domingo, 14 de junho de 2015

Ficção XI - Reinscrever-me no tempo

Quereria reinscrever-me no tempo para recordar os dias em que o meu coração fervia em ânsias de martírio. Não fosse a doença que me acometeu ao chegar a Marrocos e por lá me quedaria, decerto morrendo às mãos do Islão, na prática assumida de anunciar o meu credo. Ao infundir-me uma moléstia que não desejei, foi o próprio Senhor a quem sempre me entreguei que me sonegou às mãos do destino que eu buscava, mais certo Ele do valor da minha vida que ciente eu próprio do sentido que pretendia dar-lhe.
No suposto regresso convalescente à terra lusitana onde nasci, novo transe – traição da natureza criada ou lealdade do Criador da natureza – me desviou: as peripécias de uma tormenta marítima desaguaram-me na Sicília e, como levado por imprevisível onda, transportaram-me a Assis e fizeram-me presente ao Capítulo da Ordem dos Frades Menores que abracei por inspiração daqueles pregadores que conheci em vida antes de rumarem ao norte de África e invejei na morte mártir que lá acharam.
Em Assis conheci o Irmão Fundador, que encontrei rodeado dos seus discípulos de origem. Sempre foi dito que ele profundamente se admirou da minha pessoa, mas essas versões da minha história mais não são que máscaras de lisonja ocultando o genuíno espanto que eu próprio senti perante os abismos de santidade que irradiavam de todos os membros daquela comunidade, e de Francisco mais que de qualquer outro. Acreditei, ali mais que nunca, que Deus é um abismo de luz que se alcança penetrando o nosso próprio íntimo, num mergulho que é feito dos gestos com que se assiste e alivia a pobreza alheia. A isso devotei a vida, cuidando que o meu saber acumulado – o trivium e o quadrivium aprendidos em Santa Maria Maior de Lisboa e aperfeiçoados em Santa Cruz de Coimbra – eram armas inúteis nesse processo, mais valendo sepultá-las no silêncio da meditação fecunda do que alardeá-las num exibicionismo estéril.
Na verdade, nunca fui acertado juiz de meus méritos, pois foi precisamente a minha erudição, em conjunto com a eloquência que dela brotava, que melhor me permitiram servir a Ordem, a Igreja, a humanidade e, em suma, o próprio Deus por quem sempre vivi. O tempo dos meus dias terminou em Pádua, sem que tenha tornado a ver a terra onde nasci e da qual mais tarde me fizeram patrono, consequência de ter sido canonizado (com uma brevidade que me deixa perplexo) e reconhecido como taumaturgo (com uma distinção que me esmaga a simplicidade).
Quereria reinscrever-me no tempo para, na eloquência que me atribuem, recordar aos homens os dias da minha vida e o que de mais importante deles ficou. Não esse mero folclore de santo casamenteiro, não apenas essa invocação chã do meu nome entre acordes de marcha popular, rimas de manjerico e cheiro a sardinha assada. Quereria reformular-me na imagem nítida das práticas disciplinadas da oração e do estudo – as virtudes que verdadeiramente me tornaram justo diante de Deus e valioso para os homens – em vez de continuar embaciado na velatura opaca dos prosaicos milagres que me atribuem e que fazem esquecer que, associado à graça divina, é o mérito de cada um que pode elevá-lo, não a complacência ou simpatia por narrativas mágicas da vida de qualquer outro.
Quereria reinscrever-me no tempo para aproximar-me dos homens que são como eu fui. Porém é condição dos santos – mesmo de um santo popular como eu – permanecerem encarcerados na sua seráfica beatitude, a uma eternidade de distância…

terça-feira, 9 de junho de 2015

Texto quadragésimo quarto

Porque olhar-te é gritar o amor que as palavras falham, ocas demais para a grandeza de que são mensageiras. Não há invólucro que possa forrar o ilimitado, nem atilho que prenda o eterno num embrulho de tempo.
Porque ser olhado por ti é sucumbir ao derrame da insuportável verdade. O imenso fulgor da tua essencial beleza queima a fraqueza dos meus olhos pedintes, jorra-me em lágrimas de um gozo cego da luz de ti.
Porque acordar ao teu lado é um sobressalto de paz indizível. É saborosa demais esta identidade de casulo do segredo das respirações só nossas, do entrelaçamento dos odores indisfarçados, da epidérmica colagem das emoções trazidas do íntimo.
Porque adormecer contigo é ressurreição em vida. Há um consolo de subsistência no longo prazer fugaz de largar as pressas e tensões que me esfaimam em morte quotidiana prolongada, há um mergulho de eternidade no prolongado instante de relaxamento sem medida em que se transcende a banal existência enterrada no seu peso numa leveza que a ressurge para um sentido maior. Talvez único.
Porque és tu.

domingo, 31 de maio de 2015

Texto quadragésimo terceiro

De repente, a surpresa. Um relance de olhos, o vislumbre da tua presença. A transcendência de ver-te na humana convicção da tua ausência. Uma aparição. Não te esperava, desejava-te na aparente intransponível distância. E, porque te desejava, vieste. Uma aparição.
Num repente, a beleza. No abalo de ver-te, a firmeza de me perceberes, a doçura da tua intenção plasmada no sorriso luminoso com que saudaste a perplexidade regalada do meu olhar. E o meu espanto entendeu logo a tua generosidade, tão de súbito como a tua ternura se deixou abraçar pela minha emoção. O belo é invisível, fulge na empatia oculta dos corações que se estreitam. O belo é indizível, grita silêncios de eternidade acima dos ruídos ocos da mera eloquência em que às vezes nos enganamos.
Num rompante, a certeza. Estamos juntos. Vieste porque estavas longe, vieste porque não estás longe. Chegaste num regresso do qual partes de novo, para me dizeres que ficas comigo nessa distância que eu entendo. É esta compreensão que nos estreita, porque, no teu desejo de proximidade de mim, é de ti próprio que não tens direito de afastar-te.
Surpresa, beleza e certeza. Na lonjura das distâncias medidas, há uma vizinhança de cumplicidade imensurável. De família. De amor.

domingo, 17 de maio de 2015

Sons de silêncio

Nova Iorque, Central Park, 19 de setembro de 1981. Sons de silêncio.

