sexta-feira, 25 de abril de 2014

Dizer a Imagem 3: Ainda me lembro

Ainda me lembro do balanço acelerado, a vertigem de vermelho. Foram tempos de aventura sem planos, de abrir caminhos na aridez deserta, de arriscar o futuro no desdém das heranças, de reduzir a escombros para esculpir nas pedras. De geração no caos.
Ainda me lembro de ouvir dizer o medo da vertigem, de tropeçar no eco das profecias do fim da aventura. Que a bagagem das ideias seria largada como lastro incómodo à medida que escasseasse a energia combustível, num avanço cada vez mais lento face à inércia de tudo. Cedência gelatinosa à sedução dos interesses.
Ainda me lembro daquilo que já só resta lembrar. Neste vermelho desbotado, desacreditado, imobilizado na mata seca, degeneração de uma prosperidade efémera, as casas que se erguem mais à frente são muros que aprisionam, vigilantes na distância. Para que o bosque não possa estender-se em sinfonia frondosa, antes esbarre na falácia das árvores cuja sombra não chega para todos.
E, mais além, o céu azul. Inatingível.
Liberdade.
Ainda me lembro.

(Fotografia de Jorge Figueiredo)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sobre William Shakespeare

Ainda a propósito do 450º aniversário do nascimento do grande escritor e homem de teatro, não posso deixar de prestar-lhe a minha homenagem e exprimir a minha admiração pela magnífica obra que ele nos legou. O modo como soube aproveitar os recursos da sua língua – e a capacidade de reinventá-la – para expressar tudo o que há de mais profundo e intemporal no ser humano; o modo como se inspirou em tradições e lendas conhecidas para nos transmitir a essência oculta da humanidade – do sublime ao mais negro; o modo como, enfim, plasmou tudo o que nos quis dizer numa escrita simultaneamente densa e aberta, suscetível de todo o tipo de apropriações, traduções, versões e interpretações, sem nunca perder a sua verdade essencial: tudo isso supera absolutamente o que estas minhas impotentes palavras tentam dizer.
A literatura, a escrita teatral, o próprio teatro não seriam decerto o que hoje são sem o contributo esmagador de William Shakespeare. A ilustrá-lo, partilho aqui um excerto de Hamlet (Ato IV, Cena 4) que aprecio particularmente. Para saborear na versão original.

«HAMLET
[…] What is a man,
If his chief good and market of his time
Be but to sleep and feed? a beast, no more:
Sure he that made us with such large discourse,
Looking before and after, gave us not
That capability and god-like reason
To fust in us unused. Now, whether it be
Bestial oblivion, or some craven scruple
Of thinking too precisely on th’event –
A thought which quartered hath but one part wisdom,
And ever three parts coward – I do not know
Why yet I live to say “This thing’s to do,”
Sith I have cause, and will, and strength, and means,
To do’t… Examples gross as earth exhort me.
Witness this army of such mass and charge,
Led by a delicate and tender prince,
Whose spirit with divine ambition puffed
Makes mouths at the invisible event,
Exposing what is mortal and unsure
To all that fortune, death and danger dare,
Even for an egg-shell… Rightly to be great
Is not to stir without great argument,
But greatly to find quarrel in a straw
When honour’s at the stake. […]»

William Shakespeare, Hamlet, Act IV, 4.

domingo, 20 de abril de 2014

Hallelujah!

A morte não destrói as vidas que se entregam por aquilo que as supera. A existência, que é constrangida no tempo, termina. Mas a vida oferecida, que se liberta na eternidade, permanece.

É isto a Páscoa: vitória da energia sobre a inércia, da continuidade sobre a interrupção, da plenitude sobre o vácuo, da perenidade sobre o efémero.

O excerto musical que hoje partilho canta esta vitória de forma magnífica. Transcendente. Eterna.

Feliz Páscoa!

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A Paixão segundo S. Mateus

A Paixão segundo S. Mateus é uma obra musical elevadíssima. J. S. Bach, porventura o compositor que melhor sistematizou toda a gramática da música ocidental, consegue aqui (será que não o faz em toda a sua obra?...) o encontro perfeito entre arte e espiritualidade.

Nesta Sexta-Feira Santa, partilho aqui o excerto em que se narra a morte de Cristo. O recitativo de narração é envolvente, o coral de meditação após o momento da morte, de melodia bem conhecida, tem uma harmonização sublime.

