e, nesse caso, condenamo-nos à estagnação, ao retrocesso. (No devir humano, não será toda a estagnação um retrocesso?...)
Somos humanos. Entre a memória e a esperança, dependemos da imaginação que soltamos no presente e que nos projeta num dos dois sentidos. Ou sacode-nos entre ambos. Vivemos sobressaltados. Humanos.
Sándor Márai, em As Velas Ardem até ao Fim, mergulha-me nesta reflexão. Henrik, o general amargurado que vive quarenta e um anos enredado na imaginação de um passado que não consegue largar, toma-me pela mão, qual Orfeu numa descida aos infernos. Não sei se busca a libertação, pois não se vislumbra qualquer esperança no seu discurso compulsivo (encantador como poesia lírica) perante Konrád, o amigo de infância regressado de quatro décadas de distância. E Krisztina, a sua mulher falecida, não é uma Eurídice a resgatar, apenas mais uma peça que precisa de encaixar do inacabado enigma que o mantém vivo. Não para se libertar, porque não se vislumbra esperança, antes para acabar, adormecer a imaginação que o enreda na memória e extinguir-se. Como as velas.
Henrik vive na memória, rígida como a sua intrínseca condição de general, fechada como o seu enclausuramento, obsessiva como a sua necessidade de falar. Está preso. As velas ardem até ao fim, numa corrida contra o tempo. Konrád move-se na esperança, correu mundo como mãos de artista sobre as teclas do piano, regressa ao passado munido de um silêncio redimido. As velas ardem até ao fim num esvaimento libertador.
O livro de Sándor Márai é belo na sua simplicidade, simples na sua plenitude, pleno na sua beleza. Dobra-se sobre si próprio como uma memória, solta-nos a imaginação como um presente, deixa-nos num vazio de consumação. As velas ardem até ao fim. E depois, a esperança?...

domingo, 27 de novembro de 2016

Texto setuagésimo terceiro

Devia haver uma idade mínima, pensei. Olhei a sinistra caixa de madeira que te guardava, olhei-te para lá da cobertura dela, branca da tua pureza, consistente da tua grandeza inocente, acetinada da tua simplicidade intangível. Olhei-te num último abraço impossível. Devia haver uma idade mínima.
E deixei-me escorrer de mágoa e revolta por entre a multidão anónima que estava ali porque sim, porque não havia como não. Como eu. Cabeças pendentes de quem não acredita no que sabe, corações ao alto de quem sabe no que acredita, choros convulsivos de quem quer acreditar mas não sabe, corpos rígidos no choque de emoções de quem não sabe nem acredita. E aqueles que não sabem por que acreditam. E todos os outros. E eu.
Devia haver uma idade mínima, continuo a pensar. Aos doze anos ninguém viveu ainda o bastante. Ninguém se deu a conhecer ao mundo a ponto de ser lícito deixá-lo órfão de si. Por entre a multidão anónima, diante da sinistra caixa de madeira que te guardava, estremeci na busca de uma legitimidade maior que a sombria nuvem de injustiça e erro de tudo isto. Devia haver uma idade mínima, continuo a pensar.
Mas não. Não há requisito para chegar, nem fórmula para a duração da permanência ou para as condições dela, nem nomeação para a partida ou atestado que a impeça. Espreitando por entre os muros da lógica controladora que erguemos em volta da nossa existência, temos de abandonar-nos ao deserto do mistério que se estende para lá deles. E nos envolve na violência de tempestades de areia.
Que sabemos? Em que acreditamos? Escorrem-nos por entre os dedos, como finos grãos, as angústias, as revoltas e os medos. E as interrogações que não conseguimos formular. E os consolos a que tentamos agarrar-nos. Não há idade mínima para ninguém. Haverá uma idade certa para cada um? Não sei, apenas acredito. Porque sim, porque não há como não.

