domingo, 15 de novembro de 2015

Texto quinquagésimo terceiro

Paris em novembro.
Bruta demais, esta violência! Injusta até à crueldade, desumana até ao desespero. Vergo-me perante a insensatez, torço-me num ponto de interrogação impotente. Quereria ver reticências de esperança que não consigo: porventura estendem-se para a frente, mas a cabeça curvada faz-me olhar para trás, mergulhar nos recônditos da humanidade, perscrutar as razões que o não são. Insensatez.
Paris em novembro.
Porque acredito no Homem, cerro os ouvidos a gritos de vingança, estremeço perante promessas de retaliação, fujo de exorcismos de raiva. Porque tudo isso eu sinto, também. Sem querer, porque acredito no Homem, nos homens, no homem que sou e nos outros. E no Outro. Não é possível que sejamos só isto, este Paris em novembro. Tem de haver algo mais que nos fez atravessar os séculos, chegar aonde estamos, fazer-nos o que somos. O Homem.
Paris em novembro.
Procuro um perdão que exista. Peço-o. Não para as vítimas: já o obtiveram pelo martírio. Mas para os próximos delas: merecem-no demais para ousarem precisar dele. E para os carrascos: precisam demasiado dele para se dignarem merecê-lo. Procuro um perdão que exista e nos salve desta loucura de nós mesmos. Talvez o Outro…
Paris em novembro.
Bruta demais, esta violência! Procuro um perdão que exista, que suplante a insensatez. Que será do Homem sem ele?...

domingo, 25 de outubro de 2015

Décima terceira alegoria

Não se apaga
este invisível que arde por dentro
Labareda nuvem sopro corpo
que preenche.

Não se cala
este silêncio que jorra no íntimo
Grito pausa vertigem espera
que perdura.

Não se trava
este infinito breve tudo
Sonho perda conforto lágrima
que é.

Eu em ti
Tu em mim
Nós nos outros
Os outros no Outro
O Outro em mim.

Presença.
Amor.

domingo, 18 de outubro de 2015

A pulsação da fé

Há um cheiro de corpo nesta música.

Há um toque de terra neste corpo.

Há um sabor de vida nesta terra.

Há uma visão de eternidade nesta vida.

E tudo isto ressoa na transcendência destas imagens, montra de uma essência que aos sentidos se revela, mas que só noutra dimensão se apreende. E noutra ainda se experimenta.

A pulsação da fé.

sábado, 10 de outubro de 2015

Texto quinquagésimo segundo

Franqueza: a escrita limpa, palavras certeiras inscritas no ritmo de uma pontuação musical, perfeita. Franqueza: representações honestas, despretensiosas na busca de algo mais longe, artístico. Franqueza: direção transparente, libertadora de fragilidades e atenta na restrição dos detalhes, cuidados.
Franqueza. E ironia, acima de tudo. Simplicidade na maneira de dizer o que há de mais complexo: o lado negro do ser humano. Ironia: inspiração amadora gritando a premeditação, o trabalho continuado dizendo os impulsos espontâneos. Ironia: o gosto de rir com vontade dos desgostos alheios, o cómico dos dramas da vida dos outros que seriam tragédias à nossa porta.
Franqueza. Ironia. E vontade de rir. Tudo tão bem feito (e não foi por mim!...).
Que inveja! Apetece-me matar alguém…

