Era o fim dos anos setenta.
Éramos todos sonhadores, erguíamos os punhos com diferentes intenções por ideais valiosos e vários. E envergonhávamo-nos um pouco de assumir que ouvíamos esta música.
Não obstante, na «vulgaridade» do seu pseudo-sentimentalismo comercial, ela dizia um pouco dos nossos sonhos de harmonia e paz para o mundo, falava docemente dos valiosos e vários ideais amargos pelos quais erguíamos os punhos com diferentes intenções. Por isso, talvez por isso, a ouvíamos.
Era o final dos anos setenta, foi um pouco o final dos nossos sonhos, ou melhor, dos nossos ideais (será o mesmo?...). Hoje, já pouco erguemos os punhos... E por isso, talvez por isso, já pouco nos envergonhamos de dizer que ouvíamos esta música.
Ela aqui está. Conserva a «vulgaridade» do seu pseudo-sentimentalismo comercial. Para que nós acordemos os nossos sonhos. E voltemos a erguer os punhos com diferentes intenções por ideais valiosos e vários.
Feliz Ano Novo!
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
A paz por um canudo
Há 101 anos, no dia de Natal de 1914, no cenário da Primeira Guerra Mundial, na terra de ninguém entre trincheiras da Frente Ocidental, soldados ingleses e alemães encontraram-se, trocaram apertos de mão e bebidas, tiraram fotografias e até jogaram futebol. Conta-se como tendo sido um acontecimento isolado e localizado, um episódio fugaz e circunscrito, num intervalo de batalhas que durou apenas o tempo da distração das chefias. E logo a carnificina recomeçou: os homens treinados para se matarem não podem ceder à fraqueza de afetos com rosto, nem dar-se ao luxo de se (re)verem noutros homens, ou de verem outros homens em si próprios.
Porém, os historiadores (essa espécie subversiva que desenterra memórias e constrói narrativas a partir delas) falam de mais de vinte casos simultâneos, ao longo de mais de quarenta quilómetros da linha de trincheiras. Terá havido ocorrências semelhantes noutros lugares daquela guerra a que muitos já não atribuíam sentido? Alguns escritores, dessa espécie indomável que inventa narrativas para lá das memórias, consideram tal hipótese mais do que provável: os homens criados para se amarem não podem ceder à fraqueza de ódios anónimos, nem dar-se ao luxo de se cegarem diante de outros homens, ou de verem diante de si outros homens cegos de si mesmos.
No assustado mundo de hoje, que foge para as guerras complexas por medo da simplicidade da paz, esta história do Natal de há um século é mais que uma memória. É uma provocação. Evoco-a aqui, através do videoclip de uma canção que, segundo parece, nunca terá sido cantada ao vivo (sabe-se lá porquê…!).
É uma metáfora do nosso mundo: a paz por um canudo. Mas vê-se. Existe.
Feliz Natal!
domingo, 13 de dezembro de 2015
Décima quarta alegoria
e se de repente
escorridas
as armas
cansadas do riste
pendidos
os braços
líquidos de chão
longe
o olhar
limpo num sonho
teimoso de não querer
acordar
alegre da tristeza
esquecida
e se de repente
os braços de novo
erguidos em afeto
agora
as armas de novo
firmes como pão
agora
e se de repente
sepultada
a luta ressuscitada
a seiva luz
na treva sombra
no clarão harmonia
no mundo
todo
e se de repente
sorriso
perdão
compaixão
amor
e se de repente
deus
o homem
feliz
sábado, 5 de dezembro de 2015
«Macbeth», pelo Teatro Experimental de Cascais
O
espaço vazio, o chão negro das rivalidades humanas, a ambição insensível e dura
a erguer-se dele como menires de ferro ancestrais, memórias de lutas passadas
cravadas como pilares. A luz errando como desejos perseguidos, descobrindo
virtudes e ocultando perversidades (ou o contrário). E o som: ecos da
consciência como ondas gordurosas, o remorso no sobressalto de trovões. Sobre todo
este manto, as palavras grandiosas e os atores que as defendem. E mais nada.
