domingo, 1 de fevereiro de 2015

Décima alegoria

Meu amigo das noites do meu dia-a-dia
Meu companheiro que aprecio tanto
Ouve o som das palavras desta melodia
Que ela te anime e te arrefeça o pranto
São meras palavras, é fumo a pairar
Vago como ondas do mar
Mas o vento sopra no teu dia-a-dia
Que ele te leve fumos de alegria

Se a frieza da noite te emudece a alma
Sentes-te só no crepitar da gente
Se o deserto do medo te destrói a calma
É porque vives sob o sol poente
São meras palavras que eu tenho p’ra dar
Ténues como a cor do ar
Mas a vida pulsa no coração da gente
Que ela te leve até ao sol nascente

O orvalho é pregão que anuncia a manhã
Terna e pura como lã
E mesmo que a noite roube a tua alegria
Nunca adormeças ao raiar do dia

domingo, 25 de janeiro de 2015

Texto trigésimo oitavo

Abandono. Liberdade. Plenitude.
Olho-te e vejo-me no olhar com que me vês. Derramo-me no meu olhar para ti e recolho-me de volta no teu olhar para mim em que te dizes inteira. E sinto-me mais eu, mais simplesmente eu, na tua pessoa que vejo que me vê. Olho-te.
Toco-te e há algo em mim que se acrescenta. No limite dos meus membros há um corpo maior em que me torno. Que já lá estava na espera de ti, que já lá estava mesmo na ignorância de ti da minha vida anterior, quando a extensão da minha alma secava no alcance dos meus sentidos. Que se concretiza agora, na febre com que devolves a aproximação do meu gesto que te alcança. Toco-te.
Beijo-te e toda a minha existência está na ternura de me morderes. Há um abraço que se alarga ao universo na estreiteza de um egoísmo de lábios, uma consciência de eternidade que se expande na fugacidade de um instante. Beijo-te.
Entrego-me. Há um desejo de abandono, uma vontade de perda total nesta certeza do maior encontro possível. Todos os muros se abatem, as grades todas se desintegram. Revestidos de sinceridade nua, os nossos corpos, vazios inermes pedintes, enchem-se da mais poderosa arma que uma vida pode oferecer a outra. Entrego-me.
E vivo contigo. A espuma das alegrias e a onda cavada dos sofrimentos, o latejar das expectativas e a mudez oca dos desesperos, a pirotecnia dos sucessos e a escuridão pesada dos fracassos, a seara lourejante das serenidades e o deserto agressivo das angústias. Suor e brandura, conforto e lágrimas. Tudo. Vivo contigo.
Olho-te. Toco-te. Beijo-te. Entrego-me. Vivo contigo.
Abandono. Liberdade. Plenitude.
É assim, há vinte e três anos.
Pode ser amor…

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Poder e o Desejo (2)

Concentração.

Como dizer o indizível?
Que sangue de palavras
com que possa colorir a poderosa eloquente transparência
silêncio comunicado
intimidade dividida
solidão partilhada?

Foco.

Assim, antes de começar.
Assim sempre
a um passo de soltar a magia
de mergulhar no mistério
de abrir o coração na rendição à Palavra.

Entrega.

Verdade de nós próprios
na mentira da arte.






 
 
(Fotografias de Jorge Figueiredo, na apresentação de O Poder e o Desejo)

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Dizer a Imagem 7: Teatro Palavra


Teatro.
O espaço vazio de Peter Brook inunda completamente a sala que se ergue sobre o peso histórico do soalho centenário. Os três corpos, despojados na pobreza de Grotowski, flutuam no afastamento de uma indizível cumplicidade. Os degraus negros, hirtos, sustentam as mãos nos bolsos que cavam a distância brechtiana do falso coro sobre a dor contida das personagens da tragédia. E adivinha-se uma tensão de emoções buscadas no íntimo, a força da memória afetiva de Stanislavski transbordando no jogo que decorre.
Palavra.
Há uma vida própria nesta quietude, uma ternura maior nestas solidões aparentes. À volta, o abandono das cadeiras repousa a expetativa de quem venha testemunhar a beleza única deste silêncio povoado, desta paz eloquente. E partilhá-la.
Teatro-Palavra.

(Fotografia de João Cláudio Fernandes, na apresentação de O Poder e o Desejo)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O Poder e o Desejo

Sentimentos. Expressões.
As intenções das palavras colorindo os olhares dos atores, moldando o barro dos seus rostos e corpos.
O poder e o desejo.
Teatro.






sábado, 3 de janeiro de 2015

Dizer a Imagem 6: Fusão

Dois seres enlaçados, um confronto de opostos. A força amparada na fraqueza, a debilidade a espraiar-se na robustez.
Um rosto crispado, o outro elanguescido, um desespero esmagador no ricto dele, ela gritando fuga por trás da cortina dos cabelos abandonados.
Numa súplica de afogamento, as frágeis mãos arrepanham o abraço predador, atraente como tentáculos. Há uma cumplicidade de pele, um diálogo de emoções fortes, uma simbiose de vontades em choque, uma fusão de coragens.
Corpos em estado de alerta, um combate de energias somadas, a força toda visível nos membros, concentrada na mente. Sensível na carne, partilhada no espírito.
Poder e desejo.
Teatro.
 
(Fotografia de Jorge Figueiredo, no ensaio de O Poder e o Desejo)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Feliz Portugal em 2015!

Neste final de ano, partilho duas magníficas canções daquele que considero o maior representante da verdadeira música portuguesa.

Que o modo genuíno e profundo como Fausto nos diz em toda a nossa grandeza e fragilidade nos inspire a sermos mais portugueses e mais alegres neste país cada vez mais triste e cada vez menos nosso.

Feliz Ano Novo! Feliz Portugal!