terça-feira, 10 de setembro de 2013

Texto décimo quarto

As manhãs de sábado eram para as compras. Ele acompanhava a mãe, transportava os sacos vazios e carregava-os cheios no regresso a casa. A mãe tinha um quisto na mão direita que lhe inibia os carregos e, embora desdenhasse a moléstia, era sôfrega da companhia. Claro que ele julgava-se importante apenas pela força dos braços e, como a mãe nunca lhe elogiava os dotes do espírito, cresceu na convicção de que valia apenas enquanto executor de tarefas. 
O mercado era na rua, ocupava as placas centrais da pequena avenida que desembocava na igreja. Mergulhado na estreiteza das bancas, entre caixas de fruta, molhos de legumes e alguidares de peixe supostamente fresco (os balcões do pão e dos bolos eram mais adiante e, para as roupas, era preciso atravessar para o passeio lateral), ele não imaginava que um dia viria a ter saudades daquele sítio. Dos encontrões entre sacos recheados, das botas a chapinhar na água que escorria com todos os cheiros misturados, da vulgaridade despudorada das conversas em voz alta.
Um dia, o mercado foi instalado em recinto próprio, espaço circular de corredores concêntricos, bancas de pedra com medidas e apetrechos regulamentares. A largueza do sítio, a limpeza e ordem de tudo transformaram as manhãs de sábado em algo diferente, normalizado. Na aparência, tão só, porque o cenário não constrói as personagens. E, sob aquela capa de civilização, ele redescobriu a natural rudeza da população com a qual não se identificava, mas em cujo seio se resignara a crescer.
Hoje, atordoado pela atmosfera artificial da imensidão quadriculada do hipermercado, onde todas as horas são iguais e o anonimato é uma gigantesca vaga que tudo submerge, ele recorda o bulício das placas centrais da pequena avenida que desembocava na igreja, onde a escassez tantas vezes determinava a necessidade de madrugar e a familiaridade chegava a ser incómoda como insetos.
Na imensidão quadriculada do hipermercado, ele suspira, consciente da espiral inexorável do tempo: “O que é que ainda me fará ter saudades disto?”

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Texto décimo terceiro

Mergulhado nos recônditos aprazíveis do Portugal profundo, vi-me, durante uma semana, privado do acesso à internet. Entre outros constrangimentos, a circunstância impediu-me de manter o compromisso da publicação semanal neste blogue, que é a forma periódica que tenho de dizer aos meus leitores que estou vivo e penso neles,
Ligado, todavia, ao mundo da “terceira vaga” pela TDT, assisti na televisão à notícia do décimo aniversário do Skype e de todas as suas virtualidades de comunicação visual e imediata. A voz de locução evocava as cartas e os bilhetes postais como ecos difusos de um passado tornado invisível pela dobragem da esquina de uma evolução tecnológica irreversível e sedutora.
Diante do meu computador portátil, no qual exerci, durante aqueles dias, uma acrobacia de escrita literalmente «sem rede», digitei este texto com uma sensação mista entre a purificação e o desamparo. Para além da nostalgia histórica da “galáxia de Gutenberg”, revisitei a memória das cartas adolescentes que escrevi, e que enviei esperando resposta. E do tempo que escorria em tudo isso. E do que crescia em mim durante esse tempo. E do que se perdia nessa duração. As cartas eram segredos guardados na abstração de um envelope selado que os comunicava com uma lentidão que se arriscava a desatualizá-los. O Skype é a eficácia de comunicação numa partilha de tal modo imediata e concreta e aberta que não garante o segredo. Porventura, nem deseja.
Para além do seu potencial de realização, os meios de comunicação ligados à alta tecnologia invocam, atualmente, em sua defesa, uma sustentabilidade que parece projetá-los numa “quarta vaga”: a dispensa de suporte de escrita permite evitar o desbaste de florestas (compensado, entre nós, por recorrentes, trágicos e criminosos incêndios), garantindo viabilidade enquanto não houver esgotamento dos recursos energéticos.
Que deveremos ainda esperar no futuro, quando todo este presente for deixado para trás, na dobragem de esquina da evolução inexorável?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Nós, Vida | Booktrailer

Aqui fica uma outra forma de abordar o livro Nós, Vida. Apresenta-o, sem o desvendar. Sintetiza-o, preservando a sua identidade. Sugestiona, desafia para a leitura. Convida.
Nós, Vida pode, ele próprio, ser encarado como um convite. A um encontro connosco próprios. À reflexão sobre quem somos.
Vale a pena!


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Texto décimo segundo

A adolescência despontou bizarra dentro dele. Nunca se lhe esbugalharam os olhos diante das formas curvilíneas das raparigas sobre quem, de resto, exercia o curioso fascínio de um aconchego emocional. Elas apreciavam a simplicidade viril do seu cavalheirismo polido, ele dispensava-lhes um modo outro de amizade, feita de consideração e escuta. Revelava-lhes o altruísmo na idade em que ser egoísta é tão natural como as borbulhas no rosto. Amou e quis ser amado, mas só quando descobriu um espírito sublime num corpo recatado de mulher.
A adolescência despontou bizarra dentro dele. Cresceu numa desarmonia de membros, mas expandiu para dentro uma grandeza maior, vislumbrou um mundo interior mais infinito que o universo que aprendia nos bancos da escola. Sem saber que nome lhe dar, chamou alma a essa plenitude. Mas era um termo castrado ainda, porque herdara uma infância de mãos postas e não descobrira ainda o imenso lago filosófico onde haveria de mergulhar depois.
A adolescência despontou bizarra dentro dele. Descobriu-se a olhar sempre para dentro das coisas, dos momentos, dos seres. E não sabia porquê.
Só mais tarde, na sábia distância do tempo e no vislumbre lúcido da memória, percebeu. Recordou os aniversários em que o seu pai o tirava de casa e o soltava nas salas forradas de livros da grande livraria. Ali, varrendo com o olhar as lombadas na possibilidade de escolher o que quisesse – era essa a sua prenda de anos – experimentou inigualáveis êxtases de identidade, desafio, liberdade e sentido. Ali, pela mão do seu pai, descobriu um mundo de fascínio de que soube revestir-se como de um casulo.
Foi nesse casulo que eu nasci. Fui a melhor prenda de anos que o seu pai lhe deu.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Primeira alegoria

