A Paixão segundo S. Mateus é uma obra musical elevadíssima. J. S. Bach, porventura o compositor que melhor sistematizou toda a gramática da música ocidental, consegue aqui (será que não o faz em toda a sua obra?...) o encontro perfeito entre arte e espiritualidade.
Nesta Sexta-Feira Santa, partilho aqui o excerto em que se narra a morte de Cristo. O recitativo de narração é envolvente, o coral de meditação após o momento da morte, de melodia bem conhecida, tem uma harmonização sublime.
Quer sejamos crentes ou não, acredito que, ao ouvir esta obra, há uma irreprimível mistura de interioridade e elevação que simultaneamente nos mergulha em nós mesmos e nos projeta no infinito. E nos faz rezar de alguma forma.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Ficção X - Mão estendida
Uma
mão estendida. Nada mais.
Venho
do punho cerrado e eis o que me tornei: uma mão estendida, palma aberta à
esperança que me foge, dedos recurvados na súplica que deixo escapar. Uma mão
estendida, largada das ideias que outrora a rechearam, acolhendo o vazio na
ilusão do tilintar oco do valor de moedas cada vez mais sem valor. Moedas que
mais não são que matéria episodicamente largada por outras mãos, fugidias de
descompromisso. Mãos distantes como o voo alto dos pássaros, insensíveis como
luvas de camurça. Mãos ciosas de uma riqueza defraudada, sacudidas na
espreitadela de uma dádiva de que logo se recolhem, protegidas na sua plenitude
enganada.
Uma
mão estendida, nada mais.
Venho
do punho erguido e a isto me reduzo agora: uma mão estendida, vencida pelos
olhares de inveja e rancor que a derrubaram, exposta aos olhos daqueles que já não
me olham, porque deixaram de ver pessoas. Dos pedestais de sucesso e bem estar
em que se equilibram à passagem, sentenciam-me na lógica de conquista em que
acreditam nas suas dúvidas, condenam-me à morte do esquecimento que apregoam na
retórica das suas vidas de aparato.
Uma
mão estendida. Implorante, mendicante, recetiva a tudo. Democrática. Vencida. A
pobreza não seleciona, aceita. A míngua é mais pródiga no acolhimento do que a
fartura é generosa na doação. E não é que a míngua precise mais de receber do
que a fartura merece dar, mas tem disso mais consciência. Que é, de resto, o
seu maior valor. E a sua tortura.
Uma
mão estendida. Nada mais.
É
a partir dela que me escrevo, agora. Sentindo o que sou. Sendo no que sinto.
Uma
mão estendida. Quarenta anos depois.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Oitava alegoria
Aqui estamos nós, surgidos
das penumbras
da nossa solidão
Onde os braços já
não sabem abrir-se
num gesto irmão
Cerramos o olhar, pedindo
à dor que fere
o nosso coração desfeito
Que nos deixe
repousar em qualquer fresco
ameno leito
E olhamo-nos
frente a frente, sorrimos
como gente que acredita
na virtude
E ganhamos confiança, recobramos
a esperança
da eterna juventude
Porque a amizade
não é uma palavra, é uma ligação
inevitável
Como as ondas com a areia
Como o céu e a lua cheia
Como a árvore e a chuva incontrolável
Não são um só, mas precisam
de unir-se
Como num nó
quinta-feira, 27 de março de 2014
Dia Mundial do Teatro
Karl Valentin, de seu
verdadeiro nome Valentin Ludwig Fey (1882-1948) foi um comediante, autor e
produtor alemão. Pioneiro do Modernismo no teatro, a sua obra, marcada pelo
Dadaísmo e pelo Expressionismo de cariz social, proliferou na Alemanha, no
contexto de crise do período entre guerras. Atuando essencialmente em cabarés e
cervejarias, contribuiu para levar o teatro às camadas populares, num tom
provocatório e inovador, desmontando a noção elitista do teatro burguês.
Exerceu uma influência determinante
na conceção do teatro épico de Bertolt Brecht, que com ele trabalhou.
Neste seu texto (bem atual e, por isso, atualizado nos
“valores cambiais”) fica bem patente o seu sentido coletivista da cultura e a
sua atitude de desafio ao Estado.
O TEATRO OBRIGATÓRIO
por Karl Valentin
Por que é que os Teatros estão vazios? Pura e
simplesmente porque o público não vai lá. De quem é a culpa? Unicamente do
Estado. Se cada um de nós se visse obrigado a ir ao Teatro, as coisas mudavam
completamente de figura. Por que não instituir o teatro obrigatório? Por que é
que se instituiu a escola obrigatória? Porque nenhum aluno iria à escola se a
tal não fosse obrigado. É verdade que era mais difícil instituir o teatro
obrigatório, mas com boa vontade e sentido do dever, não é facto que tudo se
consegue?