Quer sejamos crentes ou não, acredito que, ao ouvir esta obra, há uma irreprimível mistura de interioridade e elevação que simultaneamente nos mergulha em nós mesmos e nos projeta no infinito. E nos faz rezar de alguma forma.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Ficção X - Mão estendida

Uma mão estendida. Nada mais.
Venho do punho cerrado e eis o que me tornei: uma mão estendida, palma aberta à esperança que me foge, dedos recurvados na súplica que deixo escapar. Uma mão estendida, largada das ideias que outrora a rechearam, acolhendo o vazio na ilusão do tilintar oco do valor de moedas cada vez mais sem valor. Moedas que mais não são que matéria episodicamente largada por outras mãos, fugidias de descompromisso. Mãos distantes como o voo alto dos pássaros, insensíveis como luvas de camurça. Mãos ciosas de uma riqueza defraudada, sacudidas na espreitadela de uma dádiva de que logo se recolhem, protegidas na sua plenitude enganada.
Uma mão estendida, nada mais.
Venho do punho erguido e a isto me reduzo agora: uma mão estendida, vencida pelos olhares de inveja e rancor que a derrubaram, exposta aos olhos daqueles que já não me olham, porque deixaram de ver pessoas. Dos pedestais de sucesso e bem estar em que se equilibram à passagem, sentenciam-me na lógica de conquista em que acreditam nas suas dúvidas, condenam-me à morte do esquecimento que apregoam na retórica das suas vidas de aparato.
Uma mão estendida. Implorante, mendicante, recetiva a tudo. Democrática. Vencida. A pobreza não seleciona, aceita. A míngua é mais pródiga no acolhimento do que a fartura é generosa na doação. E não é que a míngua precise mais de receber do que a fartura merece dar, mas tem disso mais consciência. Que é, de resto, o seu maior valor. E a sua tortura.
Uma mão estendida. Nada mais.
É a partir dela que me escrevo, agora. Sentindo o que sou. Sendo no que sinto.
Uma mão estendida. Quarenta anos depois.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Oitava alegoria

Aqui estamos nós, surgidos
das penumbras
da nossa solidão
Onde os braços já
não sabem abrir-se
num gesto irmão

Cerramos o olhar, pedindo
à dor que fere
o nosso coração desfeito
Que nos deixe
repousar em qualquer fresco
ameno leito

E olhamo-nos
frente a frente, sorrimos
como gente que acredita
na virtude
E ganhamos confiança, recobramos
a esperança
da eterna juventude

Porque a amizade
não é uma palavra, é uma ligação
inevitável
Como as ondas com a areia
Como o céu e a lua cheia
Como a árvore e a chuva incontrolável
Não são um só, mas precisam
de unir-se
Como num nó

quinta-feira, 27 de março de 2014

Dia Mundial do Teatro

Karl Valentin, de seu verdadeiro nome Valentin Ludwig Fey (1882-1948) foi um comediante, autor e produtor alemão. Pioneiro do Modernismo no teatro, a sua obra, marcada pelo Dadaísmo e pelo Expressionismo de cariz social, proliferou na Alemanha, no contexto de crise do período entre guerras. Atuando essencialmente em cabarés e cervejarias, contribuiu para levar o teatro às camadas populares, num tom provocatório e inovador, desmontando a noção elitista do teatro burguês.
         Exerceu uma influência determinante na conceção do teatro épico de Bertolt Brecht, que com ele trabalhou.
            Neste seu texto (bem atual e, por isso, atualizado nos “valores cambiais”) fica bem patente o seu sentido coletivista da cultura e a sua atitude de desafio ao Estado.

