Aqui fica, a todos os amigos e seguidores deste blogue, o convite para estarem presentes no próximo sábado, às 19.15 horas, na Biblioteca Municipal Palácio Galveias, em Lisboa.
Para além de podermos conversar sobre o livro Nós, Vida, será uma oportunidade para um contacto pessoal que muito apreciarei.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Quinta alegoria
Vocês não sabem a vida
Como eu já sonhei a morte
Nunca antes de a ver perdida
Senti a vida tão forte
Vivi silêncios de monge
Morei fundo no deserto
Mas tudo me era tão longe
Quanto eu julgava estar perto
Peregrinei monte e rio
Incensei longes anseios
Mas acabei no vazio
Dos gestos outrora cheios
E já chorando na estrada
Abraçado ao pranto mudo
Ergui os olhos do nada
E contemplei-te, meu tudo
Vocês não sabem a vida
Como eu já provei a morte
Mas foi por vê-la perdida
Que sinto a vida tão forte!
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Ficção VII - Começou a escrever
Estava só. Olhou em volta, ao redor das quatro
paredes, e sentiu o olhar doer-lhe como um choro na noite. Foi à janela,
derramou o olhar, quis ver mais longe, encontrar um pouco fora o que dentro lhe
sobrava. Mas foi em vão, porque percebeu que não podia pedir ao deserto que se
metamorfoseasse em bosque frondoso. Não porque o não fosse, mas apenas porque
ele não conseguia vê-lo.
Fechou os olhos, mas as
imagens dele próprio demais continuavam a bailar-lhe dentro como borboletas
sinistras. E pouco importava se lhe evocavam o mundo real cujas observações ele
colecionava, ou se eram mesmo o reflexo e o prolongamento desse mundo. A
verdade é que, dentro dele, existiam muito mais, com muito maior intensidade e
era aí que lhe doíam. E era assim que se tornavam uma verdade que não existia lá
fora.
Abriu de novo os olhos,
mas já não derramou o olhar. Correu as cortinas, virou as costas ao bosque
frondoso que não conseguia ver e recolheu-se, mergulhou no deserto de si
próprio em busca de um qualquer oásis de estar ali, que não conhecia. Deitou-se,
cerrou o olhar sem se dar conta de ter baixado as pálpebras. Quis dormir, mas o
pavor dos pesadelos de ontem retinha-o num lugar de vigília que o martirizava
de lembranças. Resignou-se a sonhar acordado, que era o seu irremediável
destino. Desejou ser simples, amaldiçoou a sua natural inata complexidade, ou a
consciência dela, que é a mesma coisa. Invejou os pobres de espírito, os
néscios e os ignorantes, que dormem tranquilos noite após noite, sem culpa
nenhuma. Detestou-se por se sentir condenado por todas as vicissitudes que o
atropelavam e de que só ele era culpado, porque as percebia.
Sentiu a luta dentro de si, envolveu-se nela um
pouco, mais uma vez. Por fim, respirou fundo… e desistiu. Viver é difícil
demais, quando se tem tanta vida dentro. Registou mentalmente aquele dia em que
abdicava de si próprio, em que renunciava ao seu deserto como se enfim
reconhecesse a impossibilidade do oásis, em que assumia viver apenas nos
outros. A data da sua morte.
E
começou a escrever.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Quarta alegoria
O abalo
O sufoco
O nó na garganta
O soco no estômago
A vertigem da largada
As amarras receosas
A onda que arrasta as teimosias de âncora
O antegozo da aventura
A saudade antecipada
O passo decisivo
O abraço da partida que não se desprende
Aperta-se mais nos olhares que se afastam
O choro do adeus alegre
Espumante derramado na sagração da viagem
E depois o silêncio
A alegria confusa na dor engolida em seco
O consolo da missão a cumprir-se
O medo da incontornável finitude
A angústia de ser humano.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Texto décimo sétimo
Era de manhã. Cedo, mas ele não sabia precisar a
hora certa. Ainda não usava relógio porque não havia para quê. A decifração do
código hermético do mostrador era, aos quatro anos, uma tarefa transcendente,
algures a meio caminho entre a contemplação e a pesquisa.