Há
quem diga que Shakespeare deve ser encenado assim. Sem o abuso de ornamentos,
sem artifícios nem rede. Na corajosa transparência de um texto que já contém
tudo e onde as opções cénicas são meros sublinhados de uma leitura que se
partilha. É assim o Macbeth do TEC.
A
tradução de Miguel Graça é cuidadosa, não rouba ao texto senão o inevitável (e
digo-o, tendo assistido, há menos de três meses, a uma representação na língua
original em Stratford-upon-Avon). De resto, Shakespeare é demasiado universal,
grita verdades que estão para lá das línguas e não sufocam no labirinto delas.
A
encenação de Carlos Avilez é extraordinária na grandeza da sua simplicidade: ousa
submeter-se ao texto, vira-se inteiramente para ele, numa espécie de vénia
sábia que se rende ao fluxo das palavras sem nunca renunciar a conduzir o
ritmo do drama. Sem o abuso de ornamentos, ou talvez no abuso da ausência
deles.
A
representação dos atores é, neste contexto, coragem pura: sem artifícios nem
rede, soltos na arena e inermes até nas espadas que empunham, lutam com um
texto esmagador ao qual se entregam no sacrifício redentor de vivificá-lo. E a
nós.
Há
quem diga que o teatro é isto: um espaço vazio, um texto cheio. E atores que se
esvaziam no texto preenchendo o espaço, preenchendo-se no espaço. E a nós.
É
por isso que Shakespeare deve ser encenado assim. Porque o teatro é isto.
Porque Macbeth.
No
Teatro Municipal Mirita Casimiro. Até 27 de dezembro.
https://www.facebook.com/events/189306811403506/204368786563975/
domingo, 29 de novembro de 2015
Ficção XIV - Abrir a porta
Abriu a porta do quarto como quem
retira da gaveta o álbum das recordações mais antigas. Num olhar profundo como
um suspiro, varreu a camuflagem poeirenta do tempo decorrido, o exercício
teimoso de afastamento, o esforço contra a corrente de não voltar ali. E
entrou.
No passo meio arrastado dos seus
setenta e dois anos, Maria de Lurdes ocupou energicamente o espaço vazio
daquela divisão da casa onde não entrava havia treze anos. Pudessem as paredes
opinar e considerá-la-iam igual, a mesma Maria de Lurdes de sempre, maciça de
corpo, robusta de espírito, carregada nas feições e nos humores. Nada mudara
nela. Ou antes – mas isso as paredes do quarto não saberiam avaliar – tudo o
que se alterara no seu modo de ser e agir voltou atrás como o encolhimento de
um elástico, no simples movimento de transposição da porta aberta, gesto de
retirar da gaveta o álbum de recordações. Um simples avanço no espaço bastou
para romper a barreira do tempo. Um olhar profundo como um suspiro, um leve
passo em frente, como o voltear da capa forrada do álbum. E Maria de Lurdes
reabsorveu por inteiro a alma de que se separara já não se lembrava quando.
Talvez no dia em que cerrara a porta e a aprisionara naquele quarto fechado. Ou
talvez antes disso, no dia em que aprisionara o quarto na sua alma fechada a
cadeado.
Aquele quarto era uma parte da sua
vida, era a fatia de existência que lhe valia a vida toda. Maria de Lurdes
poisou o olhar na cama de corpo e meio: cabeceira contra a parede, o estrado
avançando numa conquista do espaço, os pés fincados no soalho como marcos.
Lembrou-se da encomenda na loja de móveis, do registo das medidas e da escolha
do arredondado sóbrio dos espaldares; do pagamento adiantado depois de
regateada discussão, da irritação causada pela entrega tardia e do cheiro a
suor dos trabalhadores encarregados da montagem, que valera uma nova deslocação
ao estabelecimento, para exprimir o descontentamento:
— Ó sr. Asdrúbal, diga lá aos seus
empregados para tomarem banho e não serem porcalhões, que agora tenho que
deixar a casa a arejar durante três dias!...
