domingo, 2 de outubro de 2016

Décima quinta alegoria

avanço
passo a passo
o olhar baixo
poisado na terra de onde o corpo se ergue

avanço
passo a passo
os pés fincados no alto
de um destino à espera

avanço
passo a passo
a alma suada na depuração da busca
enxuta de cansaços
no abraço do corpo
carregado
                  imparável

avanço
passo a passo
até mais não
o fim

quando?

domingo, 25 de setembro de 2016

Conversando... sobre um concerto: Projecto Geo no Palácio da Ajuda



A sala cheia. Uma cúpula pintada a fresco num trompe l’oeil colorido deu guarida à  multidão acumulada em entrada livre, oriunda de uma liberdade variada e simples, também ela colorida na diversidade de expressões e atitudes. Parecia não haver espaço naquele ovo barroco engalanado de genuína expectativa.
E, de repente, a música. Uma explosão de sons, a linguagem do universo declamada por instrumentos do mundo, as sonoridades espalhadas no ar, os ecos à solta pelo íntimo de cada um dos ouvintes. Harmonia e êxtase. 
E houve mais. Houve palavra e dança, a voz e os corpos vogando nas ondas daquele instrumental vertiginoso. Tão belos se disseram os corpos, ao som da música! Tão alto se elevaram as almas nos corpos que tão belos se disseram!
A sala cheia. Harmonia e êxtase. Um concerto que nos moveu por dentro como uma erosão de fundo do mar. Que nos embalou, que nos arrancou de nós para a transcendência e nos repôs mais cheios. E agradecidos. 
A sala cheia. Harmonia e êxtase. Foi um concerto do PROJECTO GEO.
Eu estive lá!

domingo, 18 de setembro de 2016

Texto sexagésimo nono

Apresentar um livro. Coisa diferente de apresentar-se num livro. Falar de si a propósito do que se escreveu é ato bem distinto de falar de si naquilo que se escreveu. É desvelar um mistério, revelar um segredo e de certo modo perdê-lo por isso, ganhar um aplauso no sacrifício do sigilo aconchegante. É trocar a brasa pela labareda. É uma obscenidade vertiginosa e inevitável neste mundo arquitetado na imagem, avassalado na visibilidade e na mediação. O escritor vive no recato, mas não sobreviverá nele, por isso resigna-se a alternar-se entre a clausura e o alarde. Entre o engavetamento libertador da escrita e a tirânica necessidade de anunciá-la, o escritor fecha os olhos e suspira, na nostalgia de um tempo/espaço primordial em que compor um texto era apenas brincar no quarto da infância, recolher o mundo inteiro e reinventá-lo à porta fechada, alheio às gritarias lá de fora. Só porque sim.
O escritor diz-se no que escreve, porventura sente-se desdizer a escrita ao ver-se constrangido a falar dela. Mas tem de. E gosta.

domingo, 11 de setembro de 2016

Texto sexagésimo oitavo

Há uma inteligência poética: um olhar colorido e diferente, a perceção da realidade como uma floresta de símbolos.
Há uma crença que nos mina por dentro: a formulação de um sentido para a existência ou a descoberta dele, uma noção de sobrevivência e destino. Uma utopia, necessariamente, que nos permite navegar num mundo que não encaixa.
Há uma vontade de gritar por escrito: um amor ao desenho das palavras e à sua alma, um embalo quente no eco da sua conjugação, que nos consolida em tudo o que nos desmorona. A impossibilidade de não derramar em texto essa energia inteira que nos habita.
Há um desejo de ser lido: o reconhecimento de uma incompletude, a certeza de que só nos completamos naquilo em que nos prolongamos nos outros, os leitores, que se acrescentam daquilo que bebem de nós.
Há uma necessidade de intervir: um punho fechado erguido em discurso na luta pela transformação do mundo a partir do homem, dos factos a partir da mente, das ideias a partir do coração.
Há um escritor. E a escrita à espera de.

