terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Poder e o Desejo (2)

Concentração.

Como dizer o indizível?
Que sangue de palavras
com que possa colorir a poderosa eloquente transparência
silêncio comunicado
intimidade dividida
solidão partilhada?

Foco.

Assim, antes de começar.
Assim sempre
a um passo de soltar a magia
de mergulhar no mistério
de abrir o coração na rendição à Palavra.

Entrega.

Verdade de nós próprios
na mentira da arte.






 
 
(Fotografias de Jorge Figueiredo, na apresentação de O Poder e o Desejo)

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Dizer a Imagem 7: Teatro Palavra


Teatro.
O espaço vazio de Peter Brook inunda completamente a sala que se ergue sobre o peso histórico do soalho centenário. Os três corpos, despojados na pobreza de Grotowski, flutuam no afastamento de uma indizível cumplicidade. Os degraus negros, hirtos, sustentam as mãos nos bolsos que cavam a distância brechtiana do falso coro sobre a dor contida das personagens da tragédia. E adivinha-se uma tensão de emoções buscadas no íntimo, a força da memória afetiva de Stanislavski transbordando no jogo que decorre.
Palavra.
Há uma vida própria nesta quietude, uma ternura maior nestas solidões aparentes. À volta, o abandono das cadeiras repousa a expetativa de quem venha testemunhar a beleza única deste silêncio povoado, desta paz eloquente. E partilhá-la.
Teatro-Palavra.

(Fotografia de João Cláudio Fernandes, na apresentação de O Poder e o Desejo)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O Poder e o Desejo

Sentimentos. Expressões.
As intenções das palavras colorindo os olhares dos atores, moldando o barro dos seus rostos e corpos.
O poder e o desejo.
Teatro.






sábado, 3 de janeiro de 2015

Dizer a Imagem 6: Fusão

Dois seres enlaçados, um confronto de opostos. A força amparada na fraqueza, a debilidade a espraiar-se na robustez.
Um rosto crispado, o outro elanguescido, um desespero esmagador no ricto dele, ela gritando fuga por trás da cortina dos cabelos abandonados.
Numa súplica de afogamento, as frágeis mãos arrepanham o abraço predador, atraente como tentáculos. Há uma cumplicidade de pele, um diálogo de emoções fortes, uma simbiose de vontades em choque, uma fusão de coragens.
Corpos em estado de alerta, um combate de energias somadas, a força toda visível nos membros, concentrada na mente. Sensível na carne, partilhada no espírito.
Poder e desejo.
Teatro.
 
(Fotografia de Jorge Figueiredo, no ensaio de O Poder e o Desejo)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Feliz Portugal em 2015!

Neste final de ano, partilho duas magníficas canções daquele que considero o maior representante da verdadeira música portuguesa.

Que o modo genuíno e profundo como Fausto nos diz em toda a nossa grandeza e fragilidade nos inspire a sermos mais portugueses e mais alegres neste país cada vez mais triste e cada vez menos nosso.

Feliz Ano Novo! Feliz Portugal!


domingo, 28 de dezembro de 2014

Texto trigésimo sétimo

Teatro.
Observar e observar-se no conflito diário das vontades entrechocadas, atravessar o tiroteio das paixões para que nunca se está preparado. Apesar dos ensaios. E sofrer com isso.
Teatro.
Ter a coragem de deixar-se observar, para que o público se veja a si mesmo. Sentir para dar a sentir o que se sente, comunicar para absorver, partilhar para encher-se, esgotar-se numa doação que busca a plenitude. E gostar disso.
Teatro.
A construção de uma realidade teatral, verdade possível nas mentiras de que se é capaz. Não há exibição, apenas a confissão humilde de quem vê a vida de outra forma. E sofre com isso. E gosta. Não de sofrer, mas disso.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Natal!

Natal.
Festa do Encontro.
Encontro de Deus com o homem.
Encontro do homem com o divino em si.
Encontro do homem com o Outro, divinização da sua precária existência.
Origem e destino. Sentido. Transcendência.

Feliz Natal!