quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Nós, Vida | Booktrailer

Aqui fica uma outra forma de abordar o livro Nós, Vida. Apresenta-o, sem o desvendar. Sintetiza-o, preservando a sua identidade. Sugestiona, desafia para a leitura. Convida.
Nós, Vida pode, ele próprio, ser encarado como um convite. A um encontro connosco próprios. À reflexão sobre quem somos.
Vale a pena!


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Texto décimo segundo

A adolescência despontou bizarra dentro dele. Nunca se lhe esbugalharam os olhos diante das formas curvilíneas das raparigas sobre quem, de resto, exercia o curioso fascínio de um aconchego emocional. Elas apreciavam a simplicidade viril do seu cavalheirismo polido, ele dispensava-lhes um modo outro de amizade, feita de consideração e escuta. Revelava-lhes o altruísmo na idade em que ser egoísta é tão natural como as borbulhas no rosto. Amou e quis ser amado, mas só quando descobriu um espírito sublime num corpo recatado de mulher.
A adolescência despontou bizarra dentro dele. Cresceu numa desarmonia de membros, mas expandiu para dentro uma grandeza maior, vislumbrou um mundo interior mais infinito que o universo que aprendia nos bancos da escola. Sem saber que nome lhe dar, chamou alma a essa plenitude. Mas era um termo castrado ainda, porque herdara uma infância de mãos postas e não descobrira ainda o imenso lago filosófico onde haveria de mergulhar depois.
A adolescência despontou bizarra dentro dele. Descobriu-se a olhar sempre para dentro das coisas, dos momentos, dos seres. E não sabia porquê.
Só mais tarde, na sábia distância do tempo e no vislumbre lúcido da memória, percebeu. Recordou os aniversários em que o seu pai o tirava de casa e o soltava nas salas forradas de livros da grande livraria. Ali, varrendo com o olhar as lombadas na possibilidade de escolher o que quisesse – era essa a sua prenda de anos – experimentou inigualáveis êxtases de identidade, desafio, liberdade e sentido. Ali, pela mão do seu pai, descobriu um mundo de fascínio de que soube revestir-se como de um casulo.
Foi nesse casulo que eu nasci. Fui a melhor prenda de anos que o seu pai lhe deu.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Primeira alegoria

Estou aqui.
Há quanto tempo dura a expetativa do encontro?
Diante de mim, uma planície de brancura:
Paz, pureza, soma de tudo.
Impaciência, porque vais aparecer.
O desejo de te ver. A pressa.
E o medo.
O nó na garganta. O garrote dourado.
O medo.
Olho através dele como de grades,
Escorro nas lágrimas uma ansiedade incontida.
O desejo de te ver na pressa de um momento que não quero,
Porque é o princípio do fim.
Calam-se todas as vozes,
Esvazia-se o espaço, desagrega-se o tempo,
Um súbito nada envolve tudo.
E fico só.
Luz.
Luz.
Luz.
Lá estás tu.
Vês-me sem me olhares, no sorriso das tuas mãos atadas.
Abraço-te sem fazer gestos, no sorriso do meu olhar desatado.
A partir de agora, vou viver em ti.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Ficção V - Por causa de um livro

A luz vermelha do semáforo escorregou para verde. Num reflexo condicionado, ele engatou a primeira velocidade e pôs o veículo em andamento, sincronização perfeita do movimento projetado do braço direito e do jogo de pés sobre os pedais: alívio do esquerdo fixando o ponto de embraiagem, pressão do direito na aceleração necessária para o arranque.
Era cuidadoso na condução. Porque aprendera na infância o zelo que punha em todas as coisas e porque se sentia permanentemente avaliado pelos clientes que transportava.
“Vi o filme”, chegou-lhe aos ouvidos, por entre o tiquetaque do taxímetro e o revivalismo do rádio que emitia música dos anos setenta, a voz da mulher de meia idade sentada no banco de trás.
Olhou-a pelo retrovisor. Percebeu os seus olhos cerúleos, que fulgiam na pele morena como topázios, poisados no livro que estava entalado entre o travão de mão e o lugar do morto, lombada amarela para cima a desvendar o título: E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell, segundo volume da segunda edição portuguesa.
“O filme é o livro amachucado”, respondeu ele, descolorindo o mais que pôde a entoação, “Eu prefiro ler”.
Ela franziu a testa, acentuando o lampejo do olhar que tentava sacudir o preconceito na sua limpidez: nunca vira um motorista de táxi como amante da leitura, mas por que não? Ele pareceu não reparar. Apertou o volante entre as mãos cinquentenárias treinadas para gestos mais criativos, concentrou-se no destino e no percurso para atingi-lo. Ela não resistiu à curiosidade:
“Costuma ler muito, aqui dentro do carro?”, perguntou.
“Gosto de ler”, respondeu ele, procurando manter-se neutro à conversa, “É assim que me entretenho entre dois serviços”.
 Ela sorriu, iluminando todo o rosto com a coloração azul celeste do olhar. Sentia-se já invadida por aquela curiosidade cirúrgica que sempre a dominava perante as pessoas que encontrava no jogo do acaso. E, numa decisão sem retorno, lançou a pergunta:
“Se me permite: porque é que diz que o filme é o livro amachucado?”
Foi a vez de ele sorrir, a resposta colorida de emoção bailando-lhe nos lábios. E seguiu-se a conversa.
O táxi foi atravessando a cidade, cúmplice daqueles dois desconhecidos que se desvendaram um pouco nas ideias e sentimentos. Por causa de um livro.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Texto décimo primeiro

