sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Texto trigésimo quinto

A vida no teatro.
Desejar. Ter medo. Avançar sem medo. Avançar contra o medo e apesar dele. Vencer o atrito do palco, suportar o flagelo das luzes, emergir da avalanche dos olhares. Enfrentar a própria pequenez, projetado numa grandeza maior. Transcendente.
A vida no teatro.
Estar preparado. Preparar-se. Treinar o desejo para mais desejar o transcendente. O bom ator não improvisa porque está preparado. E improvisa porque está preparado. Tudo é espontâneo, nada é casual. Os ensaios preparam para tudo, se soubermos preparar-nos para eles.
A vida no teatro: preparar-se para ensaiar, ensaiar para estar preparado. Desejar o transcendente e, por isso, transcender-se imparavelmente em desejo. O melhor ator não é o mais talentoso; é, antes, o mais bem preparado. E o mais insatisfeito.

Preparativos:


Aquecimento:




Ensaio:



(Fotografias de Jorge Figueiredo, no ensaio de O Poder e o Desejo)

sábado, 6 de dezembro de 2014

Texto trigésimo quarto

Teatro.
Escrever um texto dramático é buscar a Palavra, reduzi-la a palavras sepultadas no leito da escrita, esperar os corpos e as vozes que as ressuscitem. É um esforço lacunar, a noção humilde de ser o elo primário de uma cadeia transcendente, de cujo sortilégio poderá resultar a obra de arte. É forjar, com as ferramentas da escrita, uma matéria-prima, rude minério que valha a pena ofertar à alquimia do palco, onde, vertido em oiro, deixe de pertencer a quem o dá, sem que chegue a ser possuído por quem o recebe.
Teatro.
Representar uma peça de teatro é aceitar o sacerdócio de um rito onde se permanecerá sempre aprendiz. É irradiar uma força que se encontra no íntimo, oriunda de algo maior, distante para dentro, inacessível na sua plenitude. É expor-se, corpo presente aos olhares, espírito nos antípodas da exibição. É assumir-se na verdade possível, para assim poder exprimir, numa liturgia de vivificação, as palavras adormecidas que buscam dizer a Palavra.
Teatro.
Assistir a uma peça de teatro é comungar do processo criativo, receber o tesouro de mãos abertas, cerrar os punhos na dor do entendimento feliz que ele suscita, estender os braços na partilha urgente a que ele impele. Nenhuma outra arte espelha a vida tão cruelmente, nenhuma a transmite de modo tão inexorável. Porque ela própria é vida: gerada na ideia que lhe é alma, consubstanciada no texto que lhe é matéria, existente na duração do trabalho dos atores que lhe é história. E, findo o seu tempo, herdada na memória de cada espetador que lhe é sucessão.
Teatro. O Poder e o Desejo.
Em janeiro de 2015, a possibilidade de reunir autor, atores e espetadores. E fazer acontecer vida.
Vai valer a pena!



sábado, 29 de novembro de 2014

Texto trigésimo terceiro

Desde sempre, o fascínio. Terror e piedade.
A tragédia grega em toda a sua riqueza de mitos e valores, a vida contada em conquistas operadas por homens e destinos traçados por deuses. A provocação humana às forças que a transcendem, caminho cego por episódios de sinuosa escuridão. E a peripécia reveladora, o inevitável efeito. A catástrofe. E, por meio dela, a consciência de si, a descoberta da virtude. Terror e piedade. A catarse.
Desde sempre, o fascínio. E a interrogação, também. A força avassaladora, a pura imortalidade deste modelo primordial do teatro questionam todas as demais experiências históricas de dramaturgia onde, afinal, ela permaneceu. Na estrutura, na forma ou no tema. Terror e piedade. A catarse.
Desde sempre, o fascínio. E a interrogação, também. E o desafio, depois. A vontade de limpar a escrita teatral para chegar à essência de onde ela nasceu: a vida contada em conquistas operadas por homens e destinos traçados por deuses. Ainda que, no tema, a mitologia clássica, ventre que gerou a cultura europeia que (ainda) falamos, possa dar lugar à teologia judaico-cristã, tutora que a educou e que (ainda) a influencia. Terror e piedade. A catarse?
Desde sempre, o fascínio. E a interrogação, também. E o desafio, depois. E a tentativa, agora: O Poder e o Desejo. Um exercício trágico. Terror e piedade.
E a catarse?...

sábado, 15 de novembro de 2014

Texto trigésimo segundo

Escrever.
Escrever como Penélope: urdir uma infindável teia de sonhos, infindável porque de sonhos. Escrever ao contrário de Penélope: tecer no escuro da noite, encher o balão na densidade dos silêncios, rezando para que o espigão dos dias ruidosos retraia o seu furor e se compadeça da película ténue que envolve a fragilidade gasosa (espiritual?...) da criação.
E escrever, escrever sempre. A propósito e sem ele, nas horas disponíveis e nos intervalos do tempo que não há, nas intermitências de tudo e nas permanências de nada, a caneta ou a lápis, nos suportes próprios e impróprios, nos cadernos de qualquer outra coisa, nos versos dos talões do multibanco e nas frentes também, quando a impressão está sumida, no bloco de notas do computador portátil quase sem bateria e no rascunho de mensagens do telemóvel. E na memória, cada vez mais débil, onde a frase pensada e armazenada será mais tarde recuperada numa forma diferente.
Escrever como Penélope: entreter uma obra visível imperfeita à espera de um rei invisível, perfeito na minha ideia dele, que teima na demora de mostrar-se.
Escrever. Porque o ímpeto é irreprimível, porque a vontade dói de uma maneira insuportável. Escrever sempre. Porque outra coisa é impensável.

sábado, 8 de novembro de 2014

Acordai

Eram tempos em que crescíamos em estatura, inteligência e vontade. Eram tempos em que a coragem se armazenava dentro de nós como um perfume de essência poderosa. Eram tempos em que transportávamos todos os sonhos do mundo num relicário que nos cabia no peito. Não sabíamos o que viríamos a ser, mas acreditávamos que poderíamos ser tudo o que quiséssemos.