Lembrou-se também da outra cama, mais pequena, que ocupara aquele espaço
anteriormente, da tímida cama de grades que a precedera e até do berço que
existira primeiro, mas numa casa anterior, não ali. E sorriu. Aquele era o
quarto do seu filho. José António.
domingo, 22 de novembro de 2015
Texto quinquagésimo quarto
Dói demais esta distância de olhar-te e não
te reconhecer quem foste. Dilacera-me este muro de te ver olhares-me sem
saberes já lembrar quem sou. E mergulho impotente neste abismo de lágrimas
raivosas, escorridas na pele resignada na aceleração do choro.
Fecho os olhos embaciados para te rever
antiga, no sorriso jovem com que me iluminavas a infância e dizias o meu nome
entre as carícias e repreensões com que me educaste. Foram tempos de ternura e
firmeza, dedo esticado e abraço quente, em que me fizeste aquela que sou.
Alegrámo-nos juntas nas confidências que sofremos a meias, unidas no riso e solidárias
no pranto. Foste minha mãe acima de tudo, fui tua filha mais que todos. Cresci
nesta inexorável aproximação a ti.
Agora estamos frente a frente e não somos.
Apagaste-te num muro invisível que se ergueu sem tu esperares, que te emparedou
sem eu querer. Não há entrada para ti nessa prisão do pensamento ausente, não
há saída para mim deste labirinto das emoções visíveis. Choro assim, impotente,
este inexorável afastamento de ti.
Dói
demais esta distância de olhar-te e não te reconhecer quem foste. Dilacera-me
este muro de te ver olhares-me sem saberes já lembrar quem sou. Porém, estamos
aqui, porque existimos. És a minha mãe mais que nada. Sou tua filha apesar de
ninguém.
domingo, 15 de novembro de 2015
Texto quinquagésimo terceiro
Paris em novembro.
Bruta demais, esta violência! Injusta até à
crueldade, desumana até ao desespero. Vergo-me perante a insensatez, torço-me
num ponto de interrogação impotente. Quereria ver reticências de esperança que
não consigo: porventura estendem-se para a frente, mas a cabeça curvada faz-me
olhar para trás, mergulhar nos recônditos da humanidade, perscrutar as razões
que o não são. Insensatez.
Paris em novembro.
Porque acredito no Homem, cerro os ouvidos a gritos
de vingança, estremeço perante promessas de retaliação, fujo de exorcismos de
raiva. Porque tudo isso eu sinto, também. Sem querer, porque acredito no Homem,
nos homens, no homem que sou e nos outros. E no Outro. Não é possível que
sejamos só isto, este Paris em novembro. Tem de haver algo mais que nos fez atravessar
os séculos, chegar aonde estamos, fazer-nos o que somos. O Homem.
Paris em novembro.
Procuro um perdão que exista. Peço-o. Não para as
vítimas: já o obtiveram pelo martírio. Mas para os próximos delas: merecem-no
demais para ousarem precisar dele. E para os carrascos: precisam demasiado dele
para se dignarem merecê-lo. Procuro um perdão que exista e nos salve desta loucura
de nós mesmos. Talvez o Outro…
Paris em novembro.
Bruta demais, esta violência! Procuro um perdão que
exista, que suplante a insensatez. Que será do Homem sem ele?...
domingo, 25 de outubro de 2015
Décima terceira alegoria
Não se apaga
este invisível que arde por dentro
Labareda nuvem sopro corpo
que preenche.
Não se cala
este silêncio que jorra no íntimo
Grito pausa vertigem espera
que perdura.
Não se trava
este infinito breve tudo
Sonho perda conforto lágrima
que é.
Eu em ti
Tu em mim
Nós nos outros
Os outros no Outro
O Outro em mim.
Presença.
Amor.
domingo, 18 de outubro de 2015
A pulsação da fé
Há um cheiro de corpo nesta música.
Há um toque de terra neste corpo.
Há um sabor de vida nesta terra.
Há uma visão de eternidade nesta vida.
E tudo isto ressoa na transcendência destas imagens, montra de uma essência que aos sentidos se revela, mas que só noutra dimensão se apreende. E noutra ainda se experimenta.
A pulsação da fé.
Há um toque de terra neste corpo.
Há um sabor de vida nesta terra.