E além do mais, não será o teatro uma escola?
Então…
O teatro obrigatório podia, ao nível das crianças,
iniciar-se com um repertório que apenas incluísse contos como o “Pequeno
Polegarzão” ou “O Lobo Mau e as Sete Brancas de Neve”…
Numa grande cidade pode haver – admitamos – cem escolas. Com mil
crianças por escola todos os dias, teremos cem mil crianças. Estas cem mil
crianças vão de manhã à escola e à tarde ao teatro obrigatório. Preço de
entrada por pessoa-criança: cinquenta cêntimos – a expensas do Estado, é claro
– dá, cem teatros cada um com mil lugares sentados: 500 euros por teatro, faz
portanto 50.000 euros para cem teatros, por cidade.
Quantos actores não arranjavam trabalho! Instituindo, distrito a
distrito, o teatro obrigatório, modificava-se por completo a vida económica.
Porque não é bem a mesma coisa pensarmos: “Vou ou não vou hoje ao teatro?” ou
pensarmos: “Tenho que ir ao teatro!”. O teatro obrigatório levava o cidadão em
causa a renunciar voluntariamente a todas as outras estúpidas distracções, às
cartas, às discussões políticas na taberna, aos encontros amorosos e a todos esses
jogos de sociedade que nos tomam e devoram o tempo todo.
Sabendo que tem de ir ao teatro, o cidadão já não será forçado a optar
por um espectáculo, nem a perguntar-se se irá ver o Fausto em vez de outra
coisa qualquer – não, assim é obrigado a ir, cause-lhe o teatro horror ou não,
trezentas e sessenta e cinco vezes por ano ao teatro. Ir à escola também causa
horror ao menino da escola e no entanto ele lá vai porque a escola é
obrigatória. Obrigatório! A imposição! Só pela imposição é que hoje se consegue
obrigar o nosso público a vir ao teatro. Tentou-se, durante dezenas e dezenas
de anos, convencê-lo com boas palavras e está-se a ver o resultado! Truques
publicitários para atrair as massas, no género de “A sala está aquecida” ou “É
permitido fumar no foyer durante o intervalo” ou ainda “Os estudantes e os
militares, desde o general ao soldado raso, pagam meio bilhete”, todas estas
astúcias não conseguiram encher os teatros, como estão a ver!
E tudo o que se gasta num teatro com publicidade passará a ser economizado
a partir do momento em que o teatro se torne obrigatório. Será porventura
necessário pagar publicidade para se mandar as crianças à escola obrigatória?
Como também deixará de haver problemas com o preço dos lugares. Já não
dependerá da condição social, mas das fraquezas ou da invalidez dos
espectadores.
Da primeira à quinta fila, ficarão os surdos e os míopes!
Da sexta à décima, os hipocondríacos e os neurasténicos!
Da décima à décima quinta, os doentes da pele e os doentes da alma.
E os camarotes, frisas e galerias serão reservados aos reumáticos e aos
asmáticos.
Tomemos por exemplo uma cidade como Munique: descontando os
recém-nascidos, das crianças com menos de oito anos, dos velhos e entrevados,
podemos contar com cerca de dois milhões de pessoas submetidas ao teatro
obrigatório, o que é um número bastante superior ao que o teatro facultativo
nos oferece.
Ensinou-nos a experiência que não é aconselhável que os bombeiros sejam
voluntários e por isso se constituiu um corpo de bombeiros. Por que razão o que
se aplica aos bombeiros não se aplicará também ao teatro? Existe uma íntima
relação entre os bombeiros e o teatro. Eu que ando pelos bastidores dos teatros
há tantos anos, nunca montei nem vi uma só peça que não tivesse um bombeiro
presente na sala.
O T.O.U., Teatro Obrigatório Universal, que propomos, chamará ao teatro
numa cidade como Munique, cerca de dois milhões de espectadores. É pois
necessário que, numa cidade como Munique, haja: ou vinte teatros de cem mil
lugares, ou quarenta salas de cinquenta mil lugares, ou cento e sessenta salas
de doze mil e quinhentos lugares, ou trezentas salas de seis mil duzentos e
cinquenta lugares, ou seiscentas e quarenta salas de três mil cento e vinte
cinco lugares ou dois milhões de teatros de um único lugar.
É preciso que cada um trabalhe no Teatro para se dar conta da força que
daí nos pode advir, quando o ambiente de uma sala à cunha, com o público de –
digamos – cinquenta mil pessoas nos arrebata!