Um concerto de apenas música, conversa de letras cantadas pela presença dos intérpretes. Quando a arte se exprime na transparência das emoções, toda a parafernália de efeitos de luz, som, cor e movimento é um excesso que não faz diferença.

19 de setembro de 1981, Central Park, Nova Iorque. Sons de silêncio.

Noite mágica, 500 mil pessoas escutando o seu próprio silêncio nas duas vozes que o diziam, na metáfora que o gritava no íntimo. E continua.

Memorável, o evento. Profunda, a canção. Eterna, a mensagem.

Sons de silêncio. Aquilo de que precisamos.






domingo, 10 de maio de 2015

Décima segunda alegoria

Já não sei se é rima ou verso branco
O poema que eu construí
Com as folhas que vão deslizando
Sem destino, idade, hoje ou quando

Já não sei se é noite ou madrugada
Este sonho que eu descobri
Tão imenso, parece um deserto
Sem fronteiras, limite, longe ou perto

E o deserto
É um sorriso de criança
Onde ecoa o olhar da minha esperança

Já não sei se é sol ou lua nova
O sorriso que eu ensinei
Brando e leve como o trigo loiro
Mas tão rico, mais rico do que oiro

Já não sei se é sono ou despertar
A alegria que eu encontrei
Tão imensa, parece um deserto
Escaldante e de horizonte incerto

E o deserto
É um sorriso de criança
Onde ecoa o olhar da minha esperança

domingo, 3 de maio de 2015

Texto quadragésimo segundo

A primeira vez sem ti.
Um regresso aos lugares da infância, viagem de retorno ao sepulcro das memórias que não é possível exumar. A vida empurra-nos, o vento que nos sopra nas costas desloca-nos sem retorno, varre as pegadas da dor e do júbilo, bafeja-nos de uma resignação conformada ao vendaval das poeiras.
A primeira vez sem ti.
Há uma lonjura de álbum de recordações nas imagens que me chegam do passado contigo. Há uma injustiça nesta distância, uma abdicação nesta injustiça, um alívio nesta abdicação. E um remorso neste alívio.  
A primeira vez sem ti.
Os tempos vividos embalaram-se nos afetos navegados, amargaram nos desentendidos naufrágios, souberam a pouco nas ilusões ancoradas. Na nitidez do olhar à distância fica uma nostalgia triste do que poderia ter sido, a saudade enorme de um futuro impossível. A vida empurra-nos, o tempo e o espaço constrangem-nos, a memória denuncia-nos e a consciência condena-nos. Haverá um perdão que nos redima?...
Dia da Mãe. A primeira vez sem ti.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Texto quadragésimo primeiro

Orpheu.
Por estes dias, há precisamente cem anos. O abalo das palavras afiadas desmoronando provocações no marasmo, confundindo em sucessivas réplicas o encolher de ombros da aflitiva dormência.
Por estes dias, há precisamente cem anos. Um grito raivoso, um furacão inconsequente, um estrebuchar. Entre o estrangulamento financeiro do projeto, a incompreensão lorpa da turba, a mordaz oposição da suposta intelligentsia e o arrufo autofágico do próprio grupo de mentores (não é esse o infatigável cancro que sempre há de minar a nossa genialidade coletiva?...), o arrastão modernista esfumou-se numa traquinice saudável. Doentia, ao mesmo tempo. E rejeitada por isso: o país da saudade, amigo das lágrimas compungidas como um cristão de Sexta-feira Santa, não suportou a dor do dedo na ferida, a promessa de uma pedra removida, a energia do Modernismo.
Orpheu.
Por estes dias, há precisamente cem anos. Um clarão que se extinguiu em dois números nascidos como luz rasante na treva, e um terceiro abortado no abafo cruel do seu fogo sagrado. Ficam-nos os tesouros dados à luz, as palavras como pérolas, os poemas como colares desfiados para deleite de quem distingue a pureza da vulgaridade. A exemplo deste, de Mário de Sá-Carneiro, porventura o mais criticado dos escritos do primeiro número:

16

Esta inconstância de mim próprio em vibração
É que me há de transpor às zonas intermédias,
E seguirei entre cristais de inquietação,
A retinir, a ondular… Soltas as rédeas,
Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar
A torre d’ouro que era o carro da minh’Alma,
Transviarão pelo deserto, moribundos de Luar –
E eu só me lembrarei num baloiçar de palma…
Nos oásis, depois, hão de se abismar gumes,
A atmosfera há de ser outra, noutros planos:
As rãs hão de coaxar-me em roucos tons humanos
Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes…
                                        
                                             *

Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos…
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores…
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo…
Já não é o meu rastro o rastro d’oiro que ainda sigo…
Resvalo em pontes de gelatina e de bolores…
Hoje, a luz para mim é sempre meia-luz…

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As mesas do café endoideceram feitas ar…
Caiu-me agora um braço… Olha, lá vai ele a valsar
Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei…

(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado…).