Há uma visão de eternidade nesta vida.
E tudo isto ressoa na transcendência destas imagens, montra de uma essência que aos sentidos se revela, mas que só noutra dimensão se apreende. E noutra ainda se experimenta.
A pulsação da fé.
sábado, 10 de outubro de 2015
Texto quinquagésimo segundo
Franqueza:
a escrita limpa, palavras certeiras inscritas no ritmo de uma pontuação
musical, perfeita. Franqueza: representações honestas, despretensiosas na busca
de algo mais longe, artístico. Franqueza: direção transparente, libertadora de fragilidades
e atenta na restrição dos detalhes, cuidados.
Franqueza.
E ironia, acima de tudo. Simplicidade na maneira de dizer o que há de mais
complexo: o lado negro do ser humano. Ironia: inspiração amadora gritando a
premeditação, o trabalho continuado dizendo os impulsos espontâneos. Ironia: o gosto
de rir com vontade dos desgostos alheios, o cómico dos dramas da vida dos
outros que seriam tragédias à nossa porta.
Franqueza.
Ironia. E vontade de rir. Tudo tão bem feito (e não foi por mim!...).
Que
inveja! Apetece-me matar alguém…
domingo, 4 de outubro de 2015
Ficção XIII - Memória de nunca
Como
dizer-te a memória do que nunca aconteceu?... O aceno vago de te ver passar no
outro lado da rua leva no gesto o desejo voluptuoso de uma carícia aveludada que
não. O beijo assético na face de te encontrar por acaso contém a ânsia
indizível do abraço de sentir o teu corpo fresco de primavera, quente do
perfume de ti que nunca. A conversa circunstancial à mesa do café arrasta por
dentro a vontade sem cura de uma intimidade subterrânea insaciável, de corpo e
alma que jamais.
Como
dizer-te a memória do que nunca aconteceu?... Conheço-te e nunca estive
contigo. Coincidimos numa existência que nos martiriza nesta partilha de espaço
e tempo em que, presentes um ao outro, nunca poderemos pertencer-nos. Porque há
em ti uma juventude de sonhos solteiros que zarpam para um mar alto distante da
minha velhice celibatária ancorada num porto de cobardias recalcadas.
Como
dizer-te a memória do que nunca aconteceu?... Teríamos podido ser felizes se,
no jogo da vida, a distribuição das cartas nos favorecesse com trunfos simultâneos.
Mas agora já não e depois ainda jamais. Estou contigo e não poderei
conhecer-te, porque a tua juventude de sonhos solteiros é o avesso da minha
velhice celibatária. Resta-nos, pois, este olhar com que nos contemplamos de
costas voltadas, este abismo de gerações em que vemos por dentro das nossas
existências separadas a vida comum de que somos feitos.
Como
dizer-te a memória do que nunca aconteceu?... És a aventura do meu medo, eu sou
a imobilidade do teu impulso. Cascata límpida do meu lodo, amarga esclerose do
teu florir. E assim, neste inverso de sermos, lembro-me em ti de tudo o que até
agora, lembro-te em mim de tudo o que a partir daqui. Tu trazes-me à memória
tudo o que nunca. Mas… como dizer-te?...
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Texto quinquagésimo primeiro
Ver-te adulto no espaço vazio é o prolongamento
natural de ter-te recém-nascido nos meus braços cheios. Estremece-me a alma na
contemplação desta libertação do teu talento maduro que me envolve no aconchego
com que te prendo às noites de menino. Nos sentimentos de alegria e dor que
agora interpretas na distância de palavras de outra língua está o olhar
sonhador de há anos, quando, bem próximo, declaraste sem palavras que ias
partir e ainda não sabias que irias partir.
Ver-te adulto no espaço vazio é o prolongamento
natural de ter-te recém-nascido nos meus braços cheios. Na segura eloquência da
energia que irradias vejo desvendar-se o mistério que contemplo no silêncio
custódio de proteger-te a infância frágil. E orgulho-me de comover-me por
sentir que é a tua força que me protege da fragilidade de envelhecer e
desistir.
