sábado, 22 de março de 2014

Texto vigésimo quinto

Sou um escritor de silêncios.
Observo a realidade, absorvo o mundo no olhar. Abro os braços numa pergunta sem filtro, acolho todas as cores das reticências que percebo. Delicio-me e enojo-me, deixo-me preencher de êxtase e de náusea. Sempre calado, porque não me chega voz em que possa existir fora deste fundo poço de interrogação quieta.
E algo por dentro cresce, é uma quietude feroz que se apodera. Até que há dias em que o silêncio grita mais alto. Extravaso então as ressonâncias de tudo, verto no papel inocente as alegrias e as raivas, as mágoas e as serenidades, as provocações e as angústias. E permaneço calado, alimento a interrogação ao esvaziá-la no derrame das palavras escritas, dou-a a saborear ao papel inocente, por mim tornado cúmplice do meu silêncio. Dou-a a saborear a mim próprio e – se alguns houver – a quantos quiserem lê-la. Em silêncio.
Uma escrita calada, eis a minha voz. Mais que um grito de militância, um apelo à troca. Mais que um desafio à reflexão, um convite à cumplicidade. À degustação do olhar, de onde tudo parte. Ao mergulho na interrogação, onde tudo se adensa. À procura. Sem portões gradeados de receios, fechaduras de certezas ou ferrolhos de sentenças. Ao encontro. No silêncio.
Sou um escritor de silêncios.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Conversando... sobre os Festivais (3)

Em 1980, o Quarteto Música em Si assumia a sua participação no Festival RTP da Canção como uma possibilidade de experimentação, a proposta de uma canção diferente. De certo modo, ao tempo, uma inovação estética.

A canção "Esta Página em Branco" obteve o 6º lugar (a vitória coube a José Cid, com "Um Grande, Grande Amor") mas, quanto a mim, ocupa um posto de destaque na história dos Festivais. Há uma conjugação arrepiante entre a crueza da letra de Gustavo Sequeira e a música direta, quase áspera de António Branco. A orquestração soberba de José Mário Branco, com tudo no sítio certo, é a chave da consistência desta obra.



segunda-feira, 17 de março de 2014

Conversando... sobre os Festivais (2)

Recordo aqui um tempo em que concorrer ao Festival RTP da Canção não era uma tentativa de fabricar uma suposta canção de sucesso, na expectativa (inútil miragem!...) de vencer ou obter uma boa classificação no Eurofestival.

Nesses anos, concorrer ao Festival RTP da Canção era uma oportunidade de enriquecer o património musical português com criações inspiradas e laboriosas. Pegando na História que nos dizia. Em busca de uma originalidade que nos refizesse.

"Os Lobos e Ninguém" ficou em 5º lugar no Festival RTP de 1976. Num ano em que todas as canções finalistas eram excelentes, esta, composta e escrita por José Luís Tinoco, é um objeto artístico sublime: a força e coragem da música, sem medo de não ser "festivaleira" (o que é isso, afinal?...); a elaboração e profundidade da letra, exorcizando o nosso passado recente com uma raiva libertadora.

E a interpretação de Carlos do Carmo, meu Deus! Quando voltaremos a ter um Festival a este nível?...



domingo, 16 de março de 2014

Conversando... sobre os Festivais

É sobejamente conhecida.

Venceu o Festival da RTP em 1996 e obteve a melhor classificação de sempre para Portugal, na Eurovisão.

Mas vale a pena recordar esta magnífica canção, testemunha de uma elevação artística nestes tempos em que parecemos satisfazer-nos com a mediocridade.

Vale a pena apreciar o talento de composição de Pedro Osório, a inspiração da letra de José Fanha e o virtuosismo gracioso da interpretação de Lúcia Moniz. Porque só com investimento e qualidade nestas três dimensões é possível chegar a uma canção verdadeiramente digna.

