Calar-se. Olhar para si próprio. Enfrentar o
silêncio. Inquietar-se. Ter medo. Pensar. Pensar no que é ter medo. Pensar para
não ter medo de ter medo. Penetrar no vulcão das ideias. Queimar-se. Sentir a
infernal voragem. Confrontar-se com a imolação de si próprio. Querer fugir. Não
ter para onde fugir. Esbarrar contra as próprias paredes. Cair. Sentir o lajedo
frio de estar perdido. Mergulhar no abandono. Chorar. Chorar dentro de si.
Enraivecer-se. Gritar sem se ouvir. Gritar para não se ouvir. Desejar a surdez.
Odiar a própria surdez. Amar o ódio à própria surdez. Resignar-se. Acomodar-se
no escuro. Recear a luz. Desejar a luz. Desejar o receio da luz por recear o
desejo da luz. Aceitar. Abrir os olhos. Pincelar de luz o invisível. Colorir.
Desenhar palavras. Perceber uma saída. Inventar uma saída. Perceber a possível
invenção de uma saída. Suspirar de alívio. Desinstalar-se do alívio. Arregaçar
as mangas. Predispor-se para o suor. Escrever.
terça-feira, 21 de maio de 2013
terça-feira, 14 de maio de 2013
Texto quarto
Paz interior. Aquilo que o escritor não tem. A
superação dos dilemas, o equilíbrio das forças em braço de ferro, a
reconciliação dos fantasmas eternamente beligerantes, ou a mera constatação de
uma possível coexistência pacífica entre eles. Um armistício. Um corredor de
luz, uma perpendicular entre as trincheiras, a crença numa variada nudez
conciliatória que vença os uniformes inimigos sem porquê.
Paz interior. Aquilo que o escritor não tem. A
acalmia nos sobressaltos, a certeza panorâmica de uma respiração regular e
constante para lá das neutras apneias da indiferença, para lá da trepidação
ofegante das militâncias visionárias.
Paz interior. Aquilo que o escritor não tem. A
tranquilidade nutritiva de uma interrogação persistente e fecunda, a resignação
curvada de permanecer na dúvida.
A alegria de encontrar a resposta. Aquilo que o
escritor não tem. Paz interior.
terça-feira, 7 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Texto segundo
Sou apenas no que escrevo. Fora disso sou toda a
minha vida visível, no cinzento das pressas do dia a dia, na policromia às
vezes desbotada de todas as pessoas que me rodeiam, no arco-íris da sala de
aula onde me entrego numa reinvenção quotidiana. Na frágil lamparina do teatro
amador, que goteja na escuridão a teimosia da sua chama votiva. E no imenso
ofuscante clarão dos que me são queridos, que me ardem por dentro como as
labaredas aveludadas duma floresta incendiada, duma sarça ardente imensurável.
E sobram as longas noites de solidão fria, onde me
espreito outro na escuridão das insónias inundadas de imaginação e de discurso,
num turbilhão de cascata. Onde me vejo este espaço vazio que me sinto, entre as
amarras e a busca
É então que sou outro, o da escrita. Outro que me
deixa ser mais eu próprio, que me faz ser mais eu próprio nele. Porque me solta
as amarras e me amarra à busca.
terça-feira, 23 de abril de 2013
Texto primeiro
Gosto de escrever. Gosto de ser quem sou na escrita. Os dedos frenéticos sobre o teclado corporizam o ser humano essencial que assim me descubro, dão-me a conhecer esta parte mais sublime ou bizarra de mim em que me apraz (re)conhecer-me. Distante e tantas vezes alheio de mim, aproximo-me e estreito-me e cativo-me na escrita. E cresço.
Álvaro Cordeiro é o nome que me dou neste ato de descoberta e surpresa. Não é outro nome, é o nome de um outro que me habita neste transe. Que me prolonga, que me devolve e acrescenta. Que imagina para lá da minha observação, que verte em palavra escrita o que eu não sei dizer. Que cria onde eu não sou capaz de imitar.
Escrevo-me, mas é ele que me escreve. É ele que conjuga nesta prosa cintilante o caleidoscópio das palavras que eu não sei manejar. Eu não sou quando escrevo, dou-lhe o meu lugar em mim. Por isso, neste momento de escrita, é ele e não sou eu.
Paulo Vaz é o nome que tenho na pessoa que sou, que tenho que ser, que não posso deixar de ser, que quero ser. Exceto quando escrevo. Como agora.
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