Não há palavras bastantes para dizer o discurso inicial do contrabaixo, o veludo das frases que depois se transforma numa cadência de sobressaltos sensíveis, quase silábicos.
Não há sentimento bastante para vibrar com a reverência humilde do cantor que, em dois minutos de silêncio expectante, se prepara para construir um momento artístico sublime.
Não há virtude para admirar a coragem da voz que ousa lançar-se num diálogo sem rede com um instrumento que a expõe enquanto a acompanha, que a desnuda ao mesmo tempo que a envolve.
Uma canção belíssima, na letra e na música, aqui elevada mais acima numa interpretação transcendente. Um enorme contrabaixo! Uma voz maior!
sexta-feira, 18 de julho de 2014
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Texto vigésimo sétimo
Adolescência. As férias eram passadas na cidade. Na
solidão passeada nas ruas. No olhar desenrolado em volta, preso por dentro num
silêncio curioso e derramado sobre as monotonias de asfalto e calçada, o prumo
dos edifícios, a fluidez da gente. Ou nas quatro paredes do quarto, a meditação
claustrofóbica alternando com os gritos mudos desenhados, o mergulho a pique na
leitura intercalado com as braçadas vigorosas da escrita incipiente.
Adolescência. As férias eram isolamento, descoberta
de si, procura interrogada, esboços de resposta, reticências. O excesso de
solidão tornou-o incompreendido, ao mesmo tempo que gerou nele uma perceção
maior de tudo. A quietude debruçada divorciou-o de uma realidade de ocupação e
conquista, segregou-o para uma nuvem de afastamento e dádiva. O mundo dos
outros vibrava-lhe dentro numa espécie de infrassons de comoção e delírio.
Adolescência. Todos o julgavam insensível e vazio,
enquanto ele crescia para albergar em si toda a realidade que observava, para
inventar uma utopia que lhe superasse o desgosto do que via. Desconstruía na
mente e reconstruía no sonho.
Um dia parou de crescer. Maturidade. Teve de
enfrentar a vida fora de si. Revestiu-se de uma roupagem de relações, decidiu
tornar-se alegre e comunicativo. Todos, à sua volta, saudaram a sua
sensibilidade adquirida, a sua riqueza interior revelada. O companheiro que se
ganhara.
Só ele teve noção do que se perdera. Só ele soube.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Conversando... sobre Sophia
Um texto avassalador, alicerçado na lenda da promessa verbalizada pelo Duque de Gandia (Francisco de Borja, futuro jesuíta canonizado) ao contemplar o cadáver já decomposto da imperatriz de Espanha (Isabel, filha do rei de Portugal D. Manuel I), por quem se apaixonara.
Na lamentação do Duque feita poesia pelo génio de Sophia de Mello Breyner Andresen, é possível ler - e ouvir, nesta belíssima interpretação de Rita Loureiro - a amargura de um povo de esperanças decompostas, a desilusão coletiva desenhada na dicção perfeita das palavras duras, um véu de descrença lançado pelo olhar que traduz, na sua profunda inexpressividade, a crispação do poema.
Mas a ruína do que nos é querido pode provocar a sublimação da vontade de querer, a visão da decadência do corpo pode gerar a explosão de tudo o que é espírito (e de que o próprio corpo faz parte). Ressurreição para uma vida outra, necessariamente outra, não dominada por valores perecíveis que iludem e matam.
Liberdade.
Obrigado, Sophia!
Na lamentação do Duque feita poesia pelo génio de Sophia de Mello Breyner Andresen, é possível ler - e ouvir, nesta belíssima interpretação de Rita Loureiro - a amargura de um povo de esperanças decompostas, a desilusão coletiva desenhada na dicção perfeita das palavras duras, um véu de descrença lançado pelo olhar que traduz, na sua profunda inexpressividade, a crispação do poema.
Mas a ruína do que nos é querido pode provocar a sublimação da vontade de querer, a visão da decadência do corpo pode gerar a explosão de tudo o que é espírito (e de que o próprio corpo faz parte). Ressurreição para uma vida outra, necessariamente outra, não dominada por valores perecíveis que iludem e matam.
Liberdade.
Obrigado, Sophia!
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Dizer a Imagem 4: Tu
O
coração aberto em que te insinuas é o cadeado em que te fechas. Seduzes-me no
meneio ondulado das tuas curvas paradas, no requebro das pregas em que te
vendes. E repeles-me na frieza branca da tua dureza exposta, na ausência de cor
em que a tua imagem se esconde.
Atrais-me
no que me afasta de ti. És intocável na tua imensa possibilidade. Desenho-te um
rosto, sonho-te uma alma no corpo em que te mostras.
Quem
és tu?
(Fotografia de Jorge Figueiredo)
sábado, 21 de junho de 2014
Conversando sobre... música brasileira
Chico Buarque de Hollanda é um dos nomes maiores da Música Popular Brasileira e é, ao mesmo tempo, um poeta de elevadíssimo nível. Admiro-o como escritor, compositor e intérprete.
Na comemoração dos seus setenta anos de idade (o seu aniversário ocorre a 19 de Junho), partilho aqui uma das suas melhores canções. Considero-a genial sob todos os aspetos: a simplicidade da melodia, o brutal intervencionismo da letra, o forte impacto do arranjo orquestral. E, principalmente, a perenidade da sua mensagem.
Na comemoração dos seus setenta anos de idade (o seu aniversário ocorre a 19 de Junho), partilho aqui uma das suas melhores canções. Considero-a genial sob todos os aspetos: a simplicidade da melodia, o brutal intervencionismo da letra, o forte impacto do arranjo orquestral. E, principalmente, a perenidade da sua mensagem.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Conversando... sobre a Língua Portuguesa
Um Grande Senhor do teatro brasileiro dizendo um Grande Texto de um Grande Escritor da língua portuguesa.
O abraço de uma voz quente que diz a força da palavra escrita.
Para que precisamos de mais Acordos?...
O abraço de uma voz quente que diz a força da palavra escrita.
Para que precisamos de mais Acordos?...
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Texto vigésimo sexto
Quando eu morrer
Jovem na força da vida
ou velho a decair
Não quero que me chorem
e não corem
se tiverem vontade de rir
Não quero que ponham luto
ou espalhem cinza no coração
da canção
E lá, no alto do cerro,
não calem o puto
que gargalhar no enterro
do desterro.
Que eu quero ser enterrado
ao lado
dos altos montes que demandei
Para depois olhar de cima
a
cruz-razão da minha rima
do lugar que saberei.
Quando eu morrer
saibam que morri
e lembrem-se de mim.
E, enquanto eu viver,
Sorriam-me, odeiem-me
cuspam-me em cima
Elevem-me e apeiem-me
do pedestal da estima
Mas não me entreguem à noite
esquecida
não me abandonem à minha sorte
Que eu quero viver para além da
morte
Não quero morrer em vida.
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