domingo, 20 de novembro de 2016

Texto setuagésimo segundo

O teatro é o espelho da vida. Dramaturgos, encenadores e atores (ajudados por todas as equipas técnicas e de produção) transportamos o mundo real para o palco, recriamo-lo em maneira artística, transformamos os factos em teatro. E convidamos o público a ver, de certa forma obrigamo-lo a ver-se no que vê, fazemo-lo sair da sua realidade para confrontá-la e, assim, regressar a ela muito mais. Reconciliado? Ou revoltado?...
O teatro é o espelho da vida. Ou o contrário. Dramaturgos, encenadores e atores (ajudados por todas as equipas técnicas e de produção), ao transformarmos a realidade em arte somos transformados por ela: de modo fugaz e inócuo, primeiro, como num sonho que se esquece quando dele se acorda; a seguir mais profundamente, com a insistência refletida da continuidade; por fim, de modo visceral, porque o mergulho no abismo de luz se torna um vício e tudo em nós (mente, espírito e corpo, razão, emoções e desejos) depende dele. E convidamos o público a esta metamorfose. Porque é linda.
A vida é o espelho do teatro. E o contrário. O Autor, de Tim Crouch, escreve-se na fronteira desta dicotomia. E a versão do Palco Treze (em cena no Auditório Fernando Lopes Graça, no Parque Palmela, em Cascais) joga esta escrita numa espécie de tabuleiro de xadrez sem quadrículas marcadas, onde o movimento de todas as peças parece entregue ao livre-arbítrio de cada uma, que nunca está sozinha. É assim a vida, por que razão não há de ser assim o teatro? Liberdade e coragem. E relação. É assim o teatro, por que razão não há de ser assim a vida?
É excelente o processo (não consigo chamar-lhe espetáculo!...) do Palco Treze: honesto na simplicidade da dramaturgia, audacioso na «crueldade» da encenação, verdadeiro na exposição dos atores. Envolvente na subtileza com que mergulha o público no «tanque de flutuação» do jogo de espelhos. Perturbador.
O teatro é o espelho da vida. Ou o seu contrário. Por isso precisamos tanto dele. Liberdade e coragem. E relação. Sermos autores de nós próprios. Com os outros.

domingo, 6 de novembro de 2016

Texto setuagésimo primeiro

Um livro é mais que a escrita dele. É uma carga de memórias que se arrasta como armas enferrujadas de batalhas perdidas (todas as batalhas são perdidas em não se ter conseguido evitá-las…); é a celebração dos escombros do vivido e a arquitetura possível a partir deles, numa espécie de grito reciclado de que vale a pena continuar; é um reduzirmo-nos a cinzas amargas ou doces e renascermos delas, num estremecimento de libertação de um passado que quer prender-nos por ser amargo ou doce. Um livro é uma sepultura e uma catarse, um último suspiro largado num vagido primordial, um fim que se torna princípio.
Um livro também é mais que a leitura dele. É um mergulho em apneia, uma viagem sufocante para dentro de nós a partir de fora; é um estilhaçamento da alma contra um espelho que em nós se quebra nas páginas que nos desmontam; é um regresso à superfície, a possibilidade emergente de um novo olhar, limpo das velhas escamas arrancadas pela torrente das palavras que desfilam por nós como cardumes de revelação. Um livro é um naufrágio e a boia de socorro, uma deriva presa à jangada de salvação, uma submersão que resgata.
Um Amor Morto é um livro bem escrito. É muito mais que um livro bem escrito. É tudo o que digo acima. E mais ainda. A sua escrita ainda escorre em sangue e lágrimas. A minha leitura dele eleva-se em fumos de incenso.

domingo, 30 de outubro de 2016

Décima sexta alegoria

Não desistes
Negamos-te uma vez
e outra no azedume
dos nossos medos de nós
fracos pequenos grãos
de poeira ensimesmados

Não desistes
Cravamos-te uma vez
e outra na violência
dos nossos ódios dos outros
ódios que falam línguas
incompreendidas das torres de Babel
esquecidas das paisagens de Éden
perdidas

Não desistes
Ofereces-te livre em sorrisos
de sol que gozamos
em excessos apenas
Derramas-te de graça em sementeiras
de chuva que maldizemos
nas tempestades que colhemos
Ingratidões ao vento de não
saber agradecer?

Não desistes
És no que amas
em nós amas
no que és
em ti. Amor e
só.

Não desistes.

domingo, 16 de outubro de 2016

Texto setuagésimo

Loucura. A verdade em que vivemos. Demência. O excesso que de nós extravasa. Escrever sobre isso. A necessidade que em nós grita. A ânsia de entender, o desejo de estar próximo.
Mens Sana. Oito contos que, na diversidade própria da variedade de autores, abordam este universo que é de nós todos. Com coragem, porque nos textos há uma força de catarse: palavras sem filtro expostas no espelho das páginas em que se estendem. Sem comiseração, porque em cada história há um vigor de manifesto: não se lamenta a condição humana, aceita-se para sobre ela construir as existências a haver.
Mens Sana. A literatura – universo tão mais verdadeiro que a realidade! – aproxima-nos da loucura em nós, solidariza-nos com a demência nos outros. Humaniza-nos. E para isso ela serve. Transcende-nos. E a isso ela aspira. Mobiliza-nos. E por isso ela vence. 
Mens Sana. Oportuna publicação da Editora Livros de Ontem. Escrita cativante. Urgente leitura.

domingo, 2 de outubro de 2016

Décima quinta alegoria

avanço
passo a passo
o olhar baixo
poisado na terra de onde o corpo se ergue

avanço
passo a passo
os pés fincados no alto
de um destino à espera

avanço
passo a passo
a alma suada na depuração da busca
enxuta de cansaços
no abraço do corpo
carregado
                  imparável

avanço
passo a passo
até mais não
o fim

quando?