sexta-feira, 27 de junho de 2014

Dizer a Imagem 4: Tu


O coração aberto em que te insinuas é o cadeado em que te fechas. Seduzes-me no meneio ondulado das tuas curvas paradas, no requebro das pregas em que te vendes. E repeles-me na frieza branca da tua dureza exposta, na ausência de cor em que a tua imagem se esconde.
Atrais-me no que me afasta de ti. És intocável na tua imensa possibilidade. Desenho-te um rosto, sonho-te uma alma no corpo em que te mostras.
Quem és tu?

(Fotografia de Jorge Figueiredo)

sábado, 21 de junho de 2014

Conversando sobre... música brasileira

Chico Buarque de Hollanda é um dos nomes maiores da Música Popular Brasileira e é, ao mesmo tempo, um poeta de elevadíssimo nível. Admiro-o como escritor, compositor e intérprete.

Na comemoração dos seus setenta anos de idade (o seu aniversário ocorre a 19 de Junho), partilho aqui uma das suas melhores canções. Considero-a genial sob todos os aspetos: a simplicidade da melodia, o brutal intervencionismo da letra, o forte impacto do arranjo orquestral. E, principalmente, a perenidade da sua mensagem.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Conversando... sobre a Língua Portuguesa

Um Grande Senhor do teatro brasileiro dizendo um Grande Texto de um Grande Escritor da língua portuguesa.

O abraço de uma voz quente que diz a força da palavra escrita.

Para que precisamos de mais Acordos?...






sexta-feira, 30 de maio de 2014

Texto vigésimo sexto

Quando eu morrer
Jovem na força da vida
ou velho a decair
Não quero que me chorem
e não corem
se tiverem vontade de rir
Não quero que ponham luto
ou espalhem cinza no coração
da canção
E lá, no alto do cerro,
não calem o puto
que gargalhar no enterro
do desterro.

Que eu quero ser enterrado
ao lado
dos altos montes que demandei
Para depois olhar de cima
a  cruz-razão da minha rima
do lugar que saberei.

Quando eu morrer
saibam  que morri
e lembrem-se de mim.

E, enquanto eu viver,
Sorriam-me, odeiem-me
cuspam-me em cima
Elevem-me e apeiem-me
do pedestal da estima
Mas não me entreguem à noite esquecida
não me abandonem à minha sorte
Que eu quero viver para além da morte
Não quero morrer em vida.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Conversando... sobre uma estreia

Há textos assim: desvendam-se profundamente na clareza com que nos desvendam; dizem-nos brutalmente na nudez em que se dizem.
Há escritores assim: escondem-se na frágil gaiola dourada das palavras robustas que tecem; revelam-se nessa urdidura inocente e necessária. Inocente porque necessária. E expõem-nos, escancaram-nos impiedosamente naquilo que escondemos, no modo como o escondemos.
Cassiopeia, a nova peça escrita por Miguel Graça, a cuja estreia tive o privilégio de assistir, é assim. Mas é muito mais. É uma encenação de Pedro Caeiro suficientemente corajosa para servir o texto sem nunca ceder à tentação mesquinha de servir-se dele, num arrojo minimalista de que resulta uma plenitude esmagadora. É um trabalho dos atores (David Esteves, Joana Ribeiro Santos e Vítor Silva Costa) que se alimenta da escrita a que se entrega, numa generosidade sacrificial, num ritual de talento e suor.
O resultado de tudo isto é uma obra de arte de uma consistência dolorosa e libertadora. Pelo menos, foi assim que eu a vi.

A não perder. Só até domingo. No Teatro Taborda.


sábado, 3 de maio de 2014

Almada Negreiros

Recordo-me de ter lido pela primeira vez este texto no enunciado de um teste, quando era aluno do 8º ano. Sobre ele tive de responder a questões de interpretação e gramática. Já não me lembro quais eram, nem o que escrevi a propósito delas. Mas o texto permaneceu na minha memória, inapagável na sua profundidade e beleza.
É isto, a literatura!

MÃE
Poema de Almada Negreiros

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
  
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
  
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
  
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Dizer a Imagem 3: Ainda me lembro

Ainda me lembro do balanço acelerado, a vertigem de vermelho. Foram tempos de aventura sem planos, de abrir caminhos na aridez deserta, de arriscar o futuro no desdém das heranças, de reduzir a escombros para esculpir nas pedras. De geração no caos.
Ainda me lembro de ouvir dizer o medo da vertigem, de tropeçar no eco das profecias do fim da aventura. Que a bagagem das ideias seria largada como lastro incómodo à medida que escasseasse a energia combustível, num avanço cada vez mais lento face à inércia de tudo. Cedência gelatinosa à sedução dos interesses.
Ainda me lembro daquilo que já só resta lembrar. Neste vermelho desbotado, desacreditado, imobilizado na mata seca, degeneração de uma prosperidade efémera, as casas que se erguem mais à frente são muros que aprisionam, vigilantes na distância. Para que o bosque não possa estender-se em sinfonia frondosa, antes esbarre na falácia das árvores cuja sombra não chega para todos.
E, mais além, o céu azul. Inatingível.
Liberdade.
Ainda me lembro.

(Fotografia de Jorge Figueiredo)