Estou aqui.
Há quanto tempo dura a expetativa do encontro?
Diante de mim, uma planície de brancura:
Paz, pureza, soma de tudo.
Impaciência, porque vais aparecer.
O desejo de te ver. A pressa.
E o medo.
O nó na garganta. O garrote dourado.
O medo.
Olho através dele como de grades,
Escorro nas lágrimas uma ansiedade incontida.
O desejo de te ver na pressa de um momento que não quero,
Porque é o princípio do fim.
Calam-se todas as vozes,
Esvazia-se o espaço, desagrega-se o tempo,
Um súbito nada envolve tudo.
E fico só.
Luz.
Luz.
Luz.
Lá estás tu.
Vês-me sem me olhares, no sorriso das tuas mãos atadas.
Abraço-te sem fazer gestos, no sorriso do meu olhar desatado.
A partir de agora, vou viver em ti.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Ficção V - Por causa de um livro

A luz vermelha do semáforo escorregou para verde. Num reflexo condicionado, ele engatou a primeira velocidade e pôs o veículo em andamento, sincronização perfeita do movimento projetado do braço direito e do jogo de pés sobre os pedais: alívio do esquerdo fixando o ponto de embraiagem, pressão do direito na aceleração necessária para o arranque.
Era cuidadoso na condução. Porque aprendera na infância o zelo que punha em todas as coisas e porque se sentia permanentemente avaliado pelos clientes que transportava.
“Vi o filme”, chegou-lhe aos ouvidos, por entre o tiquetaque do taxímetro e o revivalismo do rádio que emitia música dos anos setenta, a voz da mulher de meia idade sentada no banco de trás.
Olhou-a pelo retrovisor. Percebeu os seus olhos cerúleos, que fulgiam na pele morena como topázios, poisados no livro que estava entalado entre o travão de mão e o lugar do morto, lombada amarela para cima a desvendar o título: E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell, segundo volume da segunda edição portuguesa.
“O filme é o livro amachucado”, respondeu ele, descolorindo o mais que pôde a entoação, “Eu prefiro ler”.
Ela franziu a testa, acentuando o lampejo do olhar que tentava sacudir o preconceito na sua limpidez: nunca vira um motorista de táxi como amante da leitura, mas por que não? Ele pareceu não reparar. Apertou o volante entre as mãos cinquentenárias treinadas para gestos mais criativos, concentrou-se no destino e no percurso para atingi-lo. Ela não resistiu à curiosidade:
“Costuma ler muito, aqui dentro do carro?”, perguntou.
“Gosto de ler”, respondeu ele, procurando manter-se neutro à conversa, “É assim que me entretenho entre dois serviços”.
 Ela sorriu, iluminando todo o rosto com a coloração azul celeste do olhar. Sentia-se já invadida por aquela curiosidade cirúrgica que sempre a dominava perante as pessoas que encontrava no jogo do acaso. E, numa decisão sem retorno, lançou a pergunta:
“Se me permite: porque é que diz que o filme é o livro amachucado?”
Foi a vez de ele sorrir, a resposta colorida de emoção bailando-lhe nos lábios. E seguiu-se a conversa.
O táxi foi atravessando a cidade, cúmplice daqueles dois desconhecidos que se desvendaram um pouco nas ideias e sentimentos. Por causa de um livro.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Texto décimo primeiro

Frequentava o 8º ano de escolaridade, na maré baixa já meio serenada dos restos da década de setenta. A aula de História decorria na velocidade de cruzeiro do desinteresse generalizado da turma. Dentro dele, porém, o ritmo era outro, uma aceleração de curiosidade pelo passado que ilumina o presente, uma voragem de busca, no tempo que foi, de uma chave de interpretação do tempo que é. Uma avidez de conhecer, uma insatisfação da ignorância. Uma pressa.
(Hoje ele sabe que a História não ilumina nem interpreta: interessa, porque desenrola uma intriga; fascina, porque expõe o mistério do que cada um de nós é no eco do testemunho do que todos os outros já foram; e compromete, porque nos absorve na vaga da evolução das sociedades, corrida no tempo contra um tempo que há de vir.)
O professor apontava o mapa, continentes mergulhados nos oceanos daquela tela esticada entre duas ripas de madeira que uma fita medrosa suspendia de um camarão torcido, acima do quadro preto (ou seria verde escuro?). E explicava a viagem que definiria a rota do Cabo: a ida que se alargava generosa no Atlântico, barriga esperançada de dar à luz um qualquer Brasil a oeste, gerado no suor do polémico acordo de Tordesilhas; e a volta recheada de oriente, a obesidade das naus apoiada nos contornos reconhecidos da costa africana.
(Anos mais tarde, o reencontro casual com o professor, já desativado das lides docentes e enlatado num trabalho de gabinete que lhe satisfazia a resignada sobrevivência, deixou-o pensativo nos solavancos do autocarro: e se o Gama também se tivesse resignado à mera sobrevivência?...)
Frequentava o 8º ano de escolaridade, na maré baixa já meio serenada dos restos da década de setenta. E ali, naquela aula de História que decorria na velocidade de cruzeiro do desinteresse generalizado da turma, decidiu que queria ser professor.