domingo, 4 de setembro de 2016

Texto sexagésimo sétimo

«O fruto do silêncio é a oração. O fruto da oração é a fé. O fruto da fé é o amor. O fruto do amor é o serviço. O fruto do serviço é a paz».
Faço silêncio, calo os gritos interiores que me dispersam. Viro-me para dentro, ato a venda nos olhos que me descola a cegueira, mergulho na quietude que me encontra em mim.
O fruto do silêncio é a oração. Elevo-me nesta profundeza em que submerjo. Transcendo-me num face a face com o divino que em mim habita fora de mim. Percebo-me na alma de mãos postas, vejo-me a mim próprio mais do que eu mesmo. Vejo-me outro, o Outro em mim.
O fruto da oração é a fé. Acolho a Presença que me enche, aceito o Nome que me desvenda. Confesso-me crente no Ser que me justifica e resolve, a plenitude que me transborda, que me faz inteiro em mim e parte de um Todo além de mim. Que me dá sentido.
O fruto da fé é o amor. Vejo o sentido como um desafio que me projeta, uma expansão, a mão estendida num desejo de abraço rumo ao clamor de mil olhares sedentos. Um impulso que vem de dentro mas nasce fora, porque o Todo feito das partes grita na parte que se quer para o Todo.
O fruto do amor é o serviço. Largo a correr ao encontro, semeio um trilho de brasas que me fere os pés, não me deixa parar em mim. Pulverizo-me em gestos desde este núcleo de transcendência que me unifica. Centrado no Outro em mim, descentro-me para o Eu de cada outro.
O fruto do serviço é a paz. Encho-me nesta troca que me esvazia de tudo o que sou, foco-me nela como única verdade que me salva. Porque sou feito do que busco no outro, entrego-lhe o que me falta para ser mais eu. E sinto a tranquilidade expandir-se à minha volta. Alheio ao ruído, surdo aos gritos interiores que me dispersam, repouso no aconchego da dádiva, no sorriso da partilha. Na respiração profunda quieta da missão cumprida. No silêncio. 
O fruto da paz é o silêncio. E tudo recomeça.

domingo, 28 de agosto de 2016

Texto sexagésimo sexto

Com que palavras se diz a nossa fragilidade? Dizemos «terramoto» para lembrar a tragédia de múltiplas vidas soterradas nos escombros de décadas de edificação, ou simplesmente no acaso de estar ali. Dizemos «incêndios» para gritar a misteriosa injustiça dos infernos deflagrados a horas mortas que reduzem a cinzas os sonhos de tantas horas vivas, pondo vidas em risco durante horas infindas. Dizemos «terrorismo» para denunciar os incompreendidos fanatismos mundiais que camuflam as nossas intolerâncias de bairro. Dizemos «guerra» para nos revoltarmos contra os ódios seculares que massacram povos a uma escala numérica maior que as nossas desavenças familiares. Dizemos «cancro» para chorar a impotência contra todos os monstros que crescem dentro de nós mesmos. E dizemos tantas outras palavras que soam a becos sem saída, nesta ânsia de salvação que nos corre nas veias.
Mas não conseguimos dizer «culpa», porque raramente sabemos a quem atribuí-la. Por isso dizemos «humanidade», que é talvez a forma mais descomprometida de justificarmos a nossa fragilidade.
O problema… é que queremos mais.

domingo, 21 de agosto de 2016

Texto sexagésimo quinto

Quero louvar-te, deus de todos os nomes e de todos os credos, da humanidade inteira e de todos os seres, da natureza viva e inanimada, de todo o visível e invisível, do imenso existente e do muito mais que há de existir. Quero afirmar que acredito que és e que estás comigo, acredito na tua essência em mim e na minha existência em ti. E sei que ambas me ligam a todos os seres e a tudo.
Como gostaria de ter palavras que dissessem a gratidão que sinto por toda a energia que derramas sobre mim na minha própria vida!... Sinto todos os dias um manancial de esperança e festa brotando do meu íntimo e sei bem que, nascendo em mim, este rio não é criação minha, ainda que não possa correr fora de mim. Porque eu sou na medida da inundação dele e ele apenas pode ser na minha vontade de permiti-lo. E, como eu, todos os seres. Pois tudo vem de ti.
Por isso me curvo diante de ti, deus de todos os nomes e credos, encolhido no remordimento dos vazios todos que se expandem por mim adentro e me fazem pouco mais que uma falsa vontade de existir em ti. Peço-te perdão por todo o sangue destruidor que derramo nos fluidos vivificadores que retenho pelo medo ignóbil de perder-me ao transbordá-los. Peço-te perdão por não saber nem arriscar ser mais feliz do que esta ideia mesquinha de satisfação própria que compreendo e aplico à minha limitada existência. Peço-te perdão por não ser capaz. E, como eu, todos os seres. Humanos.
E hoje, neste dia que é mais um e será o último para muitos de nós, inscritos no mistério de um tempo ignoto, entrego-te a inteira família humana, esta multidão de peregrinos que busca salvação por todos os caminhos possíveis. E pelos impossíveis também, quando não há outros. Entrego-te a gente toda, fonte e sinal de vida, da tua vida em nós, das nossas vidas em ti. Entrego-te todas as famílias do mundo, de qualquer número e género, pois todas são exemplo ou anseio de comunhão e amor. Entrego-te a minha família, que brota de mim como eu broto de ti, que vive em ti como eu vivo nela. Que amo mais que tudo, na profundidade espiritual desta proximidade carnal. 
E consagro-te enfim, deus de todos os nomes e credos, todos os seres do universo que, não sendo humanos, são minha família também. Toda a natureza viva e inanimada, todo o visível e invisível, o imenso existente e o muito mais que há de existir. Quem dera saibamos, todos juntos, construir e preservar a harmonia cósmica por ti sonhada. Pois tudo vem de ti e a ti regressa.