O TEATRO OBRIGATÓRIO
por Karl Valentin

Por que é que os Teatros estão vazios? Pura e simplesmente porque o público não vai lá. De quem é a culpa? Unicamente do Estado. Se cada um de nós se visse obrigado a ir ao Teatro, as coisas mudavam completamente de figura. Por que não instituir o teatro obrigatório? Por que é que se instituiu a escola obrigatória? Porque nenhum aluno iria à escola se a tal não fosse obrigado. É verdade que era mais difícil instituir o teatro obrigatório, mas com boa vontade e sentido do dever, não é facto que tudo se consegue?
E além do mais, não será o teatro uma escola? Então…
O teatro obrigatório podia, ao nível das crianças, iniciar-se com um repertório que apenas incluísse contos como o “Pequeno Polegarzão” ou “O Lobo Mau e as Sete Brancas de Neve”…
Numa grande cidade pode haver – admitamos – cem escolas. Com mil crianças por escola todos os dias, teremos cem mil crianças. Estas cem mil crianças vão de manhã à escola e à tarde ao teatro obrigatório. Preço de entrada por pessoa-criança: cinquenta cêntimos – a expensas do Estado, é claro – dá, cem teatros cada um com mil lugares sentados: 500 euros por teatro, faz portanto 50.000 euros para cem teatros, por cidade.
Quantos actores não arranjavam trabalho! Instituindo, distrito a distrito, o teatro obrigatório, modificava-se por completo a vida económica. Porque não é bem a mesma coisa pensarmos: “Vou ou não vou hoje ao teatro?” ou pensarmos: “Tenho que ir ao teatro!”. O teatro obrigatório levava o cidadão em causa a renunciar voluntariamente a todas as outras estúpidas distracções, às cartas, às discussões políticas na taberna, aos encontros amorosos e a todos esses jogos de sociedade que nos tomam e devoram o tempo todo.
Sabendo que tem de ir ao teatro, o cidadão já não será forçado a optar por um espectáculo, nem a perguntar-se se irá ver o Fausto em vez de outra coisa qualquer – não, assim é obrigado a ir, cause-lhe o teatro horror ou não, trezentas e sessenta e cinco vezes por ano ao teatro. Ir à escola também causa horror ao menino da escola e no entanto ele lá vai porque a escola é obrigatória. Obrigatório! A imposição! Só pela imposição é que hoje se consegue obrigar o nosso público a vir ao teatro. Tentou-se, durante dezenas e dezenas de anos, convencê-lo com boas palavras e está-se a ver o resultado! Truques publicitários para atrair as massas, no género de “A sala está aquecida” ou “É permitido fumar no foyer durante o intervalo” ou ainda “Os estudantes e os militares, desde o general ao soldado raso, pagam meio bilhete”, todas estas astúcias não conseguiram encher os teatros, como estão a ver!
E tudo o que se gasta num teatro com publicidade passará a ser economizado a partir do momento em que o teatro se torne obrigatório. Será porventura necessário pagar publicidade para se mandar as crianças à escola obrigatória?
Como também deixará de haver problemas com o preço dos lugares. Já não dependerá da condição social, mas das fraquezas ou da invalidez dos espectadores.
Da primeira à quinta fila, ficarão os surdos e os míopes!
Da sexta à décima, os hipocondríacos e os neurasténicos!
Da décima à décima quinta, os doentes da pele e os doentes da alma.
E os camarotes, frisas e galerias serão reservados aos reumáticos e aos asmáticos.
Tomemos por exemplo uma cidade como Munique: descontando os recém-nascidos, das crianças com menos de oito anos, dos velhos e entrevados, podemos contar com cerca de dois milhões de pessoas submetidas ao teatro obrigatório, o que é um número bastante superior ao que o teatro facultativo nos oferece.
Ensinou-nos a experiência que não é aconselhável que os bombeiros sejam voluntários e por isso se constituiu um corpo de bombeiros. Por que razão o que se aplica aos bombeiros não se aplicará também ao teatro? Existe uma íntima relação entre os bombeiros e o teatro. Eu que ando pelos bastidores dos teatros há tantos anos, nunca montei nem vi uma só peça que não tivesse um bombeiro presente na sala.
O T.O.U., Teatro Obrigatório Universal, que propomos, chamará ao teatro numa cidade como Munique, cerca de dois milhões de espectadores. É pois necessário que, numa cidade como Munique, haja: ou vinte teatros de cem mil lugares, ou quarenta salas de cinquenta mil lugares, ou cento e sessenta salas de doze mil e quinhentos lugares, ou trezentas salas de seis mil duzentos e cinquenta lugares, ou seiscentas e quarenta salas de três mil cento e vinte cinco lugares ou dois milhões de teatros de um único lugar.
É preciso que cada um trabalhe no Teatro para se dar conta da força que daí nos pode advir, quando o ambiente de uma sala à cunha, com o público de – digamos – cinquenta mil pessoas nos arrebata!
Aqui tendes o verdadeiro meio de ajudar os teatros que estão pelas ruas da amargura. Não se trata de distribuir bilhetes à borla.
Não, há que impor o teatro obrigatório! Ora quem poderá impor senão… o ESTADO.