A figura recortada no fundo negro. A volumetria curvilínea a desenrolar-se no escuro, misto de estética e sedução. O perfil desenhado a luz, a eloquência barroca do chiaroscuro dizendo a perfeição das formas. A pose sobranceira frágil, o olhar dominador escorado na imprevisibilidade, uma altivez feita de medo. O brilho do rosto, a presença do corpo, a irradiação da pessoa, o perfume do ser. A delicadeza prateada do fio, a impercetível riqueza do pendente. O tesouro no pormenor. A eloquência icónica da imagem, a força do texto que é dito.
A beleza do Teatro.
(Fotografia de Jorge Figueiredo, no ensaio geral de O Homem da Flor na Boca, de Luigi Pirandello. Em cena na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, até 18 de janeiro)
domingo, 12 de janeiro de 2014
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Texto vigésimo segundo
De pé, virados para o fundo negro e de costas para
tudo, eles conseguiam ouvir o silêncio. Nas respirações cadenciadas, no
relaxamento dos corpos, no esvaziamento das mentes. Concentração. Atenção,
dentro deles, a tudo o que acontecia fora.
Uma porta abrindo-se, vozes entrando, o mundo
exterior derramando-se numa enxurrada de veludo para as cadeiras à espera. E,
depois das ondulações, novamente o silêncio, uma tranquilidade orquestrada.
E o tempo implodiu num escuro total. Breves
segundos em que eles viveram, cada um no seu íntimo, tudo o que iriam fazer nos
três quartos de hora seguintes. A extraordinária capacidade humana de
concentrar a duração, de eternizar o instante. De viver intensamente.
Logo a seguir, a luz. O foco, suspenso do teto como
uma lanterna mágica. O brilho derramado nas costas deles como um calor
aconchegante. E uma força indizível a apoderá-los, a torná-los maiores. Transcendência.
Viram-se uns aos outros sem se olharem. Lentamente,
deram meia volta, encararam a luz, enfrentaram a admiração do mundo com a
convicção dos frágeis, com a humildade dos vencedores.
Avançaram um passo, unidos numa única respiração. Ele
baixou-se, pegou na placa negra. Os outros esperaram.
A peça começou.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Texto vigésimo primeiro
A infância dele foi tingida de encarnado (porque
era um tempo em que não se podia dizer «vermelho»). Do amplo terraço do oitavo
andar onde morava podia ver-se, acima dos prédios e do gradeado das antenas de
televisão, o terceiro anel incompleto do estádio a que sempre ouvira chamar «a
catedral». Aos domingos à tarde, a Emissora Nacional ocupava a atmosfera da
casa com o relato do jogo do «Glorioso», que era seguido com a emoção de uma
causa maior do que a vida. E havia um nome pronunciado com solenidade heróica,
mesmo quando se tratava apenas de uma evocação.
A infância dele foi tingida de encarnado (porque
era um tempo em que não se podia dizer «vermelho»). O seu pai, com o honesto
rigor que o caracterizava, recordava-lhe a epopeia das duas taças europeias
conquistadas em anos sucessivos. E da terceira, perdida entre os ecos do hino
comemorativo que já se ensaiava. E recordava também a batalha de Inglaterra,
quatro anos depois, em que os portugueses, onde pontificavam vários homens do
clube encarnado, mais uma vez assumiram a sina histórica de serem vencidos de
cabeça erguida. E havia sempre um nome pronunciado com solenidade heróica.
A infância dele foi tingida de encarnado (porque
era um tempo em que não se podia dizer «vermelho»). A transmissão televisiva
era um acontecimento esporádico imperdível, uma exceção nos hábitos de
frugalidade mediática do país ensimesmado, um luxo reservado para a
intermitente ousadia europeia de uma meia final da Taça dos Campeões ou para a
propaganda anual do Jamor, em dia de final da Taça de Portugal. Ainda mais rara
foi a possibilidade de observar, no tímido preto e branco do cinescópio da Schaub-Lorenz, o homem a quem correspondia
o nome sempre pronunciado com solenidade heróica. A força e tenacidade, a
vontade inquebrantável, a eficiência demolidora. A simplicidade de modos, a
absoluta despretensão, a alegria verdadeiramente desportiva. O prazer de fazer
o que se gosta e o desejo indómito de continuar a fazê-lo.
A
infância dele foi tingida de encarnado (porque era um tempo em que não se podia
dizer «vermelho»). Encarnado: para ele, naquele tempo, era essa a cor do
Pantera Negra.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Conversando... sobre Luigi Pirandello
O Homem da Flor na Boca,
a mais famosa peça em um ato de Luigi Pirandello, é uma poderosa reflexão sobre
o ser humano.