domingo, 4 de outubro de 2015

Ficção XIII - Memória de nunca

Como dizer-te a memória do que nunca aconteceu?... O aceno vago de te ver passar no outro lado da rua leva no gesto o desejo voluptuoso de uma carícia aveludada que não. O beijo assético na face de te encontrar por acaso contém a ânsia indizível do abraço de sentir o teu corpo fresco de primavera, quente do perfume de ti que nunca. A conversa circunstancial à mesa do café arrasta por dentro a vontade sem cura de uma intimidade subterrânea insaciável, de corpo e alma que jamais.
Como dizer-te a memória do que nunca aconteceu?... Conheço-te e nunca estive contigo. Coincidimos numa existência que nos martiriza nesta partilha de espaço e tempo em que, presentes um ao outro, nunca poderemos pertencer-nos. Porque há em ti uma juventude de sonhos solteiros que zarpam para um mar alto distante da minha velhice celibatária ancorada num porto de cobardias recalcadas.
Como dizer-te a memória do que nunca aconteceu?... Teríamos podido ser felizes se, no jogo da vida, a distribuição das cartas nos favorecesse com trunfos simultâneos. Mas agora já não e depois ainda jamais. Estou contigo e não poderei conhecer-te, porque a tua juventude de sonhos solteiros é o avesso da minha velhice celibatária. Resta-nos, pois, este olhar com que nos contemplamos de costas voltadas, este abismo de gerações em que vemos por dentro das nossas existências separadas a vida comum de que somos feitos.
Como dizer-te a memória do que nunca aconteceu?... És a aventura do meu medo, eu sou a imobilidade do teu impulso. Cascata límpida do meu lodo, amarga esclerose do teu florir. E assim, neste inverso de sermos, lembro-me em ti de tudo o que até agora, lembro-te em mim de tudo o que a partir daqui. Tu trazes-me à memória tudo o que nunca. Mas… como dizer-te?...

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Texto quinquagésimo primeiro

Ver-te adulto no espaço vazio é o prolongamento natural de ter-te recém-nascido nos meus braços cheios. Estremece-me a alma na contemplação desta libertação do teu talento maduro que me envolve no aconchego com que te prendo às noites de menino. Nos sentimentos de alegria e dor que agora interpretas na distância de palavras de outra língua está o olhar sonhador de há anos, quando, bem próximo, declaraste sem palavras que ias partir e ainda não sabias que irias partir.
Ver-te adulto no espaço vazio é o prolongamento natural de ter-te recém-nascido nos meus braços cheios. Na segura eloquência da energia que irradias vejo desvendar-se o mistério que contemplo no silêncio custódio de proteger-te a infância frágil. E orgulho-me de comover-me por sentir que é a tua força que me protege da fragilidade de envelhecer e desistir.
O tempo corre, a vida é inteira. Ligamo-nos hoje pelo ontem que aqui nos trouxe, soltamo-nos no amanhã que somos desde sempre. O tempo corre, a vida é inteira. Ver-te adulto no espaço vazio é o prolongamento natural de ter-te recém-nascido nos meus braços cheios. Somos o que fomos, estamos no que somos. E iremos para onde. 

domingo, 13 de setembro de 2015

Conversando... sobre Aquilino Ribeiro

Aquilino Ribeiro.
Nasceu em 13 de setembro de 1885. É um dos nomes maiores da literatura portuguesa, embora (que eu saiba!...) nenhum currículo escolar o mencione. Trabalhou as letras como uma lavoura artesanal: semeando imagens, enxertando regionalismos, podando a sintaxe e colhendo inovações semânticas. Elevou o elemento rústico da língua portuguesa a um estatuto de obra de arte. E disse-nos como ninguém.
Posso afirmar que a minha escrita cresceu no deslumbramento da sua, a consciência da minha pequenez formou-se na contemplação da sua grandeza.
Em jeito de homenagem, deixo aqui a primeira citação que me lembrei de procurar (terá sido a primeira leitura que fiz dele?...): os parágrafos iniciais da novela O Malhadinhas. Para ler e saborear (e admirar a atualidade).

Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra – eu cá nunca me avistei com ele – mas a verdade é que a neve vinha com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.
Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço. E, quanto mais cismo, mais dou razão ao Miguelão da Cabeça da Ponte, que falava como livro aberto, o grande bruxo. Muitas vezes lhe ouvi dizer quando estava de boa lua, o que nem sempre assucedia:
─ Tempos virão em que o governarão as terras vãs e os filhos das barregãs.