Um Grande Senhor do teatro brasileiro dizendo um Grande Texto de um Grande Escritor da língua portuguesa.
O abraço de uma voz quente que diz a força da palavra escrita.
Para que precisamos de mais Acordos?...
quinta-feira, 12 de junho de 2014
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Texto vigésimo sexto
Quando eu morrer
Jovem na força da vida
ou velho a decair
Não quero que me chorem
e não corem
se tiverem vontade de rir
Não quero que ponham luto
ou espalhem cinza no coração
da canção
E lá, no alto do cerro,
não calem o puto
que gargalhar no enterro
do desterro.
Que eu quero ser enterrado
ao lado
dos altos montes que demandei
Para depois olhar de cima
a
cruz-razão da minha rima
do lugar que saberei.
Quando eu morrer
saibam que morri
e lembrem-se de mim.
E, enquanto eu viver,
Sorriam-me, odeiem-me
cuspam-me em cima
Elevem-me e apeiem-me
do pedestal da estima
Mas não me entreguem à noite
esquecida
não me abandonem à minha sorte
Que eu quero viver para além da
morte
Não quero morrer em vida.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Conversando... sobre uma estreia
Há textos assim: desvendam-se profundamente na clareza
com que nos desvendam; dizem-nos brutalmente na nudez em que se dizem.
Há escritores assim: escondem-se na frágil gaiola
dourada das palavras robustas que tecem; revelam-se nessa urdidura inocente e
necessária. Inocente porque necessária. E expõem-nos, escancaram-nos
impiedosamente naquilo que escondemos, no modo como o escondemos.
Cassiopeia,
a nova peça escrita por Miguel Graça, a cuja estreia tive o privilégio de
assistir, é assim. Mas é muito mais. É uma encenação de Pedro Caeiro
suficientemente corajosa para servir o texto sem nunca ceder à tentação
mesquinha de servir-se dele, num arrojo minimalista de que resulta uma
plenitude esmagadora. É um trabalho dos atores (David Esteves, Joana Ribeiro
Santos e Vítor Silva Costa) que se alimenta da escrita a que se entrega, numa
generosidade sacrificial, num ritual de talento e suor.
O resultado de tudo isto é uma obra de arte de uma
consistência dolorosa e libertadora. Pelo menos, foi assim que eu a vi.
A não perder. Só até domingo. No Teatro Taborda.
sábado, 3 de maio de 2014
Almada Negreiros
Recordo-me de ter lido pela primeira vez este texto no enunciado de um teste, quando era aluno do 8º ano. Sobre ele tive de responder a questões de interpretação e gramática. Já não me lembro quais eram, nem o que escrevi a propósito delas. Mas o texto permaneceu na minha memória, inapagável na sua profundidade e beleza.
É isto, a literatura!
É isto, a literatura!
MÃE
Poema de Almada Negreiros
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue,
sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de
viagens!
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou
aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu
a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão
parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero
ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um
feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Dizer a Imagem 3: Ainda me lembro
Ainda
me lembro do balanço acelerado, a vertigem de vermelho. Foram tempos de aventura
sem planos, de abrir caminhos na aridez deserta, de arriscar o futuro no desdém
das heranças, de reduzir a escombros para esculpir nas pedras. De geração no
caos.
Ainda
me lembro de ouvir dizer o medo da vertigem, de tropeçar no eco das profecias do
fim da aventura. Que a bagagem das ideias seria largada como lastro incómodo à
medida que escasseasse a energia combustível, num avanço cada vez mais lento
face à inércia de tudo. Cedência gelatinosa à sedução dos interesses.
Ainda
me lembro daquilo que já só resta lembrar. Neste vermelho desbotado,
desacreditado, imobilizado na mata seca, degeneração de uma prosperidade
efémera, as casas que se erguem mais à frente são muros que aprisionam,
vigilantes na distância. Para que o bosque não possa estender-se em sinfonia
frondosa, antes esbarre na falácia das árvores cuja sombra não chega para
todos.
E,
mais além, o céu azul. Inatingível.
Liberdade.
Ainda
me lembro.
(Fotografia de Jorge Figueiredo)
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Sobre William Shakespeare
Ainda a propósito do
450º aniversário do nascimento do grande escritor e homem de teatro, não posso
deixar de prestar-lhe a minha homenagem e exprimir a minha admiração pela
magnífica obra que ele nos legou. O modo como soube aproveitar os recursos da
sua língua – e a capacidade de reinventá-la – para expressar tudo o que há de
mais profundo e intemporal no ser humano; o modo como se inspirou em tradições
e lendas conhecidas para nos transmitir a essência oculta da humanidade – do
sublime ao mais negro; o modo como, enfim, plasmou tudo o que nos quis dizer
numa escrita simultaneamente densa e aberta, suscetível de todo o tipo de
apropriações, traduções, versões e interpretações, sem nunca perder a sua
verdade essencial: tudo isso supera absolutamente o que estas minhas impotentes
palavras tentam dizer.
A literatura, a
escrita teatral, o próprio teatro não seriam decerto o que hoje são sem o
contributo esmagador de William Shakespeare. A ilustrá-lo, partilho aqui um
excerto de Hamlet (Ato IV, Cena 4)
que aprecio particularmente. Para saborear na
versão original.
«HAMLET
[…] What is a
man,
If his chief good
and market of his time
Be but to sleep
and feed? a beast, no more:
Sure he that made
us with such large discourse,
Looking before
and after, gave us not
That capability
and god-like reason
To fust in us
unused. Now, whether it be
Bestial oblivion,
or some craven scruple
Of thinking too
precisely on th’event –
A thought which
quartered hath but one part wisdom,
And ever three
parts coward – I do not know
Why yet I live to
say “This thing’s to do,”
Sith I have
cause, and will, and strength, and means,
To do’t… Examples
gross as earth exhort me.
Witness this army
of such mass and charge,
Led by a delicate
and tender prince,
Whose spirit with
divine ambition puffed
Makes mouths at
the invisible event,
Exposing what is
mortal and unsure
To all that
fortune, death and danger dare,
Even for an
egg-shell… Rightly to be great
Is not to stir
without great argument,
But greatly to
find quarrel in a straw
When honour’s at
the stake. […]»
William Shakespeare, Hamlet, Act IV, 4.
domingo, 20 de abril de 2014
Hallelujah!
A morte não destrói as vidas que se entregam por aquilo que as supera. A existência, que é constrangida no tempo, termina. Mas a vida oferecida, que se liberta na eternidade, permanece.
É isto a Páscoa: vitória da energia sobre a inércia, da continuidade sobre a interrupção, da plenitude sobre o vácuo, da perenidade sobre o efémero.
O excerto musical que hoje partilho canta esta vitória de forma magnífica. Transcendente. Eterna.
Feliz Páscoa!
É isto a Páscoa: vitória da energia sobre a inércia, da continuidade sobre a interrupção, da plenitude sobre o vácuo, da perenidade sobre o efémero.
O excerto musical que hoje partilho canta esta vitória de forma magnífica. Transcendente. Eterna.
Feliz Páscoa!
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