Páscoa!
Libertação, superação, transcendência. Vida!
Nesta Festa da Liberdade (haverá maior liberdade do que o ato de livre entrega da própria vida, a fim de gerar mais vida?...), partilho aqui uma peça musical belíssima, muitas vezes usada em celebrações pascais e interpretada, nesta versão, em grande fidelidade ao formato original.
Feliz Páscoa para todos!
sábado, 4 de abril de 2015
domingo, 29 de março de 2015
O Poder e o Desejo (4)
«Posso
chegar a um espaço vazio qualquer e fazer dele um espaço de cena. Uma pessoa
atravessa esse espaço vazio enquanto outra pessoa observa – e nada mais é
necessário para que ocorra uma ação teatral».
Estas
palavras de Peter Brook estiveram na base do conceito de escrita de O Poder e o Desejo: o texto, carregado
nas palavras e espartilhado na forma clássica da tragédia, aligeirou-se nas
referências de implantação no espaço cénico.
Inspirada
por essa sugestão, a encenação original afastou-se deliberadamente de padrões
visuais historicistas: esvaziada a cenografia e despidas as personagens de quaisquer
marcas de época ou caráter, ficaram apenas os corpos dos atores nas suas roupas
essenciais de trabalho, partilhando um chão comum com os espetadores. Se Peter
Brook deu o mote para a escrita, o teatro pobre de Grotowski inspirou a
encenação.
A
intenção de todo este minimalismo foi criar um espetáculo que coubesse numa mala
de viagem, para que pudesse ser levado a qualquer sítio, preencher qualquer
espaço vazio. Para que os ecos da Palavra que ele procura transmitir pudessem
ressoar mais longe, para que a partilha de reflexões e sentimentos que ele
tenta suscitar pudesse alcançar mais fundo. E porque o teatro, no seu estado
mais «bruto» (outra vez segundo Peter Brook), pode acontecer em qualquer
tempo e lugar.
Justificada
por tudo isto, a oportunidade de apresentar O
Poder e o Desejo na capela do Externato Marista de Lisboa inscreve-se ainda,
porque se trata de uma história inspirada num episódio bíblico, no retomar de
uma tradição ancestral da cultura europeia: a representação de «Mistérios», dramatizações
de narrativas extraídas da Bíblia que tinham lugar nos adros das igrejas ou,
frequentemente, no seu interior.
Evidentemente,
a intenção eminentemente catequética ou moralizante dos Mistérios medievais dá
aqui lugar a uma dimensão mais interpelativa e provocatória, centrada nas
palavras e nas emoções que delas brotam. E inscrita numa estética de tragédia
clássica que o texto ensaia, que a encenação procura e que o espaço agora
escolhido evoca talvez melhor do que qualquer outro.
De
toda a depuração formal sairão reforçados – assim o esperamos – os sentimentos
assumidos pelos atores nas personagens que interpretam. Pois, se Peter Brook
deu o mote para a escrita e o teatro pobre de Grotowski inspirou a encenação, é
sempre Stanislavski que espreita por detrás do trabalho de criação dos papéis.
Por
tudo isto, a reposição de O Poder e o
Desejo, nos dias 9, 10 e 11 de abril, na capela do Externato Marista de
Lisboa, é uma ocasião única e imperdível. Talvez a última.
sábado, 21 de março de 2015
O Poder e o Desejo (3)
De
novo o mergulho no mistério da fragilidade humana. Das interrogações que nos
movem, mesmo quando nos impedem de avançar. Ou da fuga delas, que é outro modo
de assumi-las. Mais fraco, talvez, porém não menos humano. O mistério da
fragilidade humana.
De
novo a partilha da tragédia humana. A busca, a contradição, o desequilíbrio
entre a ambição e o desprendimento, a cedência ao capricho em confronto com a
firme resistência aos desvios, a entrega à própria verdade ou a negação dela.
De
novo o grito de transcendência. A ânsia de provocar, de sacudir a própria
letargia, de apelar ao mais que somos neste menos a que tantas vezes nos
reduzimos. Por inércia? Por desiludido cansaço? Por não sabermos porquê?... O
mistério da fragilidade humana. A tragédia.
De
novo a oportunidade de viver em conjunto um tempo de humanidade. E de
diferença. Despojados de artifícios, reduzidos em tecnologias, assumidos numa
simplicidade honesta. Pessoas diante de pessoas. E um texto. Palavras que se
escutam em quem diz. Palavras que se dizem em quem escuta. A Palavra. O grito
de transcendência.