Dois
homens encontram-se num café, pela noite dentro: um deles aguarda o primeiro
comboio da manhã seguinte, para regressar a casa; o outro, apenas espera. Do
diálogo entre ambos, primeiro casual, depois incomodativo e, por fim,
profundamente perturbador, nasce um retrato da condição humana, das suas
fragilidades, da sua (in)consciência. Das frivolidades que se valorizam, do
essencial que se ignora. Das preocupações desnecessárias e das ocupações
necessárias. Da angústia e do medo. Da morte. E da vida.
O
anonimato das personagens aproxima-as de nós de uma forma pouco
tranquilizadora. A força do texto provoca-nos inapelavelmente. Mas é preciso
deixarmo-nos confrontar, porque somos seres humanos e não devemos passar ao
lado da nossa condição.
O Homem da Flor na Boca
estará em cena na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, entre 9 e 18 de
janeiro, com dramaturgia minha e interpretação do grupo “Flor Na Boca –
Projetos”. A não perder!
Para
mais informações, aqui fica o link para o evento no Facebook:
E, para aguçar o apetite,
mostro algumas fotos de ensaio:
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Conversando... sobre o Belo
É porventura a mais bela composição instrumental de sempre.
Partilho-a com os meus votos de que, em 2014, a humanidade consiga, em todas as suas relações, atingir um semelhante grau de harmonia, conjugação e Belo.
Feliz Ano Novo!
Partilho-a com os meus votos de que, em 2014, a humanidade consiga, em todas as suas relações, atingir um semelhante grau de harmonia, conjugação e Belo.
Feliz Ano Novo!
domingo, 29 de dezembro de 2013
Texto vigésimo
Luigi Pirandello, ou o teatro em estado puro.
Pela depuração dos diálogos, em que a redução a um
minimalismo de efeitos reforça a complexidade de elaboração dos processos.
Pirandello ensina-nos que, em teatro, o mais importante está no que não é dito.
E isso é um desafio.
Pela desmontagem formal que nos faz assistir, mais
do que à ilusão erguida sobre o palco, ao mecanismo construtor dessa mesma
ilusão. Pirandello desvaloriza o mero deslumbramento perante a obra criada e
mostra-nos que, em teatro, o mais importante está na reflexão sobre a
capacidade humana de criá-la. E isso é uma paixão.
Mas, principalmente, pela profundidade de abordagem
da identidade humana, que nos remete, de cada vez, ao “odor da nossa própria
vida” do qual já não damos conta. Pirandello recorda-nos que, em teatro, o mais
importante é ferir de morte as personagens num delicado patíbulo de flagelação,
para que elas não morram em vida brutalmente imaculadas como figuras de cera. E
isso é uma purificação.
Vem isto a propósito da peça em um ato O Homem da Flor na Boca, que Luigi
Pirandello escreveu na década de vinte (estreou em 1923 e foi editada em 1926)
e da qual me atrevi a fazer a dramaturgia para uma versão que estará em cena
entre 9 e 18 de janeiro, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul. Trata-se
de um texto sublime, adaptado de um conto anterior (Caffé notturno, de 1918, posteriormente reeditado com o título La morte addosso), no qual dois homens
se confrontam um com o outro, cada um consigo próprio, ambos com a vida e a
morte.
Encontra-se aqui o melhor de Pirandello, o teatro
em estado puro. Nada mais importa do que o ser humano radiografado no texto;
nada mais importa do que as suas contradições, personificadas nas duas figuras
em cena; nada mais importa do que o sabor da vida e o pavor da morte, presentes
de forma simultaneamente ciente e incógnita, inquietante. A peça vale pelo que
acontece durante a representação, mas vale também (mais ainda?...) pelo que
fica depois na consciência de quem assiste. O bilhete pago não compra apenas um
espetáculo a que se vai assistir, mas adquire por junto uma angústia que se
leva para casa no fim. Não é isso a arte: um objeto criado por alguém que
(re)cria algo nos outros?...
Luigi Pirandello, ou o teatro em estado puro. O
melhor é ir ver.
Siga o evento no Facebook em:
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Texto décimo nono
Eis o meu Presépio: o linho da pureza íntima, a
serapilheira da precária condição humana, a palha do mundo transitório, onde
tudo vale quanto dura. Invisíveis, os arames das convicções e projetos erguem
as figuras da Sagrada Família, que a chama da inspiração divina ilumina e
aquece. A festa de fitas, bolas e luzes coloridas fica para trás, em segundo plano. E, nas figuras, os rostos que faltam são os nossos.
De que outras metáforas precisamos para celebrarmos a Vida? Para crermos em
nós próprios, para confiarmos uns nos outros?
Boas Festas!
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