Sem dúvida, "O Meu Coração Não Tem Cor" é uma referência dos Festivais de música portuguesa, precisamente porque faz referência ao festival que é a Música Portuguesa!



sexta-feira, 14 de março de 2014

Dizer a Imagem 2: Chumbo


Virá o dia em que serei capaz de erguer os olhos dos pés fincados no quadriculado dos dias mornos. Nesse dia, as pálpebras semicerradas ao vento frio e quente, hálito múltiplo dos sonhos de que sempre fugi, hão de deixar-me perceber as sandálias de Hermes que nunca ousei acreditar, porque o conformismo magnético das solas de chumbo sempre me atraiu o olhar para a terra firme da cobardia padronizada.
Virá o dia em que serei capaz de gritar a revolta do peão indignado com as regras do xadrez obsceno. Nesse dia farei tremer a terra com um simples passo, um avanço subversivamente oblíquo, captura en passant de todas as inércias que me querem parado.
Virá o dia em que acontecerá a libertação sonhada. Até lá, curvo o olhar para o chão quadriculado, desalinho os pés numa ilusão de avanço, arrasto o chumbo numa esperança de asas. Retenho em mim esta imagem de um sonho que faço existir em palavras.
E morro mais um dia.

(Fotografia de Jorge Figueiredo)

sábado, 8 de março de 2014

Ficção IX - Bebida de adultos

Estava sentada diante do tampo frio da mesa. Olhou a chávena de café imóvel, a teimosia de uma fumaça ténue tentando contradizer o ambiente gélido. Segurou-a com as duas mãos, abraçou-a com os dedos devorados pelo ardor das frieiras de um inverno impiedoso. O calor da chávena acentuou-lhe a sensação raspada e cortante na pele, aquele sofrimento que ela desejava, na ânsia de esquecer outro maior.
A solidão.
Poisou a chávena. Olhou o pacote de açúcar repousado no pires, sete gramas de doçura destinados a mitigar o amargo daquela bebida quente, estimulante, apaziguadora. De quantos sete gramas precisaria para suavizar a amargura do seu coração perdido, retraçado na separação bruta, estilhaçado no esgar de troça da inqualificável despedida?
“Vê se cresces!...”
Olhou em frente, para a cadeira vazia. Vazia do corpo que a seduzira, vazia do sorriso que a cativara, vazia da voz que a envolvera no embrulho do seu canto antes de lhe rasgar as ilusões com o gume do desprezível sarcasmo:
“Achavas que eu me ia agarrar a ti para toda a vida? Vê se cresces!...”
Olhou em frente, para o vazio da vida à sua frente, para o vazio de si própria. E deixou-se ficar, na espera de quem não espera por nada.
A solidão.
De novo pegou na chávena. Bebeu o café, já morno como uma lembrança vaga, como uma recordação diluída, não a dela. Bebeu-o amargo, rejeitou a hipocrisia de sete gramas de doçura, a miragem de que é possível condimentar a angústia a ponto de torná-la apetecível.
“Vê se cresces!...”
Engoliu o negrume da insuportável troça daquelas palavras roucas que não se descolavam da sua mente, do seu olhar vazio, da pele dos seus dedos chagados. Sentiu-se queimar por dentro pelo lume daquele vazio que lhe corria nas entranhas. Porque era verdade: simplicidade, confiança e entrega são infantilidades que não constam do manual de sobrevivência da cidade dos homens crescidos. Onde o amor é um bem que se consome e desgasta. Onde o ser amado é uma ferramenta utilitária e descartável.
“Vê se cresces!...”
A solidão.
Ergueu o olhar, levantou a mão, esticou o dedo devorado pelo ardor das frieiras de um inverno impiedoso. E pediu outro café, que é bebida de adultos. Com açúcar.

sábado, 1 de março de 2014

Conversando... após a Tertúlia


Agradeço à Editora Livros de Ontem e ao Café 100 Artes a excelente organização deste evento. E também a todos os que tiveram oportunidade de participar. A 2ª edição da Tertúlia Lisboa foi um momento de partilha muito enriquecedor para todos. 
Com efeito, quem escreve precisa de conhecer o modo ser e de sentir de quem o lê. Do mesmo modo, quem lê gosta de saber o que faz vibrar a pessoa que produz a escrita que é lida.
Nesta tertúlia todos revelamos um pouco de nós mesmos, a propósito dos "textos que nos fizeram". Penso que valeu muito a pena!
Partilho aqui o texto com o qual abri a conversa: um poema de Miguel Torga que recordo como um dos primeiros escritos que aprendi, li e decorei, no longínquo primeiro ano da então chamada instrução primária. Foi a partir de textos como este que, desde a infância, fui descobrindo o prazer da leitura, o Belo que na escrita se exprime e a transcendência que lhe é inerente.

BRINQUEDO

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.