O tempo corre, a vida é inteira. Ligamo-nos hoje
pelo ontem que aqui nos trouxe, soltamo-nos no amanhã que somos desde sempre. O
tempo corre, a vida é inteira. Ver-te adulto no espaço vazio é o prolongamento
natural de ter-te recém-nascido nos meus braços cheios. Somos o que fomos,
estamos no que somos. E iremos para onde.
domingo, 13 de setembro de 2015
Conversando... sobre Aquilino Ribeiro
Aquilino Ribeiro.
Nasceu
em 13 de setembro de 1885. É um dos nomes maiores da literatura portuguesa,
embora (que eu saiba!...) nenhum currículo escolar o mencione. Trabalhou as
letras como uma lavoura artesanal: semeando imagens, enxertando regionalismos,
podando a sintaxe e colhendo inovações semânticas. Elevou o elemento rústico da
língua portuguesa a um estatuto de obra de arte. E disse-nos como ninguém.
Posso
afirmar que a minha escrita cresceu no deslumbramento da sua, a consciência da
minha pequenez formou-se na contemplação da sua grandeza.
Em
jeito de homenagem, deixo aqui a primeira citação que me lembrei de procurar
(terá sido a primeira leitura que fiz dele?...): os parágrafos iniciais da
novela O Malhadinhas. Para ler e
saborear (e admirar a atualidade).
Quando comecei a pôr vulto no
mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas
contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos
terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra – eu cá nunca me avistei
com ele – mas a verdade é que a neve vinha com os Santos e as cerejas quando
largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que
bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.
Não tenho cataratas nos olhos,
ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os
dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço. E, quanto mais
cismo, mais dou razão ao Miguelão da Cabeça da Ponte, que falava como livro
aberto, o grande bruxo. Muitas vezes lhe ouvi dizer quando estava de boa lua, o
que nem sempre assucedia:
─ Tempos virão em que o governarão
as terras vãs e os filhos das barregãs.
domingo, 6 de setembro de 2015
Texto quinquagésimo
Porque não podemos fechar os olhos: as imagens
acendem-se-nos na mente, retratos alucinantes e invasivos como labaredas.
Porque não basta cerrar os ouvidos: o grito ecoa no íntimo, pulsações sonoras e
retumbantes como explosões.
Porque somos nós, uma parte de nós que é o todo
também, esta humanidade sonhadora e decadente, compassiva e perversa,
voluntariosa e inerte. Somos nós de ambos os lados, estamos simultaneamente na
perseguição e na fuga, no acolhimento e na rejeição, na angústia e no cinismo.
Somos mão estendida e punho fechado, braço erguido ao alto e arma apontada,
sorriso sereno, lágrima compungida e cuspidela de ódio. Somos nós de ambos os
lados, somos nós de todos os lados e não podemos assistir sem nos dilacerarmos
por dentro neste misto de solidariedade e culpa, acusação e remorso. Vida e
morte.
Não somos «migrantes», essa designação anódina que
nos retira uma identidade de origem sem nos conceder o reconhecimento de um destino.
Seremos refugiados, porque deixámos a cratera de tudo o que nos dizia em busca
de uma planície onde novamente possamos dizer-nos, fugimos da cova que nos
soterrava já configurados com o horizonte que nos liberte. Não estamos
perdidos, conhecemos o inferno de que queremos escapar, sabemos o rumo do
paraíso que nos prometemos. E não aceitamos que nos ignorem num purgatório de
encolher de ombros, que nos dispam a pele humana das nossas emoções e crenças,
que nos descarnem em meros tópicos de análise política inanimada. Pedimos o
refúgio a que temos direito, exigimos a salvação que suplicamos. Porque somos
nós.
Somos nós e estamos vivos, mesmo naqueles que
morrem. E morremos um pouco, mesmo naqueles que sobrevivem.
Somos nós, de ambos os lados. De todos os lados.
