Quero desejar a todos os amigos e leitores deste blogue um Feliz Natal. Não apenas um natal alegre de risadas aparentes, mas um Natal verdadeiramente Feliz de aconchegos interiores, de comoções essenciais. De calor e simplicidade. De contemplação e abertura.
Que este seja um tempo em que consigamos viver a grande metáfora que esta quadra nos ensina: a fragilidade íntima floresce na aspereza exterior, o conteúdo preenche a forma, a plenitude inunda o vazio. As vozes de mero ruído calam-se para escutar o silêncio eloquente, a mensagem sobrepõe-se ao discurso, a Palavra suplanta a verborreia. Deus habita no homem.
Então, o mundo transforma-se: a aspereza exterior suaviza-se na intimidade frágil, a forma embeleza-se pelo conteúdo, o vazio plenifica-se. A eloquência corporiza-se nas vozes, o discurso transmite a mensagem, a verborreia organiza-se em Palavra. O homem torna-se Deus.
E a criação faz sentido. E ninguém fica de fora, porque todos somos homens, porque todos somos Deus que se faz homem. Porque todos somos Criação.
Feliz Natal!
domingo, 22 de dezembro de 2013
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Ficção VIII - "Dê à chave!"
O
rapaz endireitou-se, afastou-se ligeiramente do motor sobre o qual se debruçava
e onde lia com a desenvoltura de um letrado nas entrelinhas dos compêndios.
Desviou-se um pouco para o lado do capot
levantado, para ver o pára-brisas atrás do qual o cliente, no banco do
condutor, se afundava numa ansiedade incontrolada, agarrado ao volante como um
náufrago a não importa o quê.
“Dê
à chave, faz favor”, disse o rapaz, enquanto esfregava as mãos sujas de óleo ao
desperdício mais sujo que as limpava.
O
cliente era um homem maduro, engravatado de funções elevadas num colarinho
engomado de graus académicos. Obedeceu, no gesto vagamente devoto de quem
confia num milagre que já não espera. Rodou a chave na ignição, o motor pareceu
estrebuchar, queixou-se num soluço de expetoração presa.
“Já
quis”, comentou o rapaz, “Insista, dê à chave”.
De
novo a chave rodou, sucessivamente como contas de um cordão de reza a passar
nos dedos. Até que um ruído mais profundo e consistente anunciou que o motor
entrara em funcionamento, evoluindo do ronco áspero inicial para um
estremecimento suave e regular.
O
cliente engravatado saiu do automóvel, tentando dissolver o nervosismo no modo
como levava a mão ao bolso interior do casaco, em gesto de sacar uma arma. Mas
mais atrapalhado.
“Muito
obrigado”, disse, a carteira já na mão para exprimir em notas bancárias a
gratidão que não sabia dizer, “Estou sem tempo, percebe? Tome para si e muito
obrigado. Logo havia de me acontecer uma avaria destas aqui nesta terra de
ninguém. E eu sem tempo, percebe? Muito obrigado”.
O
rapaz, tão insensível às notas que lhe vieram parar às mãos como ao discurso de
rabo na boca do cliente, quedou-se a olhá-lo. Viu-o entrar novamente no
automóvel, arrancar num frenesim de pressa e desaparecer da sua vista tão
definitivamente como se lhe esvaía do horizonte o curso de engenharia aeroespacial
com que inadvertidamente sonhara e do qual desaguava no anónimo desenrasque de
motores daquela oficina de província. E sorriu à lembrança do cliente
engravatado, sentindo-se maior do que ele numa superioridade que não era
orgulho, mas consciência da necessidade: mesmo um doutor engomado precisa de
alguém que, limpando as mãos ao desperdício mais sujo do que elas, o ajude a
dar à chave.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Sexta alegoria
A minha dor é tão grande
Tão grande de sofrer
Que por mil léguas que eu ande
Não fujo a este doer
A minha dor é tão dura
Tão dura de chorar
Que desço o rio à procura
De um mar onde a sossegar
A minha dor é tão triste
Tão triste de viver
Que tudo, tudo o que existe
Conspira-me até morrer
Porém
Se esta dor que me traz vivo
E cativo se apagasse
Porém
Se este grito que me arrasta
E me agasta se calasse
Que seria de mim?
Teria chegado o fim…
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Texto décimo oitavo
Noventa
e Três é tido como o último
romance de Victor Hugo. Publicado em 1874, é uma lição de escrita de um romance
histórico. O magistral retrato da França revolucionária não pode deixar de nos
envolver: o fervor republicano sobreposto ao ideal monárquico taciturno, o
Terror revolucionário, gerado nas entranhas do povo, de armas em riste contra a
resistência aristocrática orquestrada do exterior.