Chegou pela mão da mãe, porque esse era um tempo em
que ainda fazia sentido aquele aconchego de uma mão maior envolvendo a sua.
Havia uma porta em arco, solene e robusta, que talvez fosse castanha, mas que
ele apenas recorda na cor verde escura em que foi pintada de novo, anos mais
tarde. A porta estava aberta, porque havia muitos meninos como ele, que
chegavam aconchegados por mãos maiores que envolviam as suas, como certezas
repletas que abafavam os medos apertados que se deixavam conduzir.
Transpondo o umbral, ele notou a penumbra do átrio,
simultaneamente misteriosa e lúgubre. Os outros meninos pararam e ensaiaram um
recuo estarrecido, prontamente combatido pelo puxão firme das mãos maiores que
comandavam sem apelo todos os sobressaltos. Ou talvez não tenha havido recuo
nem puxão nem sobressalto, mas apenas a consciência, da parte dele, de uma
reação distinta quando, soltando a mão do aconchego, sorriu por dentro do seu
rosto inexpressivo e avançou pelo chão de tijoleira até a um banco corrido,
encostado à parede lateral. Sentou-se, porque sabia que vinha para ficar. A mãe
dissera-lho, antes de saírem de casa e, por isso, ele interiorizara o facto com
uma certeza tão absoluta como a noção da sua própria existência. Ou mais ainda.
Os outros meninos permaneciam de pé, junto das mães que procuravam largá-los
das mãos maiores com a mesma repleta certeza com que os tinham agarrado e
trazido até ali.
Ele observava atentamente aquele medo que subia das
mãos largadas para o encolhimento dos rostos. Em alguns deles, esse medo
extravasou em lágrimas mal contidas que ele não percebeu, mas de que
estranhamente se compadeceu. A mãe dirigiu-se a ele e ele viu que os passos de
aproximação eram um movimento de despedida.
“Agora ficas aqui com os outros meninos”, disse a
mãe, “Eu vou-me embora e volto logo à tarde para te vir buscar”.
Ele fez o seu rosto sorrir por fora do seu íntimo
inexpressivo e não disse nada. A docilidade com que se deixara conduzir desde
casa, desde a decisão da mãe, fora já eloquência bastante e nada mais havia a
dizer. Porque ele não considerava a necessidade de resposta que a mãe sentia, a
insegurança que criava nela aquele sorriso vazio com que pretendia confortá-la.
A mãe beijou a imobilidade dele e deu meia volta, engolindo a ânsia de palavras
com que sempre se afastava dele e que ele nunca satisfazia, sem que ela
soubesse porquê. Ou sabendo um porquê que não era o dele, porque o silêncio
que, para ela, era frieza e egoísmo, para ele não passava de um modo de exprimir
a insignificância que sentia relativamente a si próprio.
E ficou na escola.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Ficção VI - Apeteceu-lhe chorar
De
olhos baixos, acocorado na sua envergonhada miséria, sentiu o gotejar das moedas
na palma da mão estendida. A seguir fechou-a num punho cerrado de impotência e
revolta. Só depois ergueu os olhos, a tempo de ver as costas da senhora idosa que
se afastava, no passo ligeiro da consciência aliviada.
Apeteceu-lhe
chorar, derramar as lágrimas do seu grito surdo sobre aquelas moedas que
protegia ciosamente na mão fechada. De olhos marejados, apertou mais o punho e
sentiu, nas pontas dos dedos, o atrito pegajoso incómodo da sujidade que
abominava. E recordou um tempo anterior, em que os mesmos dedos, impecavelmente
limpos, arrumavam livros nas prateleiras num ritual de reverência e ternura. Ou
percorriam levemente as lombadas num fervor especializado, em busca de
satisfazer o pedido de mais um cliente.