Somos nós. Somos nós…
domingo, 30 de agosto de 2015
Texto quadragésimo nono
Não são muitas as recordações que ele conserva da
escola primária. Aqueles anos decorreram com a fluidez insensível de uma
realidade estática, uma espécie de presente compacto que não se sente avançar,
qualquer coisa como uma eternidade confortável. Foi um tempo em que ele não se
preocupou com o que ficava para trás ou com o que poderia estar para vir. Se
permanecesse para sempre criança, coisa sobre a qual nunca se interrogou, o
externato onde frequentou a escola primária, situado a meio da avenida que
partia da igreja onde se perdia do mundo e desembocava na mata onde se
reencontrava consigo seria um bom lugar para ser. E nada mais.
Mais tarde ele consideraria aquela fatia de passado
como uma das duas fases da sua vida em que valeria a pena o tempo ter parado.
Mas isso foi quando já tinham nascido as interrogações, as preferências e as
amarguras. Antes tratava-se apenas do presente inquestionável que havia e é por
isso que não são muitas as recordações que ele conserva. O armazenamento das
lembranças é uma operação que se desenvolve na proporção direta do receio da
perda e, então, nada estava perdido. Tudo era, simplesmente.
domingo, 23 de agosto de 2015
Texto quadragésimo oitavo
A casa.
Olhou em volta e reconheceu-se em tudo o que via.
Porque toda a casa gritava a presença dos seus ascendentes. Era o seu bisavô
nas traves mestras de madeira centenária; era o seu avô na marcenaria apurada
de todos os móveis; era o seu tio na negligência dos cinzeiros espalhados por
toda a parte, mas também na minuciosa catalogação das chaves de cada um dos
armários e gavetas; e era, sobretudo, o seu pai no desvelo cuidadoso da
preservação daquele mundo, na esquadria funcional da organização do espaço, na
longínqua visão de futuro da conservação do passado. E era também, claro, a sua
mãe na ternura bizarra do amor-ódio com que marcara impressões digitais por
toda a parte.
A casa de família.
Olhou em volta e reconheceu-se em tudo o que via.
Porque toda a casa desembocava nele, havia uma história dele gravada naquilo
tudo. E, mascarada embora pelo moderno reboco das empenas, coberta pela
impecável polidez das telhas recentes, vivia ali uma alma que o habitava.
A casa de família na aldeia.
Olhou em volta e reconheceu-se em tudo o que via. E
percebeu que não podia desfazer-se de si mesmo. E reaprendeu o valor da
História.
sábado, 15 de agosto de 2015
Texto quadragésimo sétimo
Férias na província. Um mergulho na natureza, um cheiro
de terra quente e seca, uma respiração essencial e pura. Um afastamento, um
jejum tecnológico com sabor a conversão, um olhar expandido às estrelas em
grito de liberdade.
Férias na província. Um rústico aconchego caseiro,
uma precariedade de tábuas, a exiguidade apetitosa. E um sufoco de brasas,
iguarias crestadas sobre a grelha numa simplicidade primitiva. Odor a lenha, sabor
a vida.
Férias na província. Um encontro com o ancestral,
um espelho de perenidade que me mostra frágil e transitório. Uma noção de
eterno retorno, um vislumbre de Idade de Ouro, qualquer coisa de genesíaco numa
quietude de paraíso perdido.
Férias na província. Um folhear de passado. Eu num
cenário exterior a mim. Identidade na diferença. Reencontro.
domingo, 26 de julho de 2015
Texto quadragésimo sexto
De repente, a recordação. O retorno a um cálido passado,
a uma infância embalada na simplicidade e emparedada no rigor. A voz do meu pai
recitando um poema francês que aprendera na escola, talvez na infância dele que
transportava então para a minha, tal como a memória de adulto agora me conduz a
esse momento e, pela memória adulta dele, me projeta num tempo anterior. As
memórias, e as pessoas que elas contêm, fazem-nos viajar para longe, rompem as
fronteiras da nossa existência. As pessoas, e as memórias que elas contêm,
dão-nos outra dimensão. Imortalidade.
De repente, a recordação. A voz do meu pai
recitando um poema francês, imortal como a lembrança dele, poderoso nas
palavras e no seu significado: a humildade contra a soberba, o confronto e a
resistência. Sobrevivência do mais fraco, paradoxo da natureza. Imortalidade.
