sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Dizer a Imagem 1: Restos


Que farei do teu gosto deixado em restos nas travessas? Que farei da jarra vazia da tua beleza, da prisão das laranjas que me lembra o sumo matinal, a vitamina de acordar a teu lado?
Que farei da luz em que já não me entras casa adentro? Que farei do clarão que conservo refletido nas coisas, a devolução do olhar com que pinto a esperança de ti na paisagem que imagino para lá da porta fechada dos teus passos? Que farei deste retalho quadriculado, ânsia cada vez mais vã de que voltes um dia?
Que farei desta espera de copo vazio? Que farei deste definhamento enganado na boa forma da revista, destas paredes que escorrem o brilho branco da saudade de nos roçarmos nelas?
Que farei do abandono da chave do carro, renúncia de ir buscar-te por não saber aonde?
Que farei, enfim, desta imagem desgastada do meu cansaço de olhá-la, manchada da minha desistência de acreditar que um dia voltarás?
Que farei, quando nada resta? Que farei, quando tudo são restos?

(Fotografia de Jorge Figueiredo)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sétima alegoria

Somos pó nas mãos do vento
Somos nuvem ao luar
Existimos um momento
E depois fica o lamento
Dos caminhos por andar.

Mas não valem amarguras
Nem vontades de chorar
Porque as vidas, por mais duras,
Ganham força nas loucuras
Dos caminhos por andar.

Quem seríamos nós
Se chamássemos miragem
Às estrelas por contar?
Qual seria a nossa voz
Ao negarmos a viagem
Dos caminhos por andar?

E seguimos nesta estrada
Temerosa só de olhar
Que ninguém nos diga nada
Porque a vida é embalada
Nos caminhos por andar.

Que ninguém nos diga nada
Porque a vida é animada
Dos caminhos por andar!

sábado, 1 de fevereiro de 2014

sábado, 25 de janeiro de 2014

Texto vigésimo terceiro

Amo-te. Na pessoa que tu és. Na acutilância do olhar, na transparência do sorriso, na pontaria certeira das palavras que nunca deixas por dizer. Na paciência sincera, na caridade intrínseca, no equilíbrio entre firmeza e ternura que te faz implacável perante a injustiça e a miséria. Amo-te no estilo-chão dessa tua simplicidade genuína onde todos os dias revisito a essência de humanidade que busco em mim, porque já encontrei em ti.
Amo-te. Na pessoa em que me apareces. Na frescura amadurecida do teu corpo, esse mar aveludado, meu aconchego, em que a robustez é líquida fragilidade; esse bosque frondoso, meu retiro, onde a beleza selvagem esconde insondáveis mistérios. Amo-te no teu corpo, passageiro habitado por um espírito que ele materializa na proporção direta do ânimo que dele recebe.
Amo-te. Na pessoa em que te dás. Na diligência do teu dia a dia, no pragmatismo das tuas ações, no modo assertivo com que não hesitas. Amo-te nessa frontalidade com que assumes e confrontas, nessa opção fundamental pela verdade que é o teu modo de estar na vida.
Sou-te fiel. Sempre. Não por teimosia, muito menos porque sim. Nem sequer por escrúpulo diante das palavras sacramentais que um dia trocámos. Sou-te fiel porque a fidelidade é a garantia que tenho de poder amar-te sempre mais, mesmo quando menos, mesmo na aridez, no abalo ou no desgaste. Sou-te fiel na esperança de crescer neste amor que me dá sentido por sentir-te, em que me acredito por confiar em ti, em que me quero por querer-te.
Sou-te fiel. No amor e no desamor. Na vida. Todos os dias. E amo-te. Mesmo quando te amo menos por não conseguir amar-te mais. Sempre.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Conversando... sobre Teatro (4)

"O Homem da Flor na Boca": um percurso concluído.
A riqueza da leitura e pesquisa. O prazer escrupuloso do trabalho de dramaturgia. O caudal de inspiração do processo de ensaios, a construção das personagens, a criação artística no rigor técnico. A metamorfose da implantação no espaço cénico, o fascínio da encenação.
E, por fim, a urgente libertação na apresentação ao público. A plenitude e a partilha. As razões do Teatro. O sentido da Arte. O sabor da Vida.
Obrigado!



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Conversando... sobre Teatro (3)

Uma dor na penumbra.
Emoções contidas, amarrotadas no pregueado da roupa. Os braços pendidos em rendição muda, a vida suspensa dos ombros, precária. Lágrimas retidas na gruta dos olhos encovados, uma crispação suplicante no rosto, onde as rugas escrevem angústias caladas.
Tudo acontece por dentro para poder exprimir-se fora. Um sofrimento invocado nas entranhas, ritualizado nas carnes, sacrificado na máscara. A poderosa eloquência de um olhar quase invisível, feito do corpo todo, tingido do sangue que enverga, macerado num tenebrismo sinistro. A angústia concentrada.
O sentimento no Teatro.

(Fotografia de Jorge Figueiredo, no ensaio geral de O Homem da Flor na Boca, de Luigi Pirandello. Em cena na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, até 18 de janeiro)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Conversando... sobre Teatro (2)

O corpo, ferramenta de comunicação anterior à palavra. A fluidez biomecânica, o requebro escultórico. Técnica e arte.
Habitar o vazio, preencher a atmosfera. Captar irresistivelmente a atenção, dominar o espaço no movimento, prender o tempo no olhar. O máximo controlo no gesto mínimo, a amplitude da minúcia, a grandeza no pouco.
Desenrolar a ação, soltar a voz. Desaparecer na exposição, silenciar-se na palavra. Apagar-se para ser.
E, ao lado, o grito vermelho. Vida.
A energia do Teatro.

(Fotografia de Jorge Figueiredo, no ensaio geral de O Homem da Flor na Boca, de Luigi Pirandello. Em cena na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, até 18 de janeiro)