sábado, 15 de junho de 2013

Conversando...

Saudações cordiais.
Quero agradecer a todos os visitantes e seguidores deste blogue. A intenção, ao criá-lo, foi possibilitar um espaço de partilha a partir da escrita e da criação literária, essa forma indireta de olhar para o mundo em que vivemos e que tão diretamente nos diz respeito.
Gosto de escrever e de comunicar por escrito. Por isso, alegram-me os comentários dos leitores. Espero por eles para estabelecer diálogo. Tentarei sempre responder, como até aqui.
Se alguém quiser dirigir-me uma mensagem mais particular, poderá contactar-me por e-mail: alvarocordeiro64@gmail.com. Responderei sempre.
Obrigado por estarem aqui. Sejam bem vindos. Fiquem por cá!

terça-feira, 11 de junho de 2013

Texto sétimo

Ler. Amar a leitura. Amar-se na leitura. Amar o ato de amar na leitura. Amar os outros na leitura. Amar os outros descobertos outros na leitura.
Ler. Preencher-se. Sair do tempo gerador de vazios e projetar-se numa eternidade sinónimo de plenitude. Exilar-se de um espaço tecido de labirintos interrogados e mergulhar num infinito plasmado de mistérios. Fugir da urgência para resolver a necessidade.
Ler. Aceder à revelação. Perceber a insuportável luz do sol filtrada pelo vitral das palavras modeladas. E entender tudo sem ter as respostas.
Ler. Devolver-se ao tempo e ao espaço. Retomar a urgência sem voltar a sentir a pressa. Viver a vida.
Ler. Viver.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Ficção I - O ato inerme e vulnerável

De pé, no cais da estação, a espera. A gabardina azul escura de gola levantada, a camisa roxa por baixo, a banalidade das calças jeans, toda a roupa envergada como uma couraça contra a multidão desconhecida anónima. A multidão indiferente hostil: indiferente na sua hostilidade, hostil porque indiferente.
O silvo, a percussão sucessiva ritmada, o cheiro mecânico da massa metálica em movimento: a aproximação do comboio. A paragem ruidosa da composição, o abrir seco das portas, a entrada. O movimento da gente, continuidade mecânica da deslocação das carruagens.
A busca de um assento, a luta por um assento. A pasta de cabedal em riste como arma de gladiatura naquela arena claustrofóbica. A conquista de um lugar, as pernas fletidas sobre o estofo como um gesto de polegar imperial erguido, a couraça azul escura a tocar o padrão aveludado do encosto num roçagar vitorioso.
Depois, o arranque, o comboio em marcha. A gente toda parada na sua deslocação. A descontração da gabardina, o abrir do fecho da pasta como um gesto de deposição dos ferros da batalha. Surdir o livro lá de dentro como um truque ilusionista, um arabesco de transcendência. E ler. Abstrair-se de tudo, esquecer a imprescindível couraça, ignorar a inevitável indiferença hostilidade, centrar-se no ato inerme e vulnerável. Ler.
O comboio em andamento, a gabardina imóvel, o corpo sentado, o olhar mergulhado, o cérebro aceso, o espírito elevado. A vida toda. Ler.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Texto sexto


Houve um tempo em que tudo era diferente. O tempo das nossas existências limpas, em que mergulhávamos nos segredos um do outro, em que dávamos as mãos frente a frente, no aconchego dos nossos olhares derramados.
Nesse tempo tudo era simples, ou nisso acreditávamos. Era o tempo em que acreditar era simples e valia a pena, o tempo em que nos dizíamos em confidências sem escudo, em que éramos atentos à importância de tudo, porque tudo a que dávamos atenção era importante por isso. E fazíamos sentido.
Hoje, não. Olho para ti e tenho de afastar as cortinas opacas das mágoas recalcadas, para entrever esse outro tempo no fundo dos teus olhos com que já não me vês.
Onde é que nos perdemos? Em que ponto do percurso é que os nossos destinos se descruzaram, em que marca do tempo é que deixamos que as nossas existências escorressem da margem de um equilíbrio doce e recetivo para um afundamento no azedume das incompreensões e das críticas?
Não sei. Olho-te nos olhos com que já não me vês e confesso esta minha ignorância misturada de susto e impotência. Porque quero refazer um percurso que não consigo querer refazer suficientemente, por isso resta-me a resignação pesarosa de que carregaremos esta distância até ao fim. E depois.
Houve um tempo em que tudo era diferente. Mas esse tempo não voltará. Nem depois do tempo.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Texto quinto


Calar-se. Olhar para si próprio. Enfrentar o silêncio. Inquietar-se. Ter medo. Pensar. Pensar no que é ter medo. Pensar para não ter medo de ter medo. Penetrar no vulcão das ideias. Queimar-se. Sentir a infernal voragem. Confrontar-se com a imolação de si próprio. Querer fugir. Não ter para onde fugir. Esbarrar contra as próprias paredes. Cair. Sentir o lajedo frio de estar perdido. Mergulhar no abandono. Chorar. Chorar dentro de si. Enraivecer-se. Gritar sem se ouvir. Gritar para não se ouvir. Desejar a surdez. Odiar a própria surdez. Amar o ódio à própria surdez. Resignar-se. Acomodar-se no escuro. Recear a luz. Desejar a luz. Desejar o receio da luz por recear o desejo da luz. Aceitar. Abrir os olhos. Pincelar de luz o invisível. Colorir. Desenhar palavras. Perceber uma saída. Inventar uma saída. Perceber a possível invenção de uma saída. Suspirar de alívio. Desinstalar-se do alívio. Arregaçar as mangas. Predispor-se para o suor. Escrever.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Texto quarto


Paz interior. Aquilo que o escritor não tem. A superação dos dilemas, o equilíbrio das forças em braço de ferro, a reconciliação dos fantasmas eternamente beligerantes, ou a mera constatação de uma possível coexistência pacífica entre eles. Um armistício. Um corredor de luz, uma perpendicular entre as trincheiras, a crença numa variada nudez conciliatória que vença os uniformes inimigos sem porquê.
Paz interior. Aquilo que o escritor não tem. A acalmia nos sobressaltos, a certeza panorâmica de uma respiração regular e constante para lá das neutras apneias da indiferença, para lá da trepidação ofegante das militâncias visionárias.
Paz interior. Aquilo que o escritor não tem. A tranquilidade nutritiva de uma interrogação persistente e fecunda, a resignação curvada de permanecer na dúvida.
A alegria de encontrar a resposta. Aquilo que o escritor não tem. Paz interior.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Texto terceiro


Eu não sou se não escrever, porque eu não sou senão escrever.