domingo, 1 de março de 2015

Dizer a Imagem 8: Mais nada

 
Um corpo agarrado ao pó da terra, colado pelos membros às tábuas outrora árvores, ao artifício antes natureza. E a treva.
Um olhar que se eleva, arregalado na mão estendida, gesto que se desprende da carne num sonho de transcendência. E a luz.
Há uma luz vinda do alto, que desenha este corpo na treva que o abraça. Um recorte de esperança num mergulho de aflições. A existência. E mais nada.
E recorda-se Caravaggio, o tenebrismo da vida, a luz rasante do sonho. A existência contada no malabarismo da arte. A arte.
Fotografia. A arte.
E mais nada.
 
(Fotografia de Jorge Figueiredo, na apresentação de O Poder e o Desejo)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Décima primeira alegoria

Transfiguração
O teu olhar
Negro como a roupa em que te despes
Habitado por aquela que não és tu
senão aqui
para mim
para nós

Transfiguração
O jeito de te moveres
A fala do teu corpo
a provocação
A dor saborosa que me infliges
neste jogo de sedução e troça

Transfiguração
A tua voz
Lábios moldando palavras vindas de dentro
nascidas noutro lugar
Tão tuas
Tão próprias daquela que não és tu
senão aqui
para mim
para nós

Transfiguração
Outra vida exposta neste segredo
na demolição das palavras
no delírio das emoções
no mergulho dos corpos
na distância de um beijo
A catarse
 
Transfiguração

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Texto trigésimo nono

Todas as vezes que escrevo, é um outro que me escreve. Não sei se o liberto no ato de escrever, se apenas o constranjo a debater a sua ânsia de liberdade na escrita em que choca debalde contra as paredes de mim, forradas por dentro de inconsequência.
Sou uma ausência de ser, quando escrevo, uma possibilidade não concretizável, um desejo sem coragem. Ele, em mim, é nesses momentos a presença de não-ser, a impossibilidade concretizada, a coragem que não deseja.
Libertamo-nos ambos na força com que estamos irremediavelmente presos um ao outro. Prendemo-nos mutuamente neste ato da escrita que descontroladamente nos liberta.
Somos dois no um-só em que existimos.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Décima alegoria

Meu amigo das noites do meu dia-a-dia
Meu companheiro que aprecio tanto
Ouve o som das palavras desta melodia
Que ela te anime e te arrefeça o pranto
São meras palavras, é fumo a pairar
Vago como ondas do mar
Mas o vento sopra no teu dia-a-dia
Que ele te leve fumos de alegria

Se a frieza da noite te emudece a alma
Sentes-te só no crepitar da gente
Se o deserto do medo te destrói a calma
É porque vives sob o sol poente
São meras palavras que eu tenho p’ra dar
Ténues como a cor do ar
Mas a vida pulsa no coração da gente
Que ela te leve até ao sol nascente

O orvalho é pregão que anuncia a manhã
Terna e pura como lã
E mesmo que a noite roube a tua alegria
Nunca adormeças ao raiar do dia

domingo, 25 de janeiro de 2015

Texto trigésimo oitavo

Abandono. Liberdade. Plenitude.
Olho-te e vejo-me no olhar com que me vês. Derramo-me no meu olhar para ti e recolho-me de volta no teu olhar para mim em que te dizes inteira. E sinto-me mais eu, mais simplesmente eu, na tua pessoa que vejo que me vê. Olho-te.
Toco-te e há algo em mim que se acrescenta. No limite dos meus membros há um corpo maior em que me torno. Que já lá estava na espera de ti, que já lá estava mesmo na ignorância de ti da minha vida anterior, quando a extensão da minha alma secava no alcance dos meus sentidos. Que se concretiza agora, na febre com que devolves a aproximação do meu gesto que te alcança. Toco-te.
Beijo-te e toda a minha existência está na ternura de me morderes. Há um abraço que se alarga ao universo na estreiteza de um egoísmo de lábios, uma consciência de eternidade que se expande na fugacidade de um instante. Beijo-te.
Entrego-me. Há um desejo de abandono, uma vontade de perda total nesta certeza do maior encontro possível. Todos os muros se abatem, as grades todas se desintegram. Revestidos de sinceridade nua, os nossos corpos, vazios inermes pedintes, enchem-se da mais poderosa arma que uma vida pode oferecer a outra. Entrego-me.
E vivo contigo. A espuma das alegrias e a onda cavada dos sofrimentos, o latejar das expectativas e a mudez oca dos desesperos, a pirotecnia dos sucessos e a escuridão pesada dos fracassos, a seara lourejante das serenidades e o deserto agressivo das angústias. Suor e brandura, conforto e lágrimas. Tudo. Vivo contigo.
Olho-te. Toco-te. Beijo-te. Entrego-me. Vivo contigo.
Abandono. Liberdade. Plenitude.
É assim, há vinte e três anos.
Pode ser amor…

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Poder e o Desejo (2)

Concentração.

Como dizer o indizível?
Que sangue de palavras
com que possa colorir a poderosa eloquente transparência
silêncio comunicado
intimidade dividida
solidão partilhada?

Foco.

Assim, antes de começar.
Assim sempre
a um passo de soltar a magia
de mergulhar no mistério
de abrir o coração na rendição à Palavra.

Entrega.

Verdade de nós próprios
na mentira da arte.






 
 
(Fotografias de Jorge Figueiredo, na apresentação de O Poder e o Desejo)

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Dizer a Imagem 7: Teatro Palavra


Teatro.
O espaço vazio de Peter Brook inunda completamente a sala que se ergue sobre o peso histórico do soalho centenário. Os três corpos, despojados na pobreza de Grotowski, flutuam no afastamento de uma indizível cumplicidade. Os degraus negros, hirtos, sustentam as mãos nos bolsos que cavam a distância brechtiana do falso coro sobre a dor contida das personagens da tragédia. E adivinha-se uma tensão de emoções buscadas no íntimo, a força da memória afetiva de Stanislavski transbordando no jogo que decorre.
Palavra.
Há uma vida própria nesta quietude, uma ternura maior nestas solidões aparentes. À volta, o abandono das cadeiras repousa a expetativa de quem venha testemunhar a beleza única deste silêncio povoado, desta paz eloquente. E partilhá-la.
Teatro-Palavra.

(Fotografia de João Cláudio Fernandes, na apresentação de O Poder e o Desejo)