É um poema de La Fontaine, genial como quase todos:
beleza das palavras, riqueza das imagens, grandeza das ideias. Recupero-o aqui:
Le Chêne et le Roseau
Le
Chêne un jour dit au Roseau:
“Vous avez bien sujet d’accuser la Nature;
Un Roitelet pour vous est un pesant fardeau.
Le moindre vent, qui d’aventure
Fait rider la face de l’eau,
Vous oblige à baisser la tête:
Cependant que mon front, au Caucase pareil,
Non content d’arrêter les rayons du soleil,
Brave l’effort de la tempête.
Tout vous est Aquilon, tout me semble Zéphyr.
Encor si vous naissiez à l’abri du feuillage
Dont je couvre le voisinage,
Vous n’auriez pas tant à souffrir:
Je vous défendrais de l’orage;
Mais vous naissez le plus souvent
Sur les humides bords des Royaumes du vent.
La nature envers vous me semble bien injuste.
“Vous avez bien sujet d’accuser la Nature;
Un Roitelet pour vous est un pesant fardeau.
Le moindre vent, qui d’aventure
Fait rider la face de l’eau,
Vous oblige à baisser la tête:
Cependant que mon front, au Caucase pareil,
Non content d’arrêter les rayons du soleil,
Brave l’effort de la tempête.
Tout vous est Aquilon, tout me semble Zéphyr.
Encor si vous naissiez à l’abri du feuillage
Dont je couvre le voisinage,
Vous n’auriez pas tant à souffrir:
Je vous défendrais de l’orage;
Mais vous naissez le plus souvent
Sur les humides bords des Royaumes du vent.
La nature envers vous me semble bien injuste.
–
Votre compassion, lui répondit l’Arbuste,
Part d’un bon naturel; mais quittez ce souci.
Les vents me sont moins qu’à vous redoutables.
Je plie, et ne romps pas. Vous avez jusqu’ici
Contre leurs coups épouvantables
Résisté sans courber le dos;
Mais attendons la fin.” Comme il disait ces mots,
Du bout de l’horizon accourt avec furie
Le plus terrible des enfants
Que le Nord eût portés jusque-là dans ses flancs.
L’Arbre tient bon ; le Roseau plie.
Le vent redouble ses efforts,
Et fait si bien qu’il déracine
Celui de qui la tête au Ciel était voisine
Et dont les pieds touchaient à l’Empire des Morts.
Part d’un bon naturel; mais quittez ce souci.
Les vents me sont moins qu’à vous redoutables.
Je plie, et ne romps pas. Vous avez jusqu’ici
Contre leurs coups épouvantables
Résisté sans courber le dos;
Mais attendons la fin.” Comme il disait ces mots,
Du bout de l’horizon accourt avec furie
Le plus terrible des enfants
Que le Nord eût portés jusque-là dans ses flancs.
L’Arbre tient bon ; le Roseau plie.
Le vent redouble ses efforts,
Et fait si bien qu’il déracine
Celui de qui la tête au Ciel était voisine
Et dont les pieds touchaient à l’Empire des Morts.
domingo, 12 de julho de 2015
Ficção XII - Última sessão
Olhou-se
ao espelho e sorriu. Sob a luz rasante matinal que a exígua janela quadrada
emprestava à casa de banho, o seu rosto era o mesmo. Mais cavado das rugas do
tempo, mais maduro das dores da sobrevivência, era o mesmo rosto de vida, a
mesma expressão de luta. E de vitória.
Olhou-se
ao espelho e sorriu. O cabelo acastanhado que outrora lhe escorria sobre os
ombros em ondas vaidosas suaves, desenhava-se agora discreto e curvilíneo,
rasteiro ao couro cabeludo num despenteado ralo que já fora medo e vergonha
para se tornar alívio. E esperança.
Baixou
os olhos lentamente. Contemplou o corpo magro, vencida já a rejeição de não ser
capaz de olhá-lo, debilitado pela angústia, fortalecido na resistência. E na
luta: os ombros erguidos, o desenho enérgico e atraente dos braços. E o peito.