Frequentava o 8º ano de escolaridade, na maré baixa já meio serenada dos restos da década de setenta. A aula de História decorria na velocidade de cruzeiro do desinteresse generalizado da turma. Dentro dele, porém, o ritmo era outro, uma aceleração de curiosidade pelo passado que ilumina o presente, uma voragem de busca, no tempo que foi, de uma chave de interpretação do tempo que é. Uma avidez de conhecer, uma insatisfação da ignorância. Uma pressa.
(Hoje ele sabe que a História não ilumina nem interpreta: interessa, porque desenrola uma intriga; fascina, porque expõe o mistério do que cada um de nós é no eco do testemunho do que todos os outros já foram; e compromete, porque nos absorve na vaga da evolução das sociedades, corrida no tempo contra um tempo que há de vir.)
O professor apontava o mapa, continentes mergulhados nos oceanos daquela tela esticada entre duas ripas de madeira que uma fita medrosa suspendia de um camarão torcido, acima do quadro preto (ou seria verde escuro?). E explicava a viagem que definiria a rota do Cabo: a ida que se alargava generosa no Atlântico, barriga esperançada de dar à luz um qualquer Brasil a oeste, gerado no suor do polémico acordo de Tordesilhas; e a volta recheada de oriente, a obesidade das naus apoiada nos contornos reconhecidos da costa africana.
(Anos mais tarde, o reencontro casual com o professor, já desativado das lides docentes e enlatado num trabalho de gabinete que lhe satisfazia a resignada sobrevivência, deixou-o pensativo nos solavancos do autocarro: e se o Gama também se tivesse resignado à mera sobrevivência?...)
Frequentava o 8º ano de escolaridade, na maré baixa já meio serenada dos restos da década de setenta. E ali, naquela aula de História que decorria na velocidade de cruzeiro do desinteresse generalizado da turma, decidiu que queria ser professor.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Ficção IV - A vida era outra coisa

Escrevia compassadamente. Deixava deslizar as palavras sobre a folha pautada, ignorando o suor, simultaneamente pegajoso e escorregadio, que lhe colava os dedos ao mesmo tempo que lhe fazia fugir a esferográfica num discurso que não controlava.
Porque, verdadeiramente, ela não estava ali. Era o seu corpo fresco e curvilíneo, o seu rosto de boneca, o seu cabelo aloirado apanhado com um elástico sobre a nuca. Mas ela não estava ali. Era a sua mão delgada que segurava a esferográfica, unhas massacradas pelo vício de roer. Eram até as suas ideias, ou melhor, as ideias que estudara obstinadamente até que fossem suas, que vertia sobre o papel num discurso claro e articulado apesar do piloto automático da distração. Mas ela não estava ali. Discorria sobre as vicissitudes do ultramar português no contexto da primavera marcelista, mas não queria verdadeiramente saber disso. Importava-lhe a nota daquele teste, claro, e a classificação final da disciplina, almofada para o exame nacional que se avizinhava. Mas a vida dela era outra coisa. Eram os últimos dias do Ensino Secundário, o trampolim para a universidade. Mas a vida dela era outra coisa.
Mergulhados no sepulcro da concentração, todos os alunos debruçavam sobre as folhas de prova os recheados silêncios da sabedoria ou os desprovidos sossegos da ignorância. E o véu de quietude da sala de aula era devassado pelos gritos das crianças no pátio, estridentes como canções libertárias, parecendo contestar a tirania daquele esforço intelectual.
Ela invejava-as. Invejava a liberdade delas, a vida que se soltava, inconsciente de si mesma, na descontração daqueles gritos. A sua vida. Invejava-as enquanto a esferográfica lhe conduzia a mão no discurso que desenrolava em caligrafia rasteira.
E sorria, limpava o suor da mão, observadora ausente da sua própria escrita.
E lamentava não poder voar.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Texto décimo

Os Miseráveis, de Victor Hugo. A escrita definitiva, a literatura acabada e completa. Fixamo-nos no início de cada volume como em alicerces, crescemos com os capítulos sucessivos, viramos a última página como quem coloca a pedra de fecho da abóbada. E ficamos a contemplar aquela imensa obra, arquitetura de palavras, força contida nas palavras, vida latente na força que as palavras contêm.
Os Miseráveis: palavras que ganham vida para dizer a vida toda com incomparável mestria. Está ali a França das revoluções e das barricadas, a história, o ser humano na metáfora do anseio de liberdade e das barreiras da contradição. Está ali a intriga, a humanidade toda naquelas personagens, nas palavras que as dizem de forma sublime. Estamos ali nós.
Somos nós, naquelas personagens. Somos nós naqueles heroísmos preenchidos de fragilidade, naquelas fraquezas possuídas pela coragem. No sublime e no ridículo, no genuíno e no perverso, na virtude e na baixeza. Somos nós em Jean Valjean e em Javert, em Fantine e nos Thénardier. E em Cosette. E em Marius. E no Gavroche que vive – ou já viveu – ou devia viver ou ter vivido – em cada um de nós. E em todos os outros.
Somos nós naqueles que são muito mais que nós. Elevam-nos a fasquia, transcendem-nos. São literatura, dizem-nos a nós mesmos muito mais. E amamo-los por isso.
Os Miseráveis, de Victor Hugo: o melhor livro que já li.