domingo, 28 de dezembro de 2014

Texto trigésimo sétimo

Teatro.
Observar e observar-se no conflito diário das vontades entrechocadas, atravessar o tiroteio das paixões para que nunca se está preparado. Apesar dos ensaios. E sofrer com isso.
Teatro.
Ter a coragem de deixar-se observar, para que o público se veja a si mesmo. Sentir para dar a sentir o que se sente, comunicar para absorver, partilhar para encher-se, esgotar-se numa doação que busca a plenitude. E gostar disso.
Teatro.
A construção de uma realidade teatral, verdade possível nas mentiras de que se é capaz. Não há exibição, apenas a confissão humilde de quem vê a vida de outra forma. E sofre com isso. E gosta. Não de sofrer, mas disso.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Natal!

Natal.
Festa do Encontro.
Encontro de Deus com o homem.
Encontro do homem com o divino em si.
Encontro do homem com o Outro, divinização da sua precária existência.
Origem e destino. Sentido. Transcendência.

Feliz Natal!

sábado, 20 de dezembro de 2014

Texto trigésimo sexto

Escrevi O Poder e o Desejo em busca da Palavra. Não por tê-la encontrado e pretender traduzi-la, verter o seu bálsamo purificador em qualquer suposta ânfora das urgências da atualidade. Antes como uma procura primigénia: perseguir uma origem como quem vasculha nos astros a leitura de um rumo; alinhar as frases no gesto de deitar os pés ao caminho. À procura de um ponto de partida. A Palavra.
Fui ao encontro de um profeta ultrapassado pela verdade que o habita; esbarrei contra um pretenso soberano reduzido pelo poder do desejo; vi desabrochar a malícia numa virgem inocente, rendida ao desejo de poder.
Escrevi à procura; não sei o que encontrei. Estruturei uma tragédia: prólogo, párodo, alternância de episódios e estásimos, êxodo a concluir. Deixando em aberto. A vida humana caminha no escuro, por isso é tragédia. Irreversível nos atos, que não podem reparar-se sem contrição. Por isso é tragédia. No caminho escuro dos atos irreversíveis, necessitamos da profecia, de alguém que nos traga a Palavra. E que deixe em aberto.
Escrevi O Poder e o Desejo em busca da Palavra. Não sei o que encontrei. Entreguei o texto sem consumar a procura. Passei o testemunho aos atores, para que eles vão mais longe. E o transmitam ao público.
O Poder e o Desejo. À procura de um ponto de partida. A busca continua.

Ensaio:

  




(Fotografias de Jorge Figueiredo no ensaio de O Poder e o Desejo)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Texto trigésimo quinto

A vida no teatro.
Desejar. Ter medo. Avançar sem medo. Avançar contra o medo e apesar dele. Vencer o atrito do palco, suportar o flagelo das luzes, emergir da avalanche dos olhares. Enfrentar a própria pequenez, projetado numa grandeza maior. Transcendente.
A vida no teatro.
Estar preparado. Preparar-se. Treinar o desejo para mais desejar o transcendente. O bom ator não improvisa porque está preparado. E improvisa porque está preparado. Tudo é espontâneo, nada é casual. Os ensaios preparam para tudo, se soubermos preparar-nos para eles.
A vida no teatro: preparar-se para ensaiar, ensaiar para estar preparado. Desejar o transcendente e, por isso, transcender-se imparavelmente em desejo. O melhor ator não é o mais talentoso; é, antes, o mais bem preparado. E o mais insatisfeito.

Preparativos:


Aquecimento:




Ensaio:



(Fotografias de Jorge Figueiredo, no ensaio de O Poder e o Desejo)

sábado, 6 de dezembro de 2014

Texto trigésimo quarto

Teatro.
Escrever um texto dramático é buscar a Palavra, reduzi-la a palavras sepultadas no leito da escrita, esperar os corpos e as vozes que as ressuscitem. É um esforço lacunar, a noção humilde de ser o elo primário de uma cadeia transcendente, de cujo sortilégio poderá resultar a obra de arte. É forjar, com as ferramentas da escrita, uma matéria-prima, rude minério que valha a pena ofertar à alquimia do palco, onde, vertido em oiro, deixe de pertencer a quem o dá, sem que chegue a ser possuído por quem o recebe.
Teatro.
Representar uma peça de teatro é aceitar o sacerdócio de um rito onde se permanecerá sempre aprendiz. É irradiar uma força que se encontra no íntimo, oriunda de algo maior, distante para dentro, inacessível na sua plenitude. É expor-se, corpo presente aos olhares, espírito nos antípodas da exibição. É assumir-se na verdade possível, para assim poder exprimir, numa liturgia de vivificação, as palavras adormecidas que buscam dizer a Palavra.
Teatro.
Assistir a uma peça de teatro é comungar do processo criativo, receber o tesouro de mãos abertas, cerrar os punhos na dor do entendimento feliz que ele suscita, estender os braços na partilha urgente a que ele impele. Nenhuma outra arte espelha a vida tão cruelmente, nenhuma a transmite de modo tão inexorável. Porque ela própria é vida: gerada na ideia que lhe é alma, consubstanciada no texto que lhe é matéria, existente na duração do trabalho dos atores que lhe é história. E, findo o seu tempo, herdada na memória de cada espetador que lhe é sucessão.
Teatro. O Poder e o Desejo.
Em janeiro de 2015, a possibilidade de reunir autor, atores e espetadores. E fazer acontecer vida.
Vai valer a pena!



sábado, 29 de novembro de 2014

Texto trigésimo terceiro

Desde sempre, o fascínio. Terror e piedade.
A tragédia grega em toda a sua riqueza de mitos e valores, a vida contada em conquistas operadas por homens e destinos traçados por deuses. A provocação humana às forças que a transcendem, caminho cego por episódios de sinuosa escuridão. E a peripécia reveladora, o inevitável efeito. A catástrofe. E, por meio dela, a consciência de si, a descoberta da virtude. Terror e piedade. A catarse.
Desde sempre, o fascínio. E a interrogação, também. A força avassaladora, a pura imortalidade deste modelo primordial do teatro questionam todas as demais experiências históricas de dramaturgia onde, afinal, ela permaneceu. Na estrutura, na forma ou no tema. Terror e piedade. A catarse.
Desde sempre, o fascínio. E a interrogação, também. E o desafio, depois. A vontade de limpar a escrita teatral para chegar à essência de onde ela nasceu: a vida contada em conquistas operadas por homens e destinos traçados por deuses. Ainda que, no tema, a mitologia clássica, ventre que gerou a cultura europeia que (ainda) falamos, possa dar lugar à teologia judaico-cristã, tutora que a educou e que (ainda) a influencia. Terror e piedade. A catarse?
Desde sempre, o fascínio. E a interrogação, também. E o desafio, depois. E a tentativa, agora: O Poder e o Desejo. Um exercício trágico. Terror e piedade.
E a catarse?...

sábado, 15 de novembro de 2014

Texto trigésimo segundo

Escrever.
Escrever como Penélope: urdir uma infindável teia de sonhos, infindável porque de sonhos. Escrever ao contrário de Penélope: tecer no escuro da noite, encher o balão na densidade dos silêncios, rezando para que o espigão dos dias ruidosos retraia o seu furor e se compadeça da película ténue que envolve a fragilidade gasosa (espiritual?...) da criação.
E escrever, escrever sempre. A propósito e sem ele, nas horas disponíveis e nos intervalos do tempo que não há, nas intermitências de tudo e nas permanências de nada, a caneta ou a lápis, nos suportes próprios e impróprios, nos cadernos de qualquer outra coisa, nos versos dos talões do multibanco e nas frentes também, quando a impressão está sumida, no bloco de notas do computador portátil quase sem bateria e no rascunho de mensagens do telemóvel. E na memória, cada vez mais débil, onde a frase pensada e armazenada será mais tarde recuperada numa forma diferente.
Escrever como Penélope: entreter uma obra visível imperfeita à espera de um rei invisível, perfeito na minha ideia dele, que teima na demora de mostrar-se.
Escrever. Porque o ímpeto é irreprimível, porque a vontade dói de uma maneira insuportável. Escrever sempre. Porque outra coisa é impensável.