Houve
uma comoção, uma espécie de estremecimento marejado nos seus olhos claros, ao
observar-se assim, na crua nudez da condição humana: a falsa simetria do busto
minado pela doença, talhado pela cura, reconstruído pelo ilusionismo da ciência
e da técnica.
Olhou-se
ao espelho e sorriu. Treze meses. Os sintomas, os receios, o diagnóstico, o
pânico. A decisão de lutar, o desafio, a cirurgia e a recuperação. E a terapia.
Sobrevivência. Treze meses de uma história de mergulho e recomeço, de escalada
a pulso, de emergência e mutação. Ela mesma diferente, a mesma essência
completa numa extensão amputada. E refeita.
Olhou-se
ao espelho e sorriu. Uma força inexplicável crescia no seu íntimo, porque
estivera sempre lá.
«Sou
mulher!», gritou por dentro, «Sou mulher e estou viva!...»
Virou
costas ao espelho, regressou ao quarto, vestiu-se. Era o dia da última sessão
de radioterapia.
Sobrevivência.
E vitória.
Sorriu.
sábado, 4 de julho de 2015
Bom Teatro
Não
é preciso muito para fazer bom teatro. Basta que o pouco que se tem seja muito
bom. RAPE – Estudo de um Ingénuo Amor é a prova disso mesmo.
O
texto: há mentiras que nos fecham a ponto de nos tornarem prisioneiros da
verdade que ocultamos; há obsessões que se abrem dentro de nós a ponto de
criarem a única verdade pela qual conseguimos olhar o mundo. O autor, Andre
Neely, esgrime estas duas armas com impressionante mestria, lançando-as na
arena de uma história polémica. Ainda que possa ser algo previsível (pelo menos
para quem partilha estes trilhos da escrita criativa), a peça é de uma
incomodativa profundidade e de uma eloquência poderosa. Intensa. Como sabe bem
ir ao teatro e deparar com um texto verdadeiramente bem escrito!...
A
encenação: limpa e eficaz, revela uma leitura muito atenta e inteligente do
texto. O espaço vazio das solidões (in)comunicantes, o frenesim das obsessões e
das fugas, a escuridão dos silêncios e das verdades escondidas. As distâncias.
E a luz a conduzir-nos, a dirigir o nosso olhar, a manipular a nossa visão da
realidade. Como a mentira. E a reter-nos ali, a sufocar em nós a vontade de
partir. Como a obsessão. O encenador, Leonardo Garibaldi, servindo o texto,
concebeu uma gaiola de criatividade, estruturou o espaço e o tempo de modo a
prender os atores (e o público?) na liberdade de ação que lhes concede.
As
interpretações: Rita Silvestre e Rui Westermann, dois jovens atores de quem
tenho tido o privilégio de acompanhar a evolução, confirmam neste trabalho a
sua maturidade. Ambos seguríssimos tecnicamente (corpo, voz e ritmo), é na
expressão de sentimentos que o contraste se define: ele é contido o suficiente,
ela é necessariamente avassaladora; ele refugia-se num logos comedido, ela explode num pathos
desgovernado. Desarmado e omnisciente, ele; perdida e demolidora, ela. Rui espera,
Rita supera: a isso os condenam as suas personagens.
O
modo como tudo acontece delicia-nos até à dilaceração. Duvidamos cinicamente da
mentira dele, demasiado sincera para não ser verdadeira; ao invés, acreditamos
dolorosamente na obsessão dela, sofrida demais para não ser um engano. E
assistimos, com o regozijo da nossa impotência, à destruição daqueles dois
seres tão brilhantemente construída. Intrigados até ao êxtase com o mistério
das personagens, fascinados até à dor com o trabalho dos atores, conseguiremos ver
ali o espelho de nós próprios? Verdade do teatro, mentira das nossas vidas…
Não
é preciso muito para fazer bom teatro. Basta que o pouco que se tem seja muito
bom. RAPE – Estudo de um Ingénuo Amor é
a prova disso mesmo: texto, encenação, interpretações. E uma produção
competente, capaz de combinar tudo isto em doses certas para no-lo servir em
forma de arte. De inquietação. Inquietarte.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
