domingo, 23 de agosto de 2015

Texto quadragésimo oitavo

A casa.
Olhou em volta e reconheceu-se em tudo o que via. Porque toda a casa gritava a presença dos seus ascendentes. Era o seu bisavô nas traves mestras de madeira centenária; era o seu avô na marcenaria apurada de todos os móveis; era o seu tio na negligência dos cinzeiros espalhados por toda a parte, mas também na minuciosa catalogação das chaves de cada um dos armários e gavetas; e era, sobretudo, o seu pai no desvelo cuidadoso da preservação daquele mundo, na esquadria funcional da organização do espaço, na longínqua visão de futuro da conservação do passado. E era também, claro, a sua mãe na ternura bizarra do amor-ódio com que marcara impressões digitais por toda a parte.
A casa de família.
Olhou em volta e reconheceu-se em tudo o que via. Porque toda a casa desembocava nele, havia uma história dele gravada naquilo tudo. E, mascarada embora pelo moderno reboco das empenas, coberta pela impecável polidez das telhas recentes, vivia ali uma alma que o habitava.
A casa de família na aldeia.
Olhou em volta e reconheceu-se em tudo o que via. E percebeu que não podia desfazer-se de si mesmo. E reaprendeu o valor da História.

sábado, 15 de agosto de 2015

Texto quadragésimo sétimo

Férias na província. Um mergulho na natureza, um cheiro de terra quente e seca, uma respiração essencial e pura. Um afastamento, um jejum tecnológico com sabor a conversão, um olhar expandido às estrelas em grito de liberdade.
Férias na província. Um rústico aconchego caseiro, uma precariedade de tábuas, a exiguidade apetitosa. E um sufoco de brasas, iguarias crestadas sobre a grelha numa simplicidade primitiva. Odor a lenha, sabor a vida.
Férias na província. Um encontro com o ancestral, um espelho de perenidade que me mostra frágil e transitório. Uma noção de eterno retorno, um vislumbre de Idade de Ouro, qualquer coisa de genesíaco numa quietude de paraíso perdido.
Férias na província. Um folhear de passado. Eu num cenário exterior a mim. Identidade na diferença. Reencontro. 

domingo, 26 de julho de 2015

Texto quadragésimo sexto

De repente, a recordação. O retorno a um cálido passado, a uma infância embalada na simplicidade e emparedada no rigor. A voz do meu pai recitando um poema francês que aprendera na escola, talvez na infância dele que transportava então para a minha, tal como a memória de adulto agora me conduz a esse momento e, pela memória adulta dele, me projeta num tempo anterior. As memórias, e as pessoas que elas contêm, fazem-nos viajar para longe, rompem as fronteiras da nossa existência. As pessoas, e as memórias que elas contêm, dão-nos outra dimensão. Imortalidade.
De repente, a recordação. A voz do meu pai recitando um poema francês, imortal como a lembrança dele, poderoso nas palavras e no seu significado: a humildade contra a soberba, o confronto e a resistência. Sobrevivência do mais fraco, paradoxo da natureza. Imortalidade.
É um poema de La Fontaine, genial como quase todos: beleza das palavras, riqueza das imagens, grandeza das ideias. Recupero-o aqui:

Le Chêne et le Roseau
Le Chêne un jour dit au Roseau:
“Vous avez bien sujet d’accuser la Nature;
Un Roitelet pour vous est un pesant fardeau.
Le moindre vent, qui d’aventure
Fait rider la face de l’eau,
Vous oblige à baisser la tête:
Cependant que mon front, au Caucase pareil,
Non content d’arrêter les rayons du soleil,
Brave l’effort de la tempête.
Tout vous est Aquilon, tout me semble Zéphyr.
Encor si vous naissiez à l’abri du feuillage
Dont je couvre le voisinage,
Vous n’auriez pas tant à souffrir:
Je vous défendrais de l’orage;
Mais vous naissez le plus souvent
Sur les humides bords des Royaumes du vent.
La nature envers vous me semble bien injuste.

– Votre compassion, lui répondit l’Arbuste,
Part d’un bon naturel; mais quittez ce souci.
Les vents me sont moins qu’à vous redoutables.
Je plie, et ne romps pas. Vous avez jusqu’ici
Contre leurs coups épouvantables
Résisté sans courber le dos;
Mais attendons la fin.” Comme il disait ces mots,
Du bout de l’horizon accourt avec furie
Le plus terrible des enfants
Que le Nord eût portés jusque-là dans ses flancs.
L’Arbre tient bon ; le Roseau plie.
Le vent redouble ses efforts,
Et fait si bien qu’il déracine
Celui de qui la tête au Ciel était voisine
Et dont les pieds touchaient à l’Empire des Morts.