Depois, veio o conformismo, a sedução do conforto, um certo pragmatismo resignado que se estendeu como uma manta de realismo falso sobre a indómita ousadia de outrora.

Esta canção verdadeiramente heróica era cantada por nós nesses tempos, no coro da Escola Secundária. Com ela, e com muitas outras, aprendi o poder da palavra, a força da música, a urgência da arte. E a necessidade absoluta de continuar.

Acordemos!

domingo, 2 de novembro de 2014

Texto trigésimo primeiro

Morrer é partir um pouco.
Foste-te embora num adeus anunciado, demorado numa dor arrastada insuportável, numa súplica muda lancinante. Querias ficar, eu sei: na tua vida toda de queixumes havia um medo mascarado, uma angústia de perda no infinito rosário das tuas confissões magoadas, uma saudade antecipada nas tuas recorrentes invocações de fim. Uma nostalgia assustada na pressa. Um exorcismo.
Viveste sonhando que vivias, sonhaste que vivias sonhando. Entre a ocasião e a impossibilidade, foste um querer-ser. Exististe à espera de uma consumação da qual fugias.
E morreste. Partiste com tudo o que me fica de ti, permaneces em tudo o que levas de mim. Há uma aproximação irreprimível neste afastamento definitivo de ti que revoga a intransponível distância que sempre cavámos entre nós, um abraço de morte que tritura duas vidas de costas voltadas. Ou que as recompõe. Um exorcismo?...
Morrer é partir um pouco. E ficar muito mais. Porque só morrerás definitivamente neste mundo quando eu deixar de chamar por ti.
- Mãe!...

sábado, 25 de outubro de 2014

Texto trigésimo

Nos primeiros anos percorreu o caminho de ida e volta de casa para a escola pela mão da mãe, que ia ficando mais pequena à medida que a sua crescia, sem que isso diminuísse o vigor com que a mão maior segurava a mais frágil e sem que se alterasse a relação de forças com que a mãe o dominava. Foi talvez na quarta classe, ou perto do final da terceira, que ele foi autorizado a regressar sozinho a casa no final do dia. De manhã, o acompanhamento da mãe no percurso de ida era, mais do que uma certificação da pontualidade dele, uma tranquilidade para os nunca exteriorizados receios dela.
A mãe nunca deixou de sofrer por ele, de se sobressaltar na contínua imaginação, que ela tinha como premonição segura, de todas as possíveis fatalidades que nunca ocorreram. Sempre ocultou todos os sustos no ênfase de controlo de tudo que alardeava e, por isso, ele sempre descansou na descontração dela em que piamente acreditava. Nunca supôs que ela dissimulasse qualquer espécie de medo. Nunca duvidou de que a pressão que ela exercia sobre ele fosse outra coisa para além de uma desconfiança quanto ao seu cumprimento. E terá nascido nessa altura a ideia, que ele desenvolveu ao longo dos anos, de que ela lhe reconhecia uma fragilidade de caráter que fazia com que não gostasse dele.
— Quando acabar a escola, voltas imediatamente para casa – dizia ela, invariavelmente, no seu tom controlador, cujo asserto o manietava. – Ai de ti que te demores em algum lado!...
Assim, o caminho para casa era sempre apressado, o que lhe impedia a observação, a descoberta e o desvio que sempre moldam os anos de infância a caminho da adolescência. Ele nunca se desviou, porque sabia que a sua mãe não queria. E, para ele, nada era mais importante.
Saía da escola e atravessava a avenida, numa linha perpendicular à porta em arco que, a determinada altura, foi pintada de verde. Depois, sempre pelo passeio e com extremo cuidado, se era inverno, para se desviar das poças de água que poderiam encharcar-lhe as botas, único calçado de que dispunha para todo o ano letivo, descia até ao entroncamento da estrada. Aí havia uma papelaria, onde, anos mais tarde, passaria a vir quase diariamente. Contornava-a e continuava a seguir pelo passeio agora largo, cruzando-se com mulheres da idade da sua mãe que, domésticas como ela, percorriam aquela zona às compras ou passando o tempo. Também se cruzava com rapazes e raparigas mais velhos, que se moviam em grupos com uma descontração que o perturbava. Depois de passar a padaria, uma das lojas onde mais tarde seria conhecido pelo nome, avistava já as arcadas dos prédios onde morava. Depois do maior café do bairro, em cuja esplanada várias pessoas, homens e principalmente mulheres, ostentando uma condição social pretensamente superior que estavam convencidas de possuir, prolongavam a tarde ao sabor de chá e torradas, havia uma sapataria cujo dono era amigo de infância da sua mãe e tinha um nome bíblico que ele só quarenta anos mais tarde voltou a encontrar em alguém. A seguir, o supermercado a que a sua mãe amiúde recorria para solucionar qualquer súbita falha detetada na despensa, dizia-lhe que tinha chegado. O supermercado era a loja do prédio onde morava, no último andar que se abria em vista panorâmica sobre o bairro.
Quando tocava à campainha, respirava de alívio: não se tinha desviado nem atrasado, a sua mãe ficaria satisfeita.