De pé, no cais da estação, a espera. A gabardina
azul escura de gola levantada, a camisa roxa por baixo, a banalidade das calças
jeans, toda a roupa envergada como
uma couraça contra a multidão desconhecida anónima. A multidão indiferente
hostil: indiferente na sua hostilidade, hostil porque indiferente.
O silvo, a percussão sucessiva ritmada, o cheiro
mecânico da massa metálica em movimento: a aproximação do comboio. A paragem
ruidosa da composição, o abrir seco das portas, a entrada. O movimento da
gente, continuidade mecânica da deslocação das carruagens.
A busca de um assento, a luta por um assento. A
pasta de cabedal em riste como arma de gladiatura naquela arena claustrofóbica.
A conquista de um lugar, as pernas fletidas sobre o estofo como um gesto de
polegar imperial erguido, a couraça azul escura a tocar o padrão aveludado do
encosto num roçagar vitorioso.
Depois, o arranque, o comboio em marcha. A gente
toda parada na sua deslocação. A descontração da gabardina, o abrir do fecho da
pasta como um gesto de deposição dos ferros da batalha. Surdir o livro lá de
dentro como um truque ilusionista, um arabesco de transcendência. E ler. Abstrair-se
de tudo, esquecer a imprescindível couraça, ignorar a inevitável indiferença
hostilidade, centrar-se no ato inerme e vulnerável. Ler.
O comboio em andamento, a gabardina imóvel, o corpo
sentado, o olhar mergulhado, o cérebro aceso, o espírito elevado. A vida toda.
Ler.