domingo, 12 de julho de 2015

Ficção XII - Última sessão

Olhou-se ao espelho e sorriu. Sob a luz rasante matinal que a exígua janela quadrada emprestava à casa de banho, o seu rosto era o mesmo. Mais cavado das rugas do tempo, mais maduro das dores da sobrevivência, era o mesmo rosto de vida, a mesma expressão de luta. E de vitória.
Olhou-se ao espelho e sorriu. O cabelo acastanhado que outrora lhe escorria sobre os ombros em ondas vaidosas suaves, desenhava-se agora discreto e curvilíneo, rasteiro ao couro cabeludo num despenteado ralo que já fora medo e vergonha para se tornar alívio. E esperança.
Baixou os olhos lentamente. Contemplou o corpo magro, vencida já a rejeição de não ser capaz de olhá-lo, debilitado pela angústia, fortalecido na resistência. E na luta: os ombros erguidos, o desenho enérgico e atraente dos braços. E o peito.
Houve uma comoção, uma espécie de estremecimento marejado nos seus olhos claros, ao observar-se assim, na crua nudez da condição humana: a falsa simetria do busto minado pela doença, talhado pela cura, reconstruído pelo ilusionismo da ciência e da técnica.
Olhou-se ao espelho e sorriu. Treze meses. Os sintomas, os receios, o diagnóstico, o pânico. A decisão de lutar, o desafio, a cirurgia e a recuperação. E a terapia. Sobrevivência. Treze meses de uma história de mergulho e recomeço, de escalada a pulso, de emergência e mutação. Ela mesma diferente, a mesma essência completa numa extensão amputada. E refeita.
Olhou-se ao espelho e sorriu. Uma força inexplicável crescia no seu íntimo, porque estivera sempre lá.
«Sou mulher!», gritou por dentro, «Sou mulher e estou viva!...»
Virou costas ao espelho, regressou ao quarto, vestiu-se. Era o dia da última sessão de radioterapia.
Sobrevivência. E vitória.
Sorriu.

sábado, 4 de julho de 2015

Bom Teatro

Não é preciso muito para fazer bom teatro. Basta que o pouco que se tem seja muito bom. RAPE – Estudo de um Ingénuo Amor é a prova disso mesmo.
O texto: há mentiras que nos fecham a ponto de nos tornarem prisioneiros da verdade que ocultamos; há obsessões que se abrem dentro de nós a ponto de criarem a única verdade pela qual conseguimos olhar o mundo. O autor, Andre Neely, esgrime estas duas armas com impressionante mestria, lançando-as na arena de uma história polémica. Ainda que possa ser algo previsível (pelo menos para quem partilha estes trilhos da escrita criativa), a peça é de uma incomodativa profundidade e de uma eloquência poderosa. Intensa. Como sabe bem ir ao teatro e deparar com um texto verdadeiramente bem escrito!...
A encenação: limpa e eficaz, revela uma leitura muito atenta e inteligente do texto. O espaço vazio das solidões (in)comunicantes, o frenesim das obsessões e das fugas, a escuridão dos silêncios e das verdades escondidas. As distâncias. E a luz a conduzir-nos, a dirigir o nosso olhar, a manipular a nossa visão da realidade. Como a mentira. E a reter-nos ali, a sufocar em nós a vontade de partir. Como a obsessão. O encenador, Leonardo Garibaldi, servindo o texto, concebeu uma gaiola de criatividade, estruturou o espaço e o tempo de modo a prender os atores (e o público?) na liberdade de ação que lhes concede.
As interpretações: Rita Silvestre e Rui Westermann, dois jovens atores de quem tenho tido o privilégio de acompanhar a evolução, confirmam neste trabalho a sua maturidade. Ambos seguríssimos tecnicamente (corpo, voz e ritmo), é na expressão de sentimentos que o contraste se define: ele é contido o suficiente, ela é necessariamente avassaladora; ele refugia-se num logos comedido, ela explode num pathos desgovernado. Desarmado e omnisciente, ele; perdida e demolidora, ela. Rui espera, Rita supera: a isso os condenam as suas personagens.
O modo como tudo acontece delicia-nos até à dilaceração. Duvidamos cinicamente da mentira dele, demasiado sincera para não ser verdadeira; ao invés, acreditamos dolorosamente na obsessão dela, sofrida demais para não ser um engano. E assistimos, com o regozijo da nossa impotência, à destruição daqueles dois seres tão brilhantemente construída. Intrigados até ao êxtase com o mistério das personagens, fascinados até à dor com o trabalho dos atores, conseguiremos ver ali o espelho de nós próprios? Verdade do teatro, mentira das nossas vidas…
Não é preciso muito para fazer bom teatro. Basta que o pouco que se tem seja muito bom. RAPE – Estudo de um Ingénuo Amor é a prova disso mesmo: texto, encenação, interpretações. E uma produção competente, capaz de combinar tudo isto em doses certas para no-lo servir em forma de arte. De inquietação. Inquietarte.