De
novo a Palavra.
Teatro.
O Poder e o Desejo. Em abril, dias 9,
10 e 11. Na capela do Externato Marista de Lisboa. Uma ocasião imperdível!
domingo, 15 de março de 2015
Texto quadragésimo
Precisamos da provocação da arte, essa ferramenta
espiritual de olhar todas as coisas de outra maneira. Que nos desarma, por isso
nos fortalece. Fragiliza-nos no modo como nos desnuda ao encontro da nossa
essência. Assusta-nos por isso. E fascina-nos.
Porém, fugimos da provocação da arte, da qual
precisamos. O frémito quotidiano, mera luta de sobrevivência, inibe-nos. Debatemo-nos
na ânsia de permanecer à tona e, assim, perdemos o gozo do mergulho existencial
nos nossos medos, que afinal nos salvarão. Afligimo-nos mais nos desejos de
alívio, deixamo-nos prender por objetos de pretensa libertação. Não sonhamos,
iludidos por falsos ideais de vigilância. A superficialidade encobre a
profundeza, o imediato mascara o eterno. A arte sobra nas urgências da vida,
falta às angústias.
Entretanto, evadimo-nos (ou enganamo-nos de nos
evadirmos): programamos fins-de-semana «diferentes», projetamos férias «exóticas»,
compensamo-nos por sonharmos paraísos proporcionais à nossa impossibilidade deles. São intenções de
fuga já resignadas de regresso. Abrimos vagamente o postigo à utopia que nos
habita, porém negamos-lhe o espaço para que verdadeiramente nos ocupe. E
buscamos teimosamente respostas no nosso dia-a-dia atribulado, virando costas
ao mistério pessoal que nos interroga e dá sentido por isso.
Mas existe a arte. As artes todas. A literatura
também. E a religião, talvez. E o amor, sempre. As ferramentas do espírito (com
a cumplicidade do corpo). Algo que confira à nossa vida um certo sentido de
tragédia. De inexorabilidade que desafia. De decisão que urge. De
constrangimento que nos leva à superação. De compromisso até ao martírio. De
vida na própria morte. De salvação.
Precisamos.
domingo, 1 de março de 2015
Dizer a Imagem 8: Mais nada
Um
corpo agarrado ao pó da terra, colado pelos membros às tábuas outrora árvores,
ao artifício antes natureza. E a treva.
Um
olhar que se eleva, arregalado na mão estendida, gesto que se desprende da
carne num sonho de transcendência. E a luz.
Há
uma luz vinda do alto, que desenha este corpo na treva que o abraça. Um recorte
de esperança num mergulho de aflições. A existência. E mais nada.
E
recorda-se Caravaggio, o tenebrismo da vida, a luz rasante do sonho. A existência
contada no malabarismo da arte. A arte.
Fotografia.
A arte.
E
mais nada.
(Fotografia de Jorge Figueiredo, na apresentação de O Poder e o Desejo)
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Décima primeira alegoria
Transfiguração
O teu olhar
Negro como a roupa em que te despes
Habitado por aquela que não és tu
senão aqui
para mim
para nós
Transfiguração
O jeito de te moveres
A fala do teu corpo
a provocação
A dor saborosa que me infliges
neste jogo de sedução e troça
Transfiguração
A tua voz
Lábios moldando palavras vindas de dentro
nascidas noutro lugar
Tão tuas
Tão próprias daquela que não és tu
senão aqui
para mim
para nós
Transfiguração
Outra vida exposta neste segredo
na demolição das palavras
no delírio das emoções
no mergulho dos corpos
na distância de um beijo
A catarse
Transfiguração
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Texto trigésimo nono
Todas as vezes que escrevo, é um outro que me
escreve. Não sei se o liberto no ato de escrever, se apenas o constranjo a
debater a sua ânsia de liberdade na escrita em que choca debalde contra as
paredes de mim, forradas por dentro de inconsequência.
Sou uma ausência de ser, quando escrevo, uma
possibilidade não concretizável, um desejo sem coragem. Ele, em mim, é nesses
momentos a presença de não-ser, a impossibilidade concretizada, a coragem que
não deseja.
Libertamo-nos ambos na força com que estamos
irremediavelmente presos um ao outro. Prendemo-nos mutuamente neste ato da
escrita que descontroladamente nos liberta.
Somos dois no um-só em que existimos.
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