Esse
tempo era agora uma memória, uma saudade amarga e feroz: entristecia-o no
orgulho de tê-lo vivido, consumia-o no revivalismo em que o alimentava. A
livraria fechara as portas num ato de rendição à competição acelerada de um
tempo que a sua quietude não sabia acompanhar. Despejado do seu emprego de toda
a vida, ele viu-se, aos quarenta e nove anos, abandonado na esquina do seu
mundo arruinado, condenado a recomeçar sem ponto de partida.
Tentou,
porque a sua alma resistente negou-se a aceitar o afogamento. Mas a verdade é
que o seu corpo já ultrapassara a juventude convencionada para o relançamento
de uma vida de produtividade aceitável. E, apesar de teimosamente insistir,
após vinte meses de recusas foi obrigado a capitular. E resignou-se a estender
a mão, habituada ao toque dos livros, à mendicidade de algumas moedas,
compassivamente partilhadas por outros sobreviventes mais afortunados.
Apeteceu-lhe
chorar, derramar as lágrimas do seu grito surdo sobre aquelas moedas que
protegia ciosamente na mão fechada. Sempre amara os livros e nunca se
preocupara com o dinheiro. Agora, no entanto, sabia que aquelas moedas poderiam
valer-lhe mais que a livraria inteira do seu passado. Porque lhe garantiriam
uma sopa para o jantar que lhe aconchegaria o abandono a que a falência da livraria
o condenara.
E
chorou. As lágrimas gotejaram sobre o seu punho cerrado sobre as moedas
gotejadas. Até que ponto seria ainda capaz de descer?...
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Texto décimo sexto
Jogava as damas com o avô desde a infância. Sem o
saber, foi crescendo naquele ritual de aprendizagem da vida. O avô era um homem
repleto, trémulo da doença de Parkinson e da absorção de múltiplas vivências,
um pouco curvado do peso dos anos e do armazenamento de memórias gratificantes.
Nascera no século dezanove, vivera o tempo do regicídio e da República,
assistira às duas guerras mundiais e atravessara o túnel da ditadura. E ainda
haveria de contar a história da revolução dos cravos.
De cada vez que jogavam as damas, o avô inclinava-se
sobre o tabuleiro que um filho trouxera do Brasil e derramava-se sobre ele em
lições de vida. Nas histórias que contava nas entrelinhas das jogadas (as
“mudas”, sempre plenas de intenção), mas também no próprio diálogo estabelecido
sobre o tabuleiro, que aqueles dedos enrugados de sabedoria transformavam em
metáfora de ser. E ele, deixando-se iniciar pelo avô no jogo das damas, sem o
saber crescia por dentro da sua meninice. Aprendia que, no pavimento
quadriculado da vida, há áreas que não podem pisar-se; que é preciso seguir pelos
espaços disponíveis; que a única opção de movimento válida é para a frente; que
se deve sempre buscar companhia no avanço, sem ter medo de enfrentar os
adversários; que há uma meta no extremo oposto daquele donde se parte e que é
preciso superar os obstáculos para atingi-la; que, uma vez aí chegado, tudo
recomeça, que o crescimento no direito a movimentos mais amplos é acompanhado
de uma duplicação do peso a transportar e de uma responsabilidade maior sobre o
tabuleiro. E que o jogo é uma partilha onde a estratégia de sucesso assenta na
atenção ao outro; que a vitória é uma alegria dividida e efémera, o empate é
uma (in)satisfação mútua e a derrota um crescimento a partir dos próprios
erros. Que o melhor de tudo é poder jogar de novo. Ter com quem.
Jogava as damas com o avô desde a infância. Bebeu
sobre o tabuleiro o amor à vida, na delicadeza do toque das pedras redondas, no
recheio deslumbrante das memórias partilhadas, na ternura daquela longevidade
paciente dada ao respeito numa presença desarmada e simples. Quando o avô
morreu, ele tinha vinte anos. Deixou de jogar as damas, depois de mais algumas
partidas casuais com parceiros fortuitos, “mudas” desabitadas em que foi
indiferente ganhar ou perder. Nunca mais lhe apeteceu.
Ainda conserva o tabuleiro que o tio trouxe do
Brasil.
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