domingo, 28 de junho de 2015

Texto quadragésimo quinto

Porque é porventura a obra mais bem escrita da literatura portuguesa. Porque é decerto uma das mais profundas. Penetra no quotidiano de um homem para analisar a humanidade inteira no que tem de transcendente e vil.
Porque é uma prosa reveladora. E porque é certeira. Expõe, na dolorosa precisão de cada palavra, a contraditória essência da nossa condição de gente.
Porque é um livro feito do próprio paradoxo que retrata. Porque se assume desestruturado numa busca que lhe confere a consistência maior que o constitui. Sublime na sua fragilidade, é um livro grandioso na exposição da pequenez humana, simples na denúncia da sua complexidade.
Por tudo isto, o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, é uma das minhas obras preferidas, ocupa o pódio dos três melhores livros que já li. Que releio continuamente.

domingo, 14 de junho de 2015

Ficção XI - Reinscrever-me no tempo

Quereria reinscrever-me no tempo para recordar os dias em que o meu coração fervia em ânsias de martírio. Não fosse a doença que me acometeu ao chegar a Marrocos e por lá me quedaria, decerto morrendo às mãos do Islão, na prática assumida de anunciar o meu credo. Ao infundir-me uma moléstia que não desejei, foi o próprio Senhor a quem sempre me entreguei que me sonegou às mãos do destino que eu buscava, mais certo Ele do valor da minha vida que ciente eu próprio do sentido que pretendia dar-lhe.
No suposto regresso convalescente à terra lusitana onde nasci, novo transe – traição da natureza criada ou lealdade do Criador da natureza – me desviou: as peripécias de uma tormenta marítima desaguaram-me na Sicília e, como levado por imprevisível onda, transportaram-me a Assis e fizeram-me presente ao Capítulo da Ordem dos Frades Menores que abracei por inspiração daqueles pregadores que conheci em vida antes de rumarem ao norte de África e invejei na morte mártir que lá acharam.
Em Assis conheci o Irmão Fundador, que encontrei rodeado dos seus discípulos de origem. Sempre foi dito que ele profundamente se admirou da minha pessoa, mas essas versões da minha história mais não são que máscaras de lisonja ocultando o genuíno espanto que eu próprio senti perante os abismos de santidade que irradiavam de todos os membros daquela comunidade, e de Francisco mais que de qualquer outro. Acreditei, ali mais que nunca, que Deus é um abismo de luz que se alcança penetrando o nosso próprio íntimo, num mergulho que é feito dos gestos com que se assiste e alivia a pobreza alheia. A isso devotei a vida, cuidando que o meu saber acumulado – o trivium e o quadrivium aprendidos em Santa Maria Maior de Lisboa e aperfeiçoados em Santa Cruz de Coimbra – eram armas inúteis nesse processo, mais valendo sepultá-las no silêncio da meditação fecunda do que alardeá-las num exibicionismo estéril.
Na verdade, nunca fui acertado juiz de meus méritos, pois foi precisamente a minha erudição, em conjunto com a eloquência que dela brotava, que melhor me permitiram servir a Ordem, a Igreja, a humanidade e, em suma, o próprio Deus por quem sempre vivi. O tempo dos meus dias terminou em Pádua, sem que tenha tornado a ver a terra onde nasci e da qual mais tarde me fizeram patrono, consequência de ter sido canonizado (com uma brevidade que me deixa perplexo) e reconhecido como taumaturgo (com uma distinção que me esmaga a simplicidade).
Quereria reinscrever-me no tempo para, na eloquência que me atribuem, recordar aos homens os dias da minha vida e o que de mais importante deles ficou. Não esse mero folclore de santo casamenteiro, não apenas essa invocação chã do meu nome entre acordes de marcha popular, rimas de manjerico e cheiro a sardinha assada. Quereria reformular-me na imagem nítida das práticas disciplinadas da oração e do estudo – as virtudes que verdadeiramente me tornaram justo diante de Deus e valioso para os homens – em vez de continuar embaciado na velatura opaca dos prosaicos milagres que me atribuem e que fazem esquecer que, associado à graça divina, é o mérito de cada um que pode elevá-lo, não a complacência ou simpatia por narrativas mágicas da vida de qualquer outro.
Quereria reinscrever-me no tempo para aproximar-me dos homens que são como eu fui. Porém é condição dos santos – mesmo de um santo popular como eu – permanecerem encarcerados na sua seráfica beatitude, a uma eternidade de distância…