A revolta da Vendeia é o pano de fundo sobre o qual
Victor Hugo deixa correr a história do marquês de Lantenac, nobre condutor dos
camponeses dispostos a morrer por uma monarquia que os reduz à miséria, e do
seu sobrinho-neto Gauvain, o idealista revolucionário disposto a chacinar a
população em nome da liberdade que pretende oferecer-lhe. À volta da intriga,
tão intervenientes como espetadores, surgem as personagens históricas do
período da Convenção, das quais inevitavelmente se destacam Marat, Danton e
Robespierre, a páginas tantas protagonistas de um diálogo verdadeiramente
sublime.
Mas o melhor da obra está guardado para o fim: o
Livro Sexto e o Livro Sétimo da Terceira Parte constituem um hino à dignidade
humana de que ninguém menos que o maior vulto da literatura seria capaz. É
preciso ler aquelas páginas para (re)descobrir o valor intrínseco e profundo do
ser humano, para entender que as opções radicais da honra elevam o homem bem
acima das desprezíveis manobras de sobrevivência a todo o custo. É preciso
devorar aquela escrita e fechar enfim o livro para acender a cínica lanterna de
Diógenes e recomeçar, neste cinzento nevoeiro de relativismo moral dos nossos
tempos, a busca do Homem nos rostos dos pigmeus que até de si próprios se
escondem.
Noventa e Três
é tido como o último romance de Victor Hugo. Publicado em 1874, é uma lição de
escrita de um romance histórico. É uma lição de escrita de um romance. É uma
lição de escrita. É uma lição. É.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Conversando...
Aqui fica, a todos os amigos e seguidores deste blogue, o convite para estarem presentes no próximo sábado, às 19.15 horas, na Biblioteca Municipal Palácio Galveias, em Lisboa.
Para além de podermos conversar sobre o livro Nós, Vida, será uma oportunidade para um contacto pessoal que muito apreciarei.
Para além de podermos conversar sobre o livro Nós, Vida, será uma oportunidade para um contacto pessoal que muito apreciarei.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Quinta alegoria
Vocês não sabem a vida
Como eu já sonhei a morte
Nunca antes de a ver perdida
Senti a vida tão forte
Vivi silêncios de monge
Morei fundo no deserto
Mas tudo me era tão longe
Quanto eu julgava estar perto
Peregrinei monte e rio
Incensei longes anseios
Mas acabei no vazio
Dos gestos outrora cheios
E já chorando na estrada
Abraçado ao pranto mudo
Ergui os olhos do nada
E contemplei-te, meu tudo
Vocês não sabem a vida
Como eu já provei a morte
Mas foi por vê-la perdida
Que sinto a vida tão forte!
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Ficção VII - Começou a escrever
Estava só. Olhou em volta, ao redor das quatro
paredes, e sentiu o olhar doer-lhe como um choro na noite. Foi à janela,
derramou o olhar, quis ver mais longe, encontrar um pouco fora o que dentro lhe
sobrava. Mas foi em vão, porque percebeu que não podia pedir ao deserto que se
metamorfoseasse em bosque frondoso. Não porque o não fosse, mas apenas porque
ele não conseguia vê-lo.
Fechou os olhos, mas as
imagens dele próprio demais continuavam a bailar-lhe dentro como borboletas
sinistras. E pouco importava se lhe evocavam o mundo real cujas observações ele
colecionava, ou se eram mesmo o reflexo e o prolongamento desse mundo. A
verdade é que, dentro dele, existiam muito mais, com muito maior intensidade e
era aí que lhe doíam. E era assim que se tornavam uma verdade que não existia lá
fora.
Abriu de novo os olhos,
mas já não derramou o olhar. Correu as cortinas, virou as costas ao bosque
frondoso que não conseguia ver e recolheu-se, mergulhou no deserto de si
próprio em busca de um qualquer oásis de estar ali, que não conhecia. Deitou-se,
cerrou o olhar sem se dar conta de ter baixado as pálpebras. Quis dormir, mas o
pavor dos pesadelos de ontem retinha-o num lugar de vigília que o martirizava
de lembranças. Resignou-se a sonhar acordado, que era o seu irremediável
destino. Desejou ser simples, amaldiçoou a sua natural inata complexidade, ou a
consciência dela, que é a mesma coisa. Invejou os pobres de espírito, os
néscios e os ignorantes, que dormem tranquilos noite após noite, sem culpa
nenhuma. Detestou-se por se sentir condenado por todas as vicissitudes que o
atropelavam e de que só ele era culpado, porque as percebia.
Sentiu a luta dentro de si, envolveu-se nela um
pouco, mais uma vez. Por fim, respirou fundo… e desistiu. Viver é difícil
demais, quando se tem tanta vida dentro. Registou mentalmente aquele dia em que
abdicava de si próprio, em que renunciava ao seu deserto como se enfim
reconhecesse a impossibilidade do oásis, em que assumia viver apenas nos
outros. A data da sua morte.
E
começou a escrever.
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