Aqui tendes o verdadeiro meio de ajudar os teatros que estão pelas ruas
da amargura. Não se trata de distribuir bilhetes à borla.
Não, há que impor o teatro obrigatório! Ora quem poderá impor senão… o
ESTADO.
sábado, 22 de março de 2014
Texto vigésimo quinto
Sou um escritor de silêncios.
Observo a realidade, absorvo o mundo no olhar. Abro
os braços numa pergunta sem filtro, acolho todas as cores das reticências que
percebo. Delicio-me e enojo-me, deixo-me preencher de êxtase e de náusea.
Sempre calado, porque não me chega voz em que possa existir fora deste fundo
poço de interrogação quieta.
E algo por dentro cresce, é uma quietude feroz que
se apodera. Até que há dias em que o silêncio grita mais alto. Extravaso então
as ressonâncias de tudo, verto no papel inocente as alegrias e as raivas, as
mágoas e as serenidades, as provocações e as angústias. E permaneço calado,
alimento a interrogação ao esvaziá-la no derrame das palavras escritas, dou-a a
saborear ao papel inocente, por mim tornado cúmplice do meu silêncio. Dou-a a
saborear a mim próprio e – se alguns houver – a quantos quiserem lê-la. Em
silêncio.
Uma escrita calada, eis a minha voz. Mais que um
grito de militância, um apelo à troca. Mais que um desafio à reflexão, um
convite à cumplicidade. À degustação do olhar, de onde tudo parte. Ao mergulho
na interrogação, onde tudo se adensa. À procura. Sem portões gradeados de
receios, fechaduras de certezas ou ferrolhos de sentenças. Ao encontro. No silêncio.
Sou um escritor de silêncios.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Conversando... sobre os Festivais (3)
Em 1980, o Quarteto Música em Si assumia a sua participação no Festival RTP da Canção como uma possibilidade de experimentação, a proposta de uma canção diferente. De certo modo, ao tempo, uma inovação estética.
A canção "Esta Página em Branco" obteve o 6º lugar (a vitória coube a José Cid, com "Um Grande, Grande Amor") mas, quanto a mim, ocupa um posto de destaque na história dos Festivais. Há uma conjugação arrepiante entre a crueza da letra de Gustavo Sequeira e a música direta, quase áspera de António Branco. A orquestração soberba de José Mário Branco, com tudo no sítio certo, é a chave da consistência desta obra.
A canção "Esta Página em Branco" obteve o 6º lugar (a vitória coube a José Cid, com "Um Grande, Grande Amor") mas, quanto a mim, ocupa um posto de destaque na história dos Festivais. Há uma conjugação arrepiante entre a crueza da letra de Gustavo Sequeira e a música direta, quase áspera de António Branco. A orquestração soberba de José Mário Branco, com tudo no sítio certo, é a chave da consistência desta obra.
segunda-feira, 17 de março de 2014
Conversando... sobre os Festivais (2)
Recordo aqui um tempo em que concorrer ao Festival RTP da Canção não era uma tentativa de fabricar uma suposta canção de sucesso, na expectativa (inútil miragem!...) de vencer ou obter uma boa classificação no Eurofestival.
Nesses anos, concorrer ao Festival RTP da Canção era uma oportunidade de enriquecer o património musical português com criações inspiradas e laboriosas. Pegando na História que nos dizia. Em busca de uma originalidade que nos refizesse.
"Os Lobos e Ninguém" ficou em 5º lugar no Festival RTP de 1976. Num ano em que todas as canções finalistas eram excelentes, esta, composta e escrita por José Luís Tinoco, é um objeto artístico sublime: a força e coragem da música, sem medo de não ser "festivaleira" (o que é isso, afinal?...); a elaboração e profundidade da letra, exorcizando o nosso passado recente com uma raiva libertadora.
E a interpretação de Carlos do Carmo, meu Deus! Quando voltaremos a ter um Festival a este nível?...
Nesses anos, concorrer ao Festival RTP da Canção era uma oportunidade de enriquecer o património musical português com criações inspiradas e laboriosas. Pegando na História que nos dizia. Em busca de uma originalidade que nos refizesse.
"Os Lobos e Ninguém" ficou em 5º lugar no Festival RTP de 1976. Num ano em que todas as canções finalistas eram excelentes, esta, composta e escrita por José Luís Tinoco, é um objeto artístico sublime: a força e coragem da música, sem medo de não ser "festivaleira" (o que é isso, afinal?...); a elaboração e profundidade da letra, exorcizando o nosso passado recente com uma raiva libertadora.
E a interpretação de Carlos do Carmo, meu Deus! Quando voltaremos a ter um Festival a este nível?...
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