Natal.
Festa do Encontro.
Encontro de Deus com o homem.
Encontro do homem com o divino em si.
Encontro do homem com o Outro, divinização da sua precária existência.
Origem e destino. Sentido. Transcendência.
Feliz Natal!
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
sábado, 20 de dezembro de 2014
Texto trigésimo sexto
Escrevi
O Poder e o Desejo em busca da
Palavra. Não por tê-la encontrado e pretender traduzi-la, verter o seu bálsamo
purificador em qualquer suposta ânfora das urgências da atualidade. Antes como uma
procura primigénia: perseguir uma origem como quem vasculha nos astros a
leitura de um rumo; alinhar as frases no gesto de deitar os pés ao caminho. À
procura de um ponto de partida. A Palavra.
Fui
ao encontro de um profeta ultrapassado pela verdade que o habita; esbarrei
contra um pretenso soberano reduzido pelo poder do desejo; vi desabrochar a
malícia numa virgem inocente, rendida ao desejo de poder.
Escrevi
à procura; não sei o que encontrei. Estruturei uma tragédia: prólogo, párodo,
alternância de episódios e estásimos, êxodo a concluir. Deixando em aberto. A
vida humana caminha no escuro, por isso é tragédia. Irreversível nos atos, que
não podem reparar-se sem contrição. Por isso é tragédia. No caminho escuro dos
atos irreversíveis, necessitamos da profecia, de alguém que nos traga a
Palavra. E que deixe em aberto.
Escrevi
O Poder e o Desejo em busca da
Palavra. Não sei o que encontrei. Entreguei o texto sem consumar a procura.
Passei o testemunho aos atores, para que eles vão mais longe. E o transmitam ao
público.
O Poder e o Desejo.
À procura de um ponto de partida. A busca continua.
Ensaio:
(Fotografias de Jorge Figueiredo no ensaio de O Poder e o Desejo)
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Texto trigésimo quinto
A vida no teatro.
Desejar. Ter medo. Avançar sem medo. Avançar contra
o medo e apesar dele. Vencer o atrito do palco, suportar o flagelo das luzes,
emergir da avalanche dos olhares. Enfrentar a própria pequenez, projetado numa
grandeza maior. Transcendente.
A vida no teatro.
Estar preparado. Preparar-se. Treinar o desejo para
mais desejar o transcendente. O bom ator não improvisa porque está preparado. E
improvisa porque está preparado. Tudo é espontâneo, nada é casual. Os ensaios
preparam para tudo, se soubermos preparar-nos para eles.
A vida no teatro: preparar-se para ensaiar, ensaiar
para estar preparado. Desejar o transcendente e, por isso, transcender-se
imparavelmente em desejo. O melhor ator não é o mais talentoso; é, antes, o
mais bem preparado. E o mais insatisfeito.
Preparativos:
Aquecimento:
Ensaio:
(Fotografias de Jorge Figueiredo, no ensaio de O Poder e o Desejo)
sábado, 6 de dezembro de 2014
Texto trigésimo quarto
Teatro.
Escrever um texto dramático é buscar a Palavra,
reduzi-la a palavras sepultadas no leito da escrita, esperar os corpos e as
vozes que as ressuscitem. É um esforço lacunar, a noção humilde de ser o elo
primário de uma cadeia transcendente, de cujo sortilégio poderá resultar a obra
de arte. É forjar, com as ferramentas da escrita, uma matéria-prima, rude
minério que valha a pena ofertar à alquimia do palco, onde, vertido em oiro,
deixe de pertencer a quem o dá, sem que chegue a ser possuído por quem o
recebe.
Teatro.
Representar uma peça de teatro é aceitar o
sacerdócio de um rito onde se permanecerá sempre aprendiz. É irradiar uma força
que se encontra no íntimo, oriunda de algo maior, distante para dentro,
inacessível na sua plenitude. É expor-se, corpo presente aos olhares, espírito
nos antípodas da exibição. É assumir-se na verdade possível, para assim poder exprimir,
numa liturgia de vivificação, as palavras adormecidas que buscam dizer a
Palavra.
Teatro.
Assistir a uma peça de teatro é comungar do
processo criativo, receber o tesouro de mãos abertas, cerrar os punhos na dor
do entendimento feliz que ele suscita, estender os braços na partilha urgente a
que ele impele. Nenhuma outra arte espelha a vida tão cruelmente, nenhuma a
transmite de modo tão inexorável. Porque ela própria é vida: gerada na ideia
que lhe é alma, consubstanciada no texto que lhe é matéria, existente na
duração do trabalho dos atores que lhe é história. E, findo o seu tempo, herdada
na memória de cada espetador que lhe é sucessão.
Teatro. O Poder
e o Desejo.
Em janeiro de 2015, a possibilidade de reunir
autor, atores e espetadores. E fazer acontecer vida.
Vai valer a pena!
sábado, 29 de novembro de 2014
Texto trigésimo terceiro
Desde sempre, o fascínio. Terror e piedade.
A tragédia grega em toda a sua riqueza de mitos e
valores, a vida contada em conquistas operadas por homens e destinos traçados
por deuses. A provocação humana às forças que a transcendem, caminho cego por
episódios de sinuosa escuridão. E a peripécia reveladora, o inevitável efeito.
A catástrofe. E, por meio dela, a consciência de si, a descoberta da virtude.
Terror e piedade. A catarse.
Desde sempre, o fascínio. E a interrogação, também.
A força avassaladora, a pura imortalidade deste modelo primordial do teatro
questionam todas as demais experiências históricas de dramaturgia onde, afinal,
ela permaneceu. Na estrutura, na forma ou no tema. Terror e piedade. A catarse.
Desde sempre, o fascínio. E a interrogação, também.
E o desafio, depois. A vontade de limpar a escrita teatral para chegar à
essência de onde ela nasceu: a vida contada em conquistas operadas por homens e
destinos traçados por deuses. Ainda que, no tema, a mitologia clássica, ventre
que gerou a cultura europeia que (ainda) falamos, possa dar lugar à teologia
judaico-cristã, tutora que a educou e que (ainda) a influencia. Terror e
piedade. A catarse?
Desde sempre, o fascínio. E a interrogação, também.
E o desafio, depois. E a tentativa, agora: O
Poder e o Desejo. Um exercício trágico. Terror e piedade.
E a catarse?...
sábado, 15 de novembro de 2014
Texto trigésimo segundo
Escrever.
Escrever como Penélope: urdir uma infindável teia
de sonhos, infindável porque de sonhos. Escrever ao contrário de Penélope:
tecer no escuro da noite, encher o balão na densidade dos silêncios, rezando
para que o espigão dos dias ruidosos retraia o seu furor e se compadeça da
película ténue que envolve a fragilidade gasosa (espiritual?...) da criação.
E escrever, escrever sempre. A propósito e sem ele,
nas horas disponíveis e nos intervalos do tempo que não há, nas intermitências
de tudo e nas permanências de nada, a caneta ou a lápis, nos suportes próprios
e impróprios, nos cadernos de qualquer outra coisa, nos versos dos talões do
multibanco e nas frentes também, quando a impressão está sumida, no bloco de
notas do computador portátil quase sem bateria e no rascunho de mensagens do
telemóvel. E na memória, cada vez mais débil, onde a frase pensada e armazenada
será mais tarde recuperada numa forma diferente.
Escrever como Penélope: entreter uma obra visível
imperfeita à espera de um rei invisível, perfeito na minha ideia dele, que
teima na demora de mostrar-se.
Escrever. Porque o ímpeto é irreprimível, porque a
vontade dói de uma maneira insuportável. Escrever sempre. Porque outra coisa é
impensável.
sábado, 8 de novembro de 2014
Acordai
Eram tempos em que crescíamos em estatura, inteligência e vontade. Eram tempos em que a coragem se armazenava dentro de nós como um perfume de essência poderosa. Eram tempos em que transportávamos todos os sonhos do mundo num relicário que nos cabia no peito. Não sabíamos o que viríamos a ser, mas acreditávamos que poderíamos ser tudo o que quiséssemos.
Depois, veio o conformismo, a sedução do conforto, um certo pragmatismo resignado que se estendeu como uma manta de realismo falso sobre a indómita ousadia de outrora.
Esta canção verdadeiramente heróica era cantada por nós nesses tempos, no coro da Escola Secundária. Com ela, e com muitas outras, aprendi o poder da palavra, a força da música, a urgência da arte. E a necessidade absoluta de continuar.
Acordemos!
Depois, veio o conformismo, a sedução do conforto, um certo pragmatismo resignado que se estendeu como uma manta de realismo falso sobre a indómita ousadia de outrora.
Esta canção verdadeiramente heróica era cantada por nós nesses tempos, no coro da Escola Secundária. Com ela, e com muitas outras, aprendi o poder da palavra, a força da música, a urgência da arte. E a necessidade absoluta